Arquivo do mês: junho 2012

Sagarana: a prima obra de Rosa

A leitura de João Guimarães Rosa continua e os escritos também. Depois de escrever um breve texto que contém informações biográficas do autor e a listagem de todas as suas obras publicadas em vida, escrevo hoje um pouco sobre a obra que nós, do Sempre um Livro, estamos lendo: Sagarana.

Como havia dito no texto anterior, a obra foi a primeira publicação de Guimarães Rosa. Sua primeira edição saiu em 1946, pela José Olympio Editora. Oito anos antes, uma primeira versão da obra, intitulada Contos e assinada por Guimarães Rosa com o pseudônimo de Viator, foi premiada no Concurso Humberto de Campos com o segundo lugar, perdendo para Maria Perigosa de Luís Jardim.

Desta primeira versão para a versão definitiva de Sagarana algumas alterações foram feitas: três contos (Questões de Família, Uma História de Amor e Bicho Mau) foram retirados e os nove remanescentes passaram por algumas revisões durante o ano de 1945.

Os vários elogios feitos à Guimarães Rosa e suas obras no post anterior e os elogios que fatalmente virão também nesse post, não são feitos sem propósito, pensando apenas na figura histórica de Joãozito ou então na sua fama que o coloca entre os “deuses” da Literatura Brasileira. Tudo isso é sim muito válido, no entanto, ao me deparar com Sagarana o que encontrei foi uma escrita única, que poderia ser desvinculada de qualquer rótulo, dada toda sua originalidade e, por que não, complexidade. Falo isso em especial por dois motivos: o primeiro é o fato de muitos leitores desavisados e/ou superficiais rotularem a obra de Guimarães Rosa como uma obra regionalista. Em um pequeno artigo falando sobre Sagarana, intitulado A Arte de contar em Sagarana, Paulo Rónai nos alerta sobre esse perigo de, ao rotular a obra de Guimarães Rosa, reduzi-la:

Para muitos escritores fracos, o regionalismo é uma espécie de tábua de salvação, pois têm a ilusão – e com eles parte do público – de que o armazenamento de costumes, tradições e superstições locais, o acúmulo de palavras, modismos e construções dialetais, a abundância da documentação folclórica e lingüística [sic] suprem as falhas da capacidade criadora. Pelo contrário, para os autores que trazem uma mensagem humana e o talento para exprimi-la, o regionalismo envolve antes um obstáculo e uma limitação do que um recurso. (RÓNAI, 2001, p. 15)

Durante a leitura de Sagarana fica claro que Guimarães Rosa pertence ao grupo dos autores mencionados na última frase da citação e que, com muita sensibilidade e leveza, consegue ultrapassar o “obstáculo regionalista”.

Além disso, outro ponto que me incomoda quando o assunto é Guimarães Rosa é a exaustiva “queda” das suas obras nos vestibulares. Ainda que este assunto não seja nosso principal ponto a ser discutido, acredito ser válido um pequeno parágrafo paralelo para explorá-lo.

Cada vez mais percebo que (hoje isso se torna até óbvio) a obra roseana requer muita vivência, experiência e profundidade por parte do leitor para ser lida de uma maneira intensa e impactante, como acredito que devem ser lidas todas as obras de qualquer autor. Não quero dizer, com isso, que uns são melhores leitores do que outros, ou que os vestibulandos não possuem a vivência necessária para ler Guimarães Rosa, não, não é isso. O grande problema é que, ao terem de encarar a obra de Guimarães Rosa por obrigação, para passar em uma prova ou concluir um curso qualquer, boa parte dos leitores possivelmente não a lerá de uma maneira intensa e impactante, buscando qualquer tipo de sentido na obra. Dessa forma, toda a riqueza literária de Guimarães Rosa corre o sério risco de ser jogada fora por esses leitores, que, além de perderem uma boa leitura para a adolescência ainda podem criar uma antipatia com a obra e perderem uma ótima leitura para a vida toda. Guimarães Rosa pode até já ter se tornado um clássico da Literatura Brasileira e figurar no “panteão” da mesma, no entanto, sua obra não merece e nem deve ser colocada na estante dos clássicos fechados e obsoletos, sinônimo de chatice e complexidade excessivas para potenciais novos leitores. Respeito com a obra do hômi, que não é nenhuns-nada fraca!

