Arquivo do mês: agosto 2012

O dédalo: para finalizar o século XX

O DÉDALO: PARA FINALIZAR O SÉCULO XX
E PARA ENCARAR O SÉCULO XXI

Ivan Bilheiro

Obra do mês do Sempre um Livro, o texto de Georges Balandier (1999), cujo subtítulo indica a intenção de “[…] contribuir para sair dele [o século XX] de forma menos confusa, e menos resignada ao abandono das responsabilidades” (p. 11), serve também na busca de compreensão do verdadeiro vórtice que é a vivência neste novo século XXI, mesmo já em sua segunda década. É leitura, portanto, para encarar este século como serviu para finalizar o passado. Obsolescências à parte, como o fato de tratar de “tubos catódicos” que já não são o ápice da tecnologia em uso para os televisores contemporâneos, a obra apresenta, entretanto, noções gerais sobre a sociedade da “sobremodernidade” (expressão mais usual de Balandier para o que, mais comumente, é designado por “era pós-moderna”) que são muito atuais. Falar do homo cathodicus (p. 217) para denunciar a midiatização generalizada, o aprisionamento da política pelos “dédalos” da comunicação, é recurso válido, à revelia da tecnologia ultrapassada a que a metáfora faz referência.

O dédalo: para finalizar o século XX

O dédalo: para finalizar o século XX

Como antropólogo que é, Georges Balandier apresenta um dissecamento de certos comportamentos não notados por conta da familiaridade que, por vezes, surpreendem até pela irreverência. É assim o caso do ecologismo que gera atitudes de “veneração do verde”, em que a paisagem e a natureza são produtos de vendas para lugares fora do caos da cidade, revelando mais uma faceta do poder que o mercado tem de transformar tudo em mercadoria na sobremodernidade. Também é de destacar, neste caso, a citação sobre o “tratamento do cadáver” (p. 115), que permite simular o estado de sono em vida. Falando deste ritual que permite escamotear a morte, Balandier surpreende o leitor com uma nova visão sobre o que, usualmente, não seria observado. Nesta linha, plásticas e cirurgias estéticas são afirmadas como “forma e camuflagem da idade biológica” (p. 114) e a exaltação quase doentia de figuras muito aparentes da mídia, especialmente do meio artístico, são comparadas às atitudes de sacralização. Lembra, com esta forma de surpreender pela análise, por exemplo, o peculiar olhar sobre os comportamentos humanos (com destaque especial para o sexo) apresentado pelo zóologo Desmond Morris em seu livro O macaco nu (1996).

O dédalo (1999) é uma visão e uma análise sistêmica, embora não sistematizada. Seu autor apresenta uma perspectiva lúcida e aprofundada, baseada e dialogando com grandes pensadores contemporâneos, e percorre, indiscriminadamente, as mais diversas facetas da contemporaneidade. Nesta análise ampla, as divisões excessivas e sistemáticas seriam incômodos, posto que muito artificiais. Daí o fato de o texto percorrer, por vezes, em um mesmo capítulo, assuntos que seriam focos específicos de outros, ou haver temas constantes em todos eles.

Ante ao cenário de constante movimento, de obsolescência, mudança e ruptura, Balandier ainda crê na possibilidade de o homem comum se orientar. Absolutamente realista com relação ao caos em que a sobremodernidade lança a todos, o livro O dédalo pretende que sejam estimuladas ações no sentido de encarar “a obrigação, aparentemente paradoxal, de civilizar os ‘novos’ novos mundos oriundos da obra civilizadora” (p. 243). Por “novos” novos mundos, o antropólogo francês se refere às novas formas de criar o real estabelecidas a partir das criações do homem em sua ação de “civilizar o mundo”, como, por exemplo, o império das imagens (destaque para a televisão) (p. 130 ss), a ruptura da crença arraigada por uma religiosidade difusa (p. 164), e a temível depressão da vida política ante a uma aparente impossibilidade frente ao complexo (p. 219).

Com reflexões políticas, antropológicas, históricas, sociais e mesmo religiosas, a obra de Georges Balandier apresenta uma tenaz visão esboçada às portas do século “sobremoderno” que vigora, e permite a contemplação do aprofundamento de diversos “pontos críticos” por ele apontados à época, bem como o estímulo para a reflexão e, como sugere o autor, seu combate.

