Arquivo do autor:Rogério Arantes

Animal Farm (Animação) – (1954)

Uma das primeiras adaptações do livro do mês do Sempre um Livro foi um desenho animado, lançado em 1954. Com algumas mudanças significativas em relação à história original (principalmente em relação ao final), o filme não é recomendado para quem ainda não leu o livro. Mas após a leitura do livro é um interessante exercício perceber as mudanças e omissões presentes no filme.

Disponível no YouTube, com tradução em português:

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Entrevista com Darlan Lula

ENTREVISTA COM DARLAN LULA

Neste mês, no Sempre um livro, lemos o livro “Casa de madeira”, de Darlan Lula. Visto que o autor mora aqui mesmo, na nossa cidade, resolvemos entrevistá-lo, aproximando-o propriamente dos leitores do blog e de nós. Se não me engano, até hoje não tivemos a oportunidade de estudar uma obra e conhecer o autor, o que, pelo que fizemos, foi gratificante e enriquecedor. Segue, então, um recorte da entrevista que contém a mais densa parte referente às influências literárias e a visão sobre a literatura do autor.

Rita: Já há alguns anos eu gostaria que você falasse sobre os seus livros, um pouco da sua história literária, acadêmica. Isso seria interessante para nós.

Darlan: Eu tive uma formação um pouco diferente da formação dos meninos da minha geração, pois eu estudei em um colégio interno, estudei da quinta a oitava série lá, e lá eu aproveitei muito as oportunidades, porque lá a gente vivia no ócio. Tinha estudos, a gente estudava, tinha um colégio dentro do internato e tinha uma biblioteca. E eu, a partir do sexto ano passei a frequentar a biblioteca, ler muitos livros, e tenho interesse pela leitura porque meu pai foi um grande incentivador, foi o meu maior incentivador em leitura, e eu comecei a cuidar da biblioteca depois disso. E aí lá eu tive contato com vários autores: Machado de Assis, Ernest Hemingway, Clarice Lispector, Dostoiévski, esse povo mais clássico, né? Que tinha lá na biblioteca. E comecei também por me interessar a escrever algo. A gente lançou um jornalzinho lá, e foi lá que começou tudo, assim, de certa forma. Aí, quando eu vim para Juiz de Fora, meu pai queria que eu fizesse medicina, eu falei com ele que não era muito a minha “praia”, pois ele era médico também, e eu disse a ele: Pai, eu quero fazer literatura, e para fazer literatura eu preciso fazer o curso de letras. E aí eu fui e ingressei no curso de letras do CES, e lá eu me embrenhei mais para a área acadêmica em relação à literatura, porque era a minha “praia”, era o que eu queria, eu queria aprender técnicas de escrita, técnicas de escritores, como escrever mais pensando e menos intuitivo, pois tem vários escritores que vão pela intuição, eu não, eu queria escrever de uma forma que também trouxesse essa carga acadêmica para dentro da minha escrita mas com muita leveza também. Aí, em 2002, eu lancei uma miscelânia, financiado por mim mesmo, nessa época eu não conhecia a FUNALFA, aí eu lancei um livro chamado “Pontos, fendas e arestas”, que era justamente a reunião de contos, crônicas e poesia. Por isso que eu quis que ele chamasse “Pontas, fendas e arestas”, pois cada uma representava um setor do livro. E a partir daí, quando eu lancei, o pessoal teve uma repercussão de leitura boa, ficaram comentando, gostaram dos textos, e aquilo ali era meio que um laboratório para mim, sabe?! A partir de um conto daqueles, se não me engano o conto se chamava “reminiscências da infância”, eu tive a ideia de escrever o “Viera tarde”, quer é o meu primeiro romance. Então, assim que eu entrei no mestrado, em 2003, concomitantemente eu comecei a escrever esse livro, escrevi esse livro, eu acho, que gastei uns três meses para escrever, aí depois fui e dei uma elaborada nele e depois entrei na lei. Fui aprovado na lei de 2005 com o livro. Fui aprovado na lei, consegui uma parceria com uma editora lá de São Paulo chamada Nankin editorial e lancei com as editoras FUNALFA e Editora Nankin. Então a Nankin fez 1000 exemplares e a FUNALFA mais 1000, Sendo que 700 ficaram comigo. E também o pessoal gostou muito, o livro tem uma dinâmica e uma estrutura diferentes, não é um livro pesado, é um livro menos reflexivo e mais de ação mesmo.