Como já disse, esses (a rotulação/redução da obra de Guimarães Rosa como regionalista e a excessiva “queda” dessa mesma obra nos vestibulares) são dois pontos que me incomodam em relação à obra roseana e que acredito serem de certa relevância para a discussão do Sempre um Livro, no próximo dia sete. No entanto, não pretendo ficar aqui escrevendo pontos que me incomodam em relação a este belo livro que é Sagarana. Tenho infinitos motivos para, ao invés disso, falar de pontos positivos da obra, que ao invés de me incomodar, me animam e muito para continuar lendo e relendo a mesma e também escrevendo e discutindo sobre. É, aliás, o que passo a fazer a partir de agora.

No intuito de proporcionar uma breve introdução à discussão do próximo encontro, farei aqui um breve comentário sobre cada um dos contos (ou novelas) de Sagarana, procurando encontrar possíveis pontos de discussão e/ou pontos que por si só me chamaram a atenção e não necessariamente precisam ser discutidos.

A novela que abre a obra é “O Burrinho Pedrês”. Já de cara, Guimarães Rosa nos coloca em um ambiente comum a todas as novelas da obra: o sertão mineiro. O enredo, repleto de histórias paralelas, o que traz várias personagens à baila, basicamente conta a história do carregamento de uma boiada do Major Saulo e, posteriormente, do afogamento do grupo de vaqueiros que carregava essa boiada. A figura do burrinho pedrês, além de dar título à novela, é central dentro do enredo e nos faz refletir sobre a sabedoria adquirida com o tempo, com a experiência. Narrada em terceira pessoa, a novela já mostra a ironia fina do narrador onisciente, marca comum em todas as novelas narradas em terceira pessoa e contidas na obra.

“A Volta do Marido Pródigo”, segundo o próprio Guimarães Rosa é “a menos ‘pensada’ das novelas do Sagarana” (ROSA, 2001, p. 26). Isso talvez fique claro no decorrer da novela pela maneira sem muita cerimônia pela qual os “capítulos” vão se desenrolando. A personagem mencionada no título da novela, o marido pródigo, é Lalino Salãthiel: um malandro sertanejo, contador de histórias e causos, que vai embora do sertão, mas decide voltar. Um trecho que talvez ilustre bem a decisão de Lalino, de voltar pra casa é esse: “O dinheiro se fora. Rareavam os biscates. Veio uma espécie de princípio de tristeza. E ele ficou entibiado e pegou a saudadear” (ROSA, 2001, p. 118). Não foi apenas para ilustrar a decisão de Lalino voltar pra casa que fiz essa citação. O último verbo é criação exclusiva do autor, uma das muitas.

A novela “Sarapalha” é a mais curta dentre todas. E talvez também a mais simples. No entanto, as figuras humanas, dos dois primos (Ribeiro e Argemiro) são muito bem exploradas. O desfecho e a novela como um todo nos proporcionam um tom melancólico, mas de uma melancolia notadamente sertaneja. O forte contato do homem e do animal é mais uma vez explorado, ainda que de maneira mais tímida do que na primeira novela da obra.

Em “Duelo”, nos deparamos com uma verdadeira caçada onde caça e caçador não possuem estatutos definidos. São ambos homens: Turíbio Todo e Cassiano Gomes. Interessante notar as várias referências às sabedorias popular e religiosa e também o desfecho inesperado, mas muito bem pensado. Além de tudo, esta novela (como quase todas as outras, escolhi meio que aleatoriamente este detalhe para essa novela em específico), nos proporciona cenas de um humor fino, que flerta com a ironia e o sarcasmo. Cito uma fala de Cassiano Gomes, o ferrenho rival de Turíbio Todo: “- Você conhece o Turíbio Todo, o seleiro, aquele meio papudo?… Pois é um… (Aqui, supostas condições de bastardia e desairosas referências à genitora.)” (ROSA, 2001, p. 181).

“Minha Gente”, uma das poucas novelas narradas em primeira pessoa (à exemplo de “São Marcos” e “Corpo Fechado”) é a história de um homem que vai à fazenda de seu Tio Emílio e se vê envolvido em um ambiente que mistura figuras exóticas do sertão, como o enxadrista Santana, seu Tio Emílio e a política e tudo o que envolve este assunto em um ambiente sertanejo (a política é explorada também em outros contos, como, por exemplo, “A Volta do Marido Pródigo”) e, enfim, a sua relação com sua prima Maria Irma. A maneira pela qual Guimarães Rosa trata essa relação amorosa é genial! Faz uso disso, inclusive, para criar certo humor irônico no desfecho da novela.