Da mensagem do livro, para encerrar, deve-se refletir: o labirinto criado pelo Dédalo da mitologia grega, a fim de aprisionar o Minotauro, é obra tão grandiosa quanto as criações obtidas pela potência humana. Mas perigosas, posto que permitem a confusão em seus meandros, a apatia, a sensação de derrota. A metáfora dá a mensagem: criados os labirintos, é pela mesma capacidade que se deve encará-los.

Referências

BALANDIER, Georges. O dédalo: para finalizar o século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

MORRIS, Desmond. O macaco nu: um estudo do animal humano. 13. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

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Georges Balandier

BalandierO autor do mês no grupo Sempre um Livro é o francês Georges Léon Émile Balandier, nascido em 21 de dezembro de 1920. Entre outras obras importantes no âmbito da sociologia, escreveu aquela por nós escolhida: O dédalo: para finalizar o século XX.

Professor emérito da Sorbonne (Université René Descartes, Paris-V), é sociólogo, antropólogo e etnólogo. Atuou politicamente e fez estudos ligados à cultura africana, tendo inaugurado a cátedra de Sociologia da África na instituição em que é docente. É diretor de estudos na “École des Hautes Études en Sciences Sociales” e colaborador do “Centre d’Études Africaines”.

Entre seus parceiros de trabalho, encontram-se o sociólogo Michel Maffesoli, com o qual fundou o Centre d’Études sur l’actual et le quotidien, e Alfred Sauvy, o qual, em uma publicação da década de 1950, cunhou a expressão “Terceiro Mundo”.

Intelectual de renome, Balandier fez profundas análises sobre a cultura contemporânea, entre as quais aquela exposta na obra do mês de nosso grupo de leituras.

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Encontro de 4 de agosto de 2012

Ontem, dia 4 de agosto, reuniu-se mais uma vez o Sempre um livro.

A “prece inicial” acabou ficando nas mãos da anfitriã Isabella, que para já ambientar o encontro à poesia e à escrita de García Lorca, leu três pequenos poemas do autor, a saber, A Lua e a Morte, O Punhal e O Mar.

Abordamos durante o encontro, além de questões intrínsecas à obra Bodas de Sangue, a epigênese da tragédia retratada em tal obra. Após ler uma notícia de jornal, em 1928, que falava de uma tragédia semelhante à retratada na obra, García Lorca decidiu escrever algo inspirado nessa notícia.

Isabella, inclusive, levou uma edição que continha a reprodução da notícia lida por Lorca, saída no jornal espanhol ABC. Outro texto do mesmo jornal espanhol, só que de 1933, foi levado por Ailton. O texto era uma crítica da época em relação à encenação da peça, feita pela primeira vez no dia 8 de março daquele ano.

Em relação à obra em si, ficou acentuado aquele ar de tragédia inevitável que a peça transmite, a centralidade de importância das personagens da mãe e de Leonardo e a redução dramática e ascenção poética do terceiro ato, muito nítida para nós e também para a crítica da época.

VOTAÇÃO

A obra escolhida para o mês de agosto foi O Dédalo – Para finalizar o século XX, de Georges Balandier, indicada pelo Ivan. Além dela concorreram também: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber, indicada pela Rita; Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, de Emília Ferreira, indicada pelo Ailton; A Volta do Parafuso, de Henry James, indicada pela Isabella e Sidarta, de Hermann Hesse, indicada pelo Rogério.

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Bodas de Sangue

*Texto de Isabella Brandão M. Martins

A peça teatral Bodas de Sangue de Federico García Lorca é uma tragédia que pertence a trilogia: Yerma e A Casa de Bernarda Alba.  A obra foi escrita em 1931 e estreou em Madrid e Buenos Aires em 1933. Sem dúvida é umas das peças de Lorca mais conhecida e encenada em todo o mundo. Teve também uma adaptação para o cinema, de mesmo nome, Bodas de Sangue, feita pelo importante diretor espanhol Carlos Saura.