As ações traduzem o pensamento do narrador… [Agora o Darlan fala da relação com o pai, um homem simples, em relação ao conhecimento técnica da narrativa, mas um grande leitor. Eles costumam conversar bastante.] Mas eu comento muito com ele [o pai] que muitas vezes nas ações dos [personagens] não precisa ele [o narrador] refletir sobre aquilo, o próprio personagem vai dar ao leitor essa indicação de reflexão, e a partir do repertório do leitor ele vai entender aquilo de acordo com a sua experiência de vida, de leitura e etc. As vezes a reflexão engessa até mesmo o pensamento, e esse livro “Viera tarde” foi um pouco assim, um livro que trata de um adolescente que não quer fazer vestibular e que tenta a todo custo convencer o pai de que ele não tem formação acadêmica mas que quer ser um escritor, e ele fica nesse embate com o pai e ao mesmo tempo ele descobre que tem câncer. E no meio disso há também um personagem que está escrevendo histórias, e esse personagem, escrevendo, ele produz a história dele no meio da história do personagem principal que tem uma complicação com o pai. Bom, em 2008 eu lancei um blog também, que é um blog1 que hoje está em plena atividade, e isso eu lancei mais como professor, eu dava aula na escola normal, no instituto estadual de educação, e lá eu usava o blog para incentivar os meus alunos a ler, incentivar os meus alunos a produzir que eu publicava lá naquele blog. Depois ele foi ganhando uma outra dimensão. Eu comecei a fazer críticas, ler uns livros, comecei a escrever algumas coisas e postar lá e desde 2008 eu venho escrevendo e a partir de 2012 eu comecei a escrever poesia também, escrevi alguns poemas, que não é muito bem a minha “praia”. Eu entrei nesse mercado meio que por um acaso, eu vim lançar este livro [Casa de Madeira] meio que por um acaso também. É um livro que foi escrito praticamente dentro de uma clínica, dentro de uma clínica de recuperação, porque eu fiquei muito depressivo em 2013, foi entre agosto e setembro de 2013, fiquei quinze dias lá e a maioria do que está aí foi escrito lá. E lá eu tive experiência com várias pessoas, com várias situações de vida, sabe?! E o livro trata disso, da própria reflexão interior do personagem que está com depressão, isolado do mundo e refletindo sobre sua própria existência, é um personagem que tentou suicídio por causa da depressão e se viu tendo que ser internado por causa disso, um suicídio por uma questão sentimental, de separação com uma mulher, que ele não aceitou. O que é, um pouco assim, digamos que não é um pouco não, que é a minha história de vida. E o livro é até uma forma de alertar as pessoas para a questão da depressão, que eu sempre falo isso quando dou entrevista para alguém ou falo desse livro, que ele é uma tentativa de fazer com que as pessoas entendam que a depressão não é somente uma besteira ou uma frescura de alguém, mas que é algo muito forte e incisivo dentro do organismo da pessoa, que ela perde a noção de tudo, da sua família, do amor por qualquer pessoa que seja e sente um vazio existencial enorme, e é por isso que chega no limite do suicídio… A pessoa tem que ser resgatada, não dá para ser resgatado sozinho, é muito difícil. Com a ajuda de medicamentos, da minha família eu me recuperei, e até mesmo com a escrita, eu digo que foi, assim, uma espécie de “catarse”.

Rita: Quanto tempo você ficou internado?

Darlan: Eu fiquei quinze dias internado.