A novela “São Marcos” é onde encontramos mais numerosas referências à paisagem, ao ambiente, num exercício literário possivelmente muito árduo por parte de Guimarães Rosa. O enredo, no entanto, não fica pra trás, é marcado pelo elemento místico, mágico, também presente em outras novelas da obra.

Em “Corpo Fechado”, temos registradas as impressões de um “doutor” que vai viver em uma cidadezinha do interior. Dentre tudo e todos, o que mais chama a atenção do narrador é a figura de Manuel Fulô, uma das principais personagens de toda a obra, acredito eu. Com muita sagacidade e irreverência, Manuel Fulô vai contando suas histórias e um desfecho também relacionado ao elemento místico encerra a novela.

“Conversa de Bois” é outra novela que contém uma das principais marcas de Guimarães Rosa: os animais que falam e pensam. Isso, no entanto, assim como o regionalismo de Guimarães Rosa corre o risco de ser reduzido. Guimarães Rosa não faz uso dessas figuras para exaltar os animais pura e simplesmente, parecer ser muito mais um exercício de se repensar a relação homem-animal e suas nuances.

A novela que fecha a obra e que é uma das principais novelas de toda obra é “A Hora e Vez de Augusto Matraga”. Segundo o próprio autor, esta novela é a “história mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, […]” (ROSA, 2001, p. 28). Aqui, a personagem citada no título da novela, se mostra como uma das personagens mais densas de toda a obra e as situações que a envolvem fazem da novela em questão um potencial ponto de discussão para as relações humanas articuladas em especial através de três âmbitos: o religioso, o psicológico e o antropológico.

Guimarães Rosa, ao falar sobre suas intenções acerca da obra, fala de um ideal: “Um ideal: precisão, micromilimétrica” (ROSA, 2001, p. 24). Parece até estranho e contraditório falar de precisão, ainda mais micromilimétrica, quando o assunto são as relações humanas, ou as relações homem-animal, alguns dos pontos tratados em Sagarana. Entrementes, Guimarães Rosa, ao revelar este ideal, nos dá uma mostra de toda sua ousadia enquanto escritor e enquanto observador do sertão e do mundo. Para uma “prima obra”, Sagarana se mostra com potencial para ser até obra prima.

Pra fechar esse post, que tinha como objetivo principal fazer breves comentários sobre a obra que está sendo lida durante o mês de junho pelos integrantes do Sempre um Livro, cito uma passagem da própria obra, uma descrição de uma personagem secundária, Bento Porfírio, mas que mostra como até mesmo nas personagens secundárias e marginais, Guimarães Rosa dá conta de colocar alguma coisa, alguma coisa não só diferente e original, mas sim alguma coisa micromilimetricamente roseana:

Bento Porfírio é um pescador diferente: conversa o tempo todo, sem medo de assustar os peixes. Tagarela de caniço em punho, e talvez tenha para isso poderosas razões. E tem mesmo. Está amando. Uma paixão da brava, isto é: da comum. Mas coisa muito séria, porque é uma mulher casada, e Bento Porfírio também é casado, com outra, já se vê (grifo meu) (ROSA, 2001, p. 228).

Parafraseando Joãozito, digo que estou fazendo uma leitura de sua obra da brava, isto é: da comum.

REFERÊNCIAS

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

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Guimarães Rosa: o sertão e o ser inacabado

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:  

esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois  desinquieta. 

O que ela quer da gente é coragem.”

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Traduzir com sensibilidade ímpar a matéria bruta do sertão, penetrar em meandros densos e profundos das percepções e da interioridade das pessoas, falar com os animais, criar e ser re-criado, repensado. Tudo isso e mais pouco eram algumas das atividades e particularidades do autor que nós, do Sempre um Livro, estamos lendo este mês.

Falo de João Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, nascido a 27 de junho de 1908, Guimarães Rosa viveu até os onze anos em sua cidade natal, em um ambiente caracteristicamente sertanejo e rural, e desde cedo cultivou um enorme gosto pelos idiomas e pelas letras. A mudança para a capital fez com que Guimarães Rosa estudasse até os dezesseis anos no Colégio Arnaldo. Neste período, sua predileção pelas línguas e pela literatura tornou-se ainda maior.