O enredo da tragédia foi inspirado em um crime que aconteceu em Almería (Andaluzia – Espanha) em 1928, Montes Cañada foi assassinado em circunstâncias misteriosas, quando fugia com sua prima no dia do casamento dela. Alguns dias depois descobriram que quem o matou foi o irmão do noivo. A história criada por Lorca começa quando o noivo decide pedir a mão de sua noiva em casamento, e comunica a decisão a sua mãe. Desde o inicio já se percebe o final trágico da história, o que na minha opinião não diminui a tensão presente em todo o drama. A noiva por sua vez, já havia tido como noivo, durante três anos seu primo Leonardo, e a paixão mal resolvida entre ambos é o fruto da tragédia.  Bodas de Sangue, além de ser também uma história de amor, é uma história sobre a liberdade, e também não tem como não se lembrar do herói clássico que tenta fugir do seu destino, e acaba sendo surpreendido por ele. Nada pode ser mais forte e fatal que o nosso destino, e nada mais poético do que a Lua e a Mendiga em um final trágico de uma história de amor.

Fontes: http://es.wikipedia.org/wiki/Bodas_de_sangre

Bodas de Sangue – Federico García Lorca, Peixoto Neto – São Paulo, 2004

Bodas de Sangre – Federico García Lorca, Alianza Editorial – Madrid, 2009

Link Do filme Bodas de Sangue – Carlos Saura (1981) – http://www.youtube.com/watch?v=5mwGWAn_Sqc

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Federico García Lorca*

*Texto de Isabella Brandão M. Martins

Federico García Lorca nasceu na cidade de Fuente Vaqueros em Granada (Espanha)  no dia 5 de Junho de 1898, e é considerado um dos mais importantes poetas e dramaturgos espanhois do século passado. Estudou Direito, Letras e Filosofia  na Universidade de Granada, onde conheceu Manuel de Falla, quem exerceu grande influência sobre Lorca e lhe transmitiu seu amor pelo folclore e pelo popular. Em 1919 se mudou para Madrid e foi morar na Residência dos Estudantes, ali conheceu  poetas de sua geração e fez amizades com artistas como Buñuel e Dalí. Neste ambiente se dedicou a poesia, a música e ao desenho, e começou a se interessar pelo teatro.

Publicou seu primeiro livro de poesia em 1921 que se chamava Livro de Poemas, porém, somente em 1927 obteve reconhecimento literário com seu livro Canções e também com sua peça Mariana Pineda. Lorca escreveu ao longo de sua vida doze livros de poesia e treze peças de teatro, além de sua única obra em prosa: Impressões e Paisagens de 1918.

Morreu fuzilado assim que começou a guerra civil espanhola, em 16 de agosto de 1936. Foi acusado de disseminar idéias liberais em suas obras e também por ser abertamente homossexual.

Poesia

  • Livro de Poemas – 1921
  • Ode a Salvador Dalí – 1926.
  • Canciones (1921-24) – 1927.
  • Romancero gitano (1924-27) – 1928.
  • Poema del cante jondo (1921-22) – 1931.
  • Ode a Walt Whitman – 1933.
  • Canto a Ignacio Sánchez Mejías – 1935.
  • Seis poemas galegos – 1935.
  • Primeiras canções (1922) – 1936.
  • Poeta em Nueva York (1929-30) – 1940.
  • Divã do Tamarit – 1940.
  • Sonetos del Amor Oscuro – 1936

Prosa

  • Impressões e Paisagens – 1918
  • Desenhos (publicados em Madri) – 1949
  • Cartas aos Amigos – 1950

Teatro

  • Assim que passarem cinco anos – Lenda do tempo – 1931.
  • Retábulo de Don Cristóvão e D.Rosita – 1931.
  • Amores de Dom Perlimplim e Belisa em seu jardim” – 1926.
  • Mariana Pineda – 1925.
  • Dona Rosinha, a solteira – 1927.
  • Bodas de Sangue (Trilogia) – 1933.
  • Yerma (Trilogia) – 1934.
  • A Casa de Bernarda Alba (Trilogia) – 1936.
  • Quimera – 1930.
  • El publico – 1933.
  • O sortilégio da mariposa – 1918.
  • A sapateira prodigiosa – 1930.
  • Pequeno retábulo de Dom Cristóvão – 1931.

Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Garc%C3%ADa_Lorca

http://hablandorepublica.blogspot.com.br/2012/04/federico-garcia-lorca-el-gran.html

http://es.wikipedia.org/wiki/Federico_Garcia_Lorca

Vídeos sobre Lorca:

http://www.youtube.com/watch?v=eCwqZjku16A

http://www.youtube.com/watch?v=fjToeTZqiN4

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