Rita: Em 2013?

Darlan: Sim, em 2013.

Rita: Eu gostaria de saber sobre a sua opinião em relação a avaliação da escrita enquanto cura.

Darlan: É justamente isso mesmo, no meu caso foi uma espécie de ajuda mesmo. Eu não estou dizendo que a escrita por si só cura o paciente de algum mal, do mal da depressão, nesse caso, mas ajuda e muito, pelo menos no meu caso ajudou. Porque, é, eu me vi escrevendo por acaso. Eu via as pessoas se reunindo na Casa de Madeira, na Clínica Vila Verde, pois foi lá o lugar onde eu fiquei internado, no bairro Borboleta, e lá tinha uma casa chamada Casa de Madeira, e eu fiquei internado lá, uma casa no alto do morro, tanto que na capa do livro o ilustrador Gerson Guedes coloca uma casa no alto do morro e que tem uma descida e que fica um plano de outro ambiente, mas ainda tem uma casa lá em cima onde ficam os internos com dependências químicas, com dependência alcóolica. No meu caso, com problemas psíquicos. E eles [os dependentes] se reuniam para discutir sobre o dia a dia, pois eles tinham reuniões em grupo, e eu não tinha nenhum tipo de grupo, específico no meu caso, apenas para dependentes físicos e dependentes químicos, que tinham problemas com droga e etc. E eles saiam do Borboleta e iam para outro lugar, que era uma outra unidade do Centro. Eles voltavam sempre à tardezinha e tinham que fazer uma tarefa, que era escrever sobre alguma coisa da vida deles. Enquanto eles escreviam ali eu me juntava a eles, e acabava escrevendo, e quando eu via estava escrevendo poesia para eles, sobre mim, sobre a situação, sobre a vida e etc. Quando eu li eu percebi que aquilo ali era eu que estava ali. É muito mais fácil você “se refletir” se projetando para fora, se observando de fora, como se eu fosse um outro me observando e isso me ajudou bastante. E está sendo interessante para mim esse livro pois ele pode ser visto sob esse viés, da questão da depressão, mas também como uma superação de um ser humano que busca ser superado o tempo todo e busca o tempo todo alguma tentativa de se ver melhor, de se sentir melhor. Eu estou falando isso porque tive retorno do Léo, que estava lá internado comigo, e ele foi ao lançamento do livro, se emocionou muito ao ler o livro, falou que vai ser o livro de cabeceira da vida dele, porque ele é dependente do crack, que é uma droga terrível, e ele “tá” mais de um ano sem usar, vivendo a vida. E eu achei maravilhoso você poder viver assim e ajudar os outros, resgatá-lo disso é muito bom. E um outro caso foi uma amiga minha que dá aula para internos, presidiários, e que eles adoraram o livro, então está tendo uma ramificação de leitores que eu não imaginava que teria, e de pessoas que sofrem o processo da depressão, e contam a sua experiencia também. Um senhor inclusive me procurou no dia do lançamento e falou: “Olha, eu também estou tendo depressão e vim aqui só para te ver, para te dar um abraço”. E eu disse: “ah, muito obrigado, e tal”. Então, é uma coisa que tem que vir à tona, e as pessoas tem receio disso né, as pessoas escondem para debaixo do tapete os problemas, principalmente uma tentativa de suicídio, por exemplo, desencadeado por uma depressão, ou algo assim. Não pode, esse é um tipo de reflexão que se deve ter. Esse livro é um pouco prazer profissional mas também é muito pessoal, sabe.

Pedro: E como é que você se viu diante dos internados, já que eles tinham problemas tão diferentes?