Com apenas dezesseis anos, Joãozito (apelido pelo qual era conhecido por familiares e amigos) matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais e, cinco anos depois, em 1930, formou-se. Nesse mesmo ano, casou-se com Lígia Cabral Pena, que na época tinha apenas dezesseis anos. Da união dos dois nasceram as únicas filhas de Guimarães: Vilma e Agnes. Uma curiosidade (essa talvez seja a palavra que melhor define o fato a ser contado) é que o nome da primogênita veio de um jogo de palavras do próprio Guimarães Rosa: como médico formado, ele mesmo fez o parto de Vilma, e ao vê-la pela primeira vez, disse à sua esposa: vi uma rosa!

Após o casamento e o nascimento de suas filhas, Guimarães Rosa seguiu para o interior para exercer sua profissão de médico. Primeiro foi para Itaguara, ainda em 1930, depois seguiu para Passa Quatro, em 1932, (onde serviu como médico voluntário durante a Revolução Constitucionalista daquele ano) e em seguida rumou para Barbacena, em 1933. Este período da vida de Guimarães Rosa contribuiu e muito para sua literatura, aproximou o autor de sentimentos e experiências da vida humana que podem estar refletidos em seus personagens. Além do mais, também foi um período em que o contato com o interior e o sertão voltou a ser muito intenso, depois de alguns anos vivendo na capital. Mesmo gostando e atuando na área médica, Guimarães Rosa, desiludido por não poder salvar todas as pessoas e vendo inclusive muitas delas morrerem nos seus braços, abandonou a medicina e partiu para à diplomacia – uma nova empreitada em sua vida.

Como diplomata, nosso autor exerceu, durante os primeiros quatro anos após sua entrada no Itamaraty (de 1934 a 1938) atividades em solo brasileiro. Em 1938, no entanto, foi nomeado cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo e ficou no cargo até 1942. Durante esse período, Guimarães Rosa passou por experiências ímpares. Já com sua segunda esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, Joãozito emitiu vistos para facilitar a vinda de judeus para o Brasil, mais até do que o estipulado pelo governo brasileiro. Por esses atos e por toda sensibilidade que Guimarães Rosa demonstrou, ao lado de sua segunda esposa, o casal chegou a ser homenageado pelo Estado de Israel.

Em 1942, Guimarães Rosa retornou ao Brasil, passa algum tempo no Rio de Janeiro e depois segue para Bogotá, para continuar suas atividades diplomáticas.

Chegamos então no ano de 1946, ano que destacamos, pois foi o ano em que Guimarães Rosa publicou Sagarana, a obra que estamos lendo. Falaremos sobre ela em novo post, ainda esse mês. Por hora, adiantamos que a obra, composta por nove novelas, já faz de Guimarães Rosa um dos grandes nomes da literatura brasileira. Todas as suas obras posteriores só fizeram corroborar o que em Sagarana já era muito claro: a leveza e a liberdade das novas e das antigas palavras, um universo quase mágico, que resgata e conjuga o sertão e a erudição, a precisão e a facticidade. É o próprio Guimarães Rosa quem nos fala, de maneira sublime, do processo de criação desta obra:

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições – no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe (ROSA, 2001, p. 24).

Em 1948, Guimarães Rosa foi viver na França e ficou por lá até 1952. Essa foi sua última missão diplomática e, munido de extensa bagagem e experiência de vida, Guimarães Rosa decidiu se desligar da carreira diplomática. O foco de Joãozito voltou-se exclusivamente para a Literatura.

A dedicação é total e tanta que, em 1956, quase dez anos após o lançamento de seu então único livro, Sagarana, Guimarães Rosa publicou logo dois livros: Corpo de Baile (que, posteriormente, foi desmembrado em três: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá no Pinhém e Noites de Sertão) e sua magnum opus, Grande Sertão: Veredas.

As questões e provocações contidas nesta obra são instigantes, multívocas e muito intensas: o amor de Riobaldo por Diadorim, o pacto com o diabo, o sertão em si, o bem e o mal, a existência pensada de uma maneira autêntica e característica…

A partir de 1958, problemas de saúde, causados principalmente pelo tabagismo e pelo excesso de peso, consequências da vida sedentária de Guimarães Rosa, começaram a aparecer com maior freqüência. Isso, no entanto, não abalou o ritmo de criação do autor.

Em 1962, foi publicado Primeiras Estórias e, no ano seguinte, Guimarães Rosa foi eleito por unanimidade membro da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Joel Neves da Fontoura (Joãozito já havia sido recusado pela Academia em 1956). Aqui, no entanto, aparece uma nova curiosidade: Guimarães Rosa temia ser acometido de uma forte emoção ao tomar posse de sua cadeira na Academia e preferiu adiar tal data.