Darlan: Ah, cara isso foi o máximo, porque, assim, como eu vivi quatro anos internado dentro de um colégio interno, no primeiro dia eu já estava adaptado, me adaptei ao esquema da Clínica. Eu brincava assim: se eu não engordar aqui eu não engordo nunca. “Tinha” cinco refeições, café da manhã, almoço, cafézinho da tarde, jantar e pernoite. Então a gente comia horrores lá, era dormir e comer, comer e dormir. [risos]. E eu conheci pessoas. Eu levei um computador para lá cheio de músicas na época, e às vezes a gente tomava banho de sol ao lado da piscina e ligava o som, e todo mundo interagia, e o pessoal contava os seus problemas. E nós fomos nos conhecendo. Uns menos, que eram mais arredios, outros mais, se mostravam mais, contavam sua história. O Léo mesmo foi um que contou a história dele. E eu fui abraçando a causa deles também. Vão ter alguns poemas que são endereçados a eles, feitos para eles. E eu lia para eles na época e [todos] ficavam muito emocionados, porque lá todos ficam muito fragilizados. Eu queria mostrar a eles que eles tinham alguém ali, alguém com quem eles poderiam contar, e contavam os seus problemas também. Foi muito gratificante e muito enriquecedor. Não sofri preconceito nenhum de ninguém, pelo contrário, foi uma coisa muito positiva na minha vida, que eu nunca conheceria aquelas pessoas se não estivesse ali.

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Ratos e Homens

 

RATOS E HOMENS

Por Pedro Uchôas

BIOGRAFIA DO AUTOR

John Steinbeck nasceu em 1902 em Salinas, Califórnia. Filho de um imigrante alemão desafortunado e de uma professora primária de origem irlandesa, Steinbeck, vendo a dificuldade financeira da família, resolveu dedicar-se aos estudos. Porém, pela ausência de uma boa estrutura financeira acabou por trabalhar numa fazenda. Desgastado com os trabalhos árduos e mal remunerados, mudou-se para uma cidade próxima onde trabalhou por um tempo como vendedor em uma farmácia até ser demitido e iniciar um novo projeto de trabalho em uma estrada. Cansado novamente, desgastado com o trabalho forçoso e pesado, foi para Nova York onde se tornou jornalista. Voltou novamente para a Califórnia e conheceu uma mulher chamada Carol Henning, com quem assumiu um relacionamento, por mais que sofrendo a desaprovação dos pais da amada. A partir daí, casou-se e começou a publicar livros e aos poucos a impulsionar a sua carreira de escritor, cujo auge seria a conquista do nobel de literatura no ano de 1962.

RATOS E HOMENS

A obra Ratos e homens foi publicada por John Steinbeck no ano de 1937 e reflete o sonho americano da independência econômica em um período que, como mostra a própria biografia do autor, progredir economicamente não parecia tarefa das mais fáceis. Tudo girava em torno da busca por um dinheiro que possibilitaria o trabalho autônomo, ou melhor, a autonomia financeira propriamente dita. Durante o livro é possível perceber o quão importante a independência se mostra para Lennie e George, dois trabalhadores rurais. Eles se esforçavam durante todo o tempo e, por mais que não fosse tão realmente aplicável a idealidade do trabalho absolutamente direcionado, buscavam a economia para a aquisição de uma propriedade rural própria, do plantio e da criação de coelhos, por parte de Lennie. Para prosseguir na apresentação da obra, penso ser mais necessário apresentar cada um dos personagens, primeiramente, para em um segundo período escrever um pouco sobre a relação de ambos e o desfecho, se possível.

Steinbeck, nas primeiras páginas do livro, descreve bem e de forma coerente cada personagem. Para não ser inexato, coloco aqui da mesma forma como ele pretendeu descrevê-los, na tradução de Érico Veríssimo, a caracterização de George e, em seguida, a de Lennie.

O primeiro dos homens [George] era pequeno e vivo, moreno de rosto, olhos inquietos e penetrantes e traços bem marcados. Tudo nêle era definido: mão pequenas e fortes, braços delgados, nariz fino e ossudo. Atrás dêle vinha o seu oposto [Lennie]: um homem enorme, de cara sem forma, grandes olhos pálidos e ombros largos e caído. Caminhava pesadamente, arrastando um pouco os pés, assim do jeito como os ursos arrastam as patas. Seus braços não oscilavam acompanhando o movimento das pernas, mas pendiam frouxos ao longo do torso. (STEINBECK, 1968, p. 17-18).

George, o primeiro homem da descrição, é baixo, moreno e, fora as descrições físicas, possui uma inteligência mais aguçada que a de Lennie. Ele se esforça para manter as decisões mais inclusas no círculo do planejamento e costumava inclusive planejar por Lennie a vida futura de ambos. George possui as mãos firmes de um trabalhador do campo, a feição de certa forma comportada e harmônica. Já Lennie, completamente distinto do amigo, possui grandes mãos que, para além do trabalho no campo, também são capazes de intimidar, anda pesadamente, por ser um homem alto e pesado de corpo, e não possui a mesma inteligência que o outro. Pelo contrário, é majoritariamente instintivo e, como diz Otto Maria Carpeaux, no prefácio da obra, “um gigante, de força física enorme, mas de inteligência reduzida, um débil mental” (CARPEAUX, 1968, p. 9).

Pois então, por que homens tão diferentes assim se uniriam em uma espécie de amizade tão forte quanto ela se mostrou? Um sonho comum, o da independência econômica. Ambos possuem o sonho de uma propriedade rural própria e do trabalho autônomo. E, de certa forma, juntos eles talvez conseguiriam com maior facilidade, ou mesmo possibilitariam, a futura vida rural independente. George é o responsável pelos planos, e Lennie sempre insiste na lembrança do sonho, como é possível perceber em várias passagens, tais como essas:

– George, quanto tempo vai passar até a gente conseguir aquêle sítio para viver à fôrra… e com os coelhos?

– Não sei. [Diz George]Temos que juntar muito dinheiro. Conheço uma terra que a gente podia conseguir barato, mas não de presente. (STEINBECK, 1968, p. 114-115).

E compõem o futuro, reconstruindo-o nos sonhos.

– Bom, só uns três acres. Vamos ter um moinho de vento, um galpãozinho e um galinheiro. Vamos ter cozinha, pomar, cerejas, maçãs, pêssegos, damascos e um pouco de morangos. Vamos ter um lugar pra plantar alfafa e bastante água pra o rêgo. E também um chiqueiro pros porcos. (STEINBECK, 1968, p. 115).

– Claro, vamos ter uma casinha, com um quarto para nós. Um bom fogão de ferro e no inverno temos sempre o fogo aceso. A terra não é muito grande e assim a gente não precisa trabalhar muito. Talvez seis, sete horas por dia. Mas nada de carregar sacos de cevada onze horas por dia. E quando chegar a colheita, lá estamos nós pra recolher ela. Assim vamos saber o resultado do que semeamos. (STEINBECK, 1968, p. 117).

Sem falar, claro, nos coelhos que Lennie tanto insiste em criar nessa tal fazenda. Ele possui um deslumbramento especial por animais e cuida de tudo aquilo que tem ao seu alcance, um rato, no início, um cão, no desenrolar, e coelhos, no futuro. Porém, sem conseguir medir devidamente a força dos carinhos, ou mesmo a repercussão da admiração, ele acaba sempre por matá-los, estrangulados, amassados em suas carinhosas e demasiadamente fortes mãos. O incontrolável o assume em certas cenas, tal como na briga em que ele trava com Crespinho. No acontecimento, Lennie briga com o “boxeador” e acaba por feri-lo, devido a sua falta de controle emocional e física. Crespinho meteu-se na briga com Lennie pois não queria que alguém como o grandão risse dele. Porém, não esperava que subitamente Lennie pudesse perder o controle sobre si mesmo e agredi-lo de forma tão brutal. George o fez parar, assim como o incitara no início da briga para não apanhar sem revidar, e o resultado foi o despedaçamento da mão de Crespinho.