É publicado então, em 1967, Tutaméia – Terceiras Estórias, aquela que seria a última obra de Guimarães Rosa publicadaem vida. No mesmo ano, aos 16 de novembro, a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras, enfim, aconteceu. Apenas três dias depois, em sua casa no Rio de Janeiro, em Copacabana, Guimarães Rosa veio a falecer, com apenas cinquenta e nove anos.

O legado desse médico, diplomata e escritor é gigantesco: desde obras póstumas a várias e múltiplas leituras de suas obras. Fizemos aqui uma breve panorâmica da biografia de Guimarães Rosa para já possuirmos em mão algum material básico para a discussão do próximo dia 7 de julho. Ainda este mês, teremos um post falando especificamente sobre a obra Sagarana.

REFERÊNCIAS

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

 

GUIMARÃES ROSA: O MÁGICO DO REINO DAS PALAVRAS: http://www.youtube.com/watch?v=jFumgOZIf2c

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Resenhas – A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor (Norbert Elias)

Para a discussão do último sábado, 2 de junho, utilizei como recursos as seguintes resenhas sobre a obra de Norbert Elias, A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor:

NORBERT ELIAS: o esboço de uma sociologia das emoções, de Elder Patrick Maia Alves.

Resenha de “A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor”, de Dalva Borges de Souza.

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Encontro do dia 02 de junho de 2012

Mais uma tarde de sábado com interessantes discussões do Sempre um Livro. Neste encontro, foi alvo das reflexões do grupo o ensaio de Norbert Elias, A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor.

A apresentação, por Elias, das variadas formas pelas quais a tela de Watteau (Peregrinação para Citera) foi recepcionada, de acordo com diversas épocas e suas respectivas ideologias gerou diálogos valiosos, que permitiram contemplar aspectos históricos, artísticos, etc…

Sobre a edição, contudo, ainda ficaram alguns questionamentos: ainda que de ótima qualidade, pecou por apresentar a tela objeto da discussão no centro da obra, o que atrapalha um pouco a visualização da mesma. Valeria, neste caso, como foi dito no debate do Grupo, um dobrável com a imagem, de forma que ela pudesse ser vista integralmente.

Mas, principalmente, sobre os textos adicionais que tratam da figura de Antoine Watteau, disponibilizados ao final do ensaio de Norbert Elias: foi notada a falta do poema, amplamente citado, de Baudelaire, Voyage à l’isle de Cythère (Viagem à ilha de Citera), integrante da obra As flores do mal. Vale dizer que a integrante Isabella Brandão atentou-se a isto e levou seu exemplar bilíngue para compartilhar a leitura. É ainda digno de nota que o texto de Gérard de Nerval constantemente citado no texto é o Voyage à Cythère (Viagem à Citera), um ensaio em que há o relato do autor acerca de suas impressões quando da viagem à verdadeira ilha. O texto disponibilizado após o ensaio de Elias, no entanto, é uma espécie de adaptação (com marcas de ficção) deste, integrante do romance Sylvie. Não ficou claro o motivo da opção por esta adaptação e não por aquele primeiro, efetivamente crucial na análise de Norbert Elias.

Votação

Para o próximo encontro, o Sempre um Livro elegeu o mineiro João Guimarães Rosa, e sua obra Sagarana, indicada pelo Rogério Arantes. Como ficou acertado, cada integrante deverá, a seu gosto, escolher e fazer a leitura de dois contos da obra, pelo menos. O anfitrião, por sua vez, fará a leitura integral, para conduzir as discussões.

Figuraram ainda, como concorrentes, as seguintes obras: O que é virtual? (Pierre Lévy), O banquete (Platão), O túnel (Ernesto Sabato), A utopia (Thomas Morus) e Um céu numa flor silvestre (Rubem Alves).

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A Peregrinação de Watteau à Ilha do Amor – Norbert Elias*

*Texto de Edgar Luiz, anfitrião do encontro realizado hoje.

Neste encontro do mês de junho, o Grupo de Leituras “Sempre um Livro” se debruça sobre a obra A peregrinação de Watteau à ilha do Amor (2005), da lavra do renomado sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Temos por trato que todo aquele que tem sua indicação elegida, fica a cargo de atuar como anfitrião da leitura ensejada, esboçando dizeres em torno do autor e/ou da obra.

Assim, por haver indicado a obra do mês, coube a mim este arguto prazer de brindar aos colegas um breve parecer acerca de Norbert Elias. Certamente que me refugiei no apreço ao debate historiográfico e, de imediato, me vem à memória as primeiras obras em que deparei com as questões das Mentalidades – termo este a que voltarei mais adiante – entremeio a discussões da historiografia e dos legados herdados do movimento dos Annales (1929-1989). O nome de Elias aparece, para nossa surpresa, de modo tardio, somente a partir de 1970. Apesar disso, destaca-se sua assídua atribuição paternal ao pensamento dos historiadores que tratam os recortes de longa duração. E, neste meu refúgio, sabia que não seria possível fazer minha apresentação com uma centelha de qualidade que seja sem referir-me ao prefácio de Renato Janine Ribeiro à segunda edição, em dois volumes, de uma das obras mais proeminentes de Elias, O processo civilizador (Editora Zahar, 1989). ← verificar porque no texto original havia duas indicações de data, 1989 e 1994. Acredito que a primeira seja a mais certa.

No referido prefácio, Renato Janine Ribeiro lamentava o pouco conhecimento entre os historiadores brasileiros daqueles tempos da obra de Elias, ao mesmo tempo em que elogiava o autor em largo passo pois encontrava em seus escritos uma leitura de caráter empolgante, a que poder-se-ia chamar de uma “história dos sentimentos”. Ainda segundo esse texto, a sociologia de Norbert Elias diferia da tradição das Mentalidades, originaria da França, pois tem sua base doutrinaria na Alemanha.

Norbert Elias representa um pensamento que nos admoesta por dirigir sua a atenção aos hábitos, em consonância com uma conduta de analisar a historicidade a partir das aparências. Em sua sociologia, chama-se atenção para os adestramentos e condicionamentos. Embora tidas para os tradicionais historiadores da “grande história” como uma escrita historiográfica pequena, as obras de Elias nos surpreenderam e surpreendem, acima de tudo, por fazer-nos pensar a relevância dos costumes na constituição do humano e da interação social deste com o tempo.

Volto, pois, ao conceito (ou, mesmo, conceitos) das Mentalidades. Neste caro verbete aos historiadores, buscarei uma concisão craseada, pois no debate a este respeito, na área historiografia, circulam (e suscitam-se) nomes de tão densa produção que não cabe aqui discorrermos sobre detidamente sobre cada um deles. Em vista disso, faço uma citação aos ditos do professor Ronaldo Vainfas na obra Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia: “É preciso ir além e buscar a base teórica das mentalidades. Deixar de fazê-lo é um risco que não se deve correr, sob pena de ter-se não a delimitação, senão uma caricatura, desta relevante corrente […].” (VAINFAS, 1997, p. 137).

O mote conceitual que abrange as Mentalidades designa uma análise em torno das atitudes mentais de uma sociedade, os seus valores, seus sentimentos, o imaginário, seus medos, verossimilhanças, enfim, todas as atividades inconscientes de determinada época. Em pauta estão os elementos culturais e de pensamento inseridos no cotidiano, que os indivíduos comumente não percebem estando por de trás dos fatos e das ideologias. Nesse conceito, está inserida a questão temporal, pois a mentalidade é considerada uma estrutura através da qual – de acordo com as palavras de Elias – podemos visualizar a “curva da civilização”. Em força contrária à velocidade no decorrer dos fatos, a mentalidade permanece por longo período com modificações lentas e pouco perceptíveis.

Em vista disso, acurando tais dizeres na mesma obra de Vainfas (1997) e com auxílio, para considerações finais, da historiadora Mary Del Priore, chamamos a atenção para a necessidade de, em meio às relações entre história do cotidiano e da vida privada, não esquecermos que, “[…] somos, antes de tudo, uma seqüência (sic) de gestos laboriosamente apreendidos nas circunstâncias mais diversas. […] esta seqüência (sic) […] que compõe o cotidiano tem, por sua vez, uma história no seio da ciência histórica.” (PRIORE, 1997, p.259).

Para dizermos da importância de Norbert Elias, nós percorremos (minimamente) o mais sutil caminho no pensar, pois a produção do autor é arguciosa e nos leva a refletir sobre uma sociologia das emoções. Observamos, pois, as alterações morais, frutos dos costumes que se alteram de tempos em tempos. Elias nos mostra que são necessários olhos atentos ao corriqueiro, uma profícua interação que deparará o ledor a obra deste incontornável nome na sociologia do século XX. Em meio à trama dos costumes humanos, Norbert Elias é um curioso viés para conhecer a história do que nos é dito a respeito da ideia de “progresso” e de “civilização”, tanto quanto para descobrir a nós mesmos.

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