A mulher de Crespinho, que parecia não estar satisfeita com o marido, ou mesmo ter uma parcela ninfomaníaca, andava pela fazenda, que abrigava praticamente só homens, atrás de casos e um pouco de diversão. Ela viu em Lennie algo de atrativo e decidiu encontrá-lo. Na conversa perguntou diversas coisas a ele, como sobre o gosto estranho pelos coelhos, e em um determinado momento comentou de sua afeição pelos seus cabelos macios e sedosos, e pelo prazer em acaricia-los e pentea-los. Passou as mãos por eles e levou a Lennie à sua cabeça, também para acaricia-los. Lennie não poderia manter o controle e começou a acaricia-lo com cada vez mais força até chegar ao ponto da mulher gritar de medo.

O FIM

Incontrolavelmente, Lennie acariciava os cabelos da mulher de Crespinho com muita força e ela começou a gritar. Frente aos gritos, e à possível confusão na qual ele poderia se envolver, o grande e descontrolado homem quis impedi-la de gritar e acabou por matá-la, sufocando-a, tal como o pássaro que tentara pegar nas mãos certa vez. Assustado, o homem fugiu. George foi avisado do corpo e logo correu para ver o que havia acontecido. Sabia que era Lennie, sabia da falta de controle de seu amigo. Crespinho, ao ficar sabendo do acontecido, ficou desesperado e quis ir atrás de Lennie. George tomou uma arma e, vendo que a melhor forma de terminar com aquilo seria pelas suas próprias mãos, já que Crespinho mostrava-se fora de si, procurou pelo amigo e o matou, em um ato de “amizade”.

E George ergueu a pistola, firmou-a e aproximou o cano na nuca de Lennie. A arma tremeu violentamente, mas o rosto de George se endureceu e a mão ganhou firmeza. Puxou o gatilho. O estampido subiu rolando os montes e rolando tornou a descer. Lennie se sacudiu todo e depois foi caindo lentamente para diante sôbre a areia e ali ficou estendido sem se mexer. George teve um estremecimento e olhou para a arma e depois jogou-a longe de si, para perto da margem, junto do montículo de cinzas. (STEINBECK, 1968, p. 205).

Naquele momento, era terrível ver como o sonho de ambos havia desmoronado. Todo aquele tempo de convívio, aquelas construções de futuro já não faziam mais tanto sentido. O descuido de Lennie o levou a tudo isso e a amizade de George, o medo pelo que poderia acontecer ao amigo, o levou a tal extremo.

Aqui o título assume o seu sentido. Ele foi retirado de um poema do famoso poeta escocês Robert Burns, do poema To a field mouse. Literalmente, sem preocupação alguma com rima ou forma, o trecho do qual o título foi retirado poderia ser traduzido assim, como o fez Carpeaux: “Os projetos melhor elaborados, sejam de ratinhos ou sejam de homens, fracassam muitas vezes e nos fornecem só tristeza e sofrimento, em vez do prêmio prometido”. Agora é adequado relembrar dos sonhos, dos planos de George e Lennie e fazer jus ao poema. Tudo ia bem com o controle de George e a força de Lennie,

[m]as o sonho dos dois homens estava condenado ao fracasso pela irrupção inesperada de uma fôrça hostil, da grande depressão, que os humilhou, impondo-lhes uma existência indigna de criaturas humanas. Of Mice and Men é o romance da depressão e da decepção do “homo americanus” em face de uma miséria e dos acontecimentos que os grandes planejadores não sabiam prever nem evitar. É uma tragédia americana. (CARPEAUX, 1968, p. 13).

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Encontros de 20/09 e 18/10

Nos seus dois últimos encontros, realizados nos dias 20/09 e 18/10, o Sempre um Livro discutiu, respectivamente, as obras Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho e o que ela encontrou por lá, ambas de Lewis Carroll.

No primeiro encontro a discussão girou em torno da biografia do autor, das origens da personagem Alice, inspirada em uma criança que era filha de um amigo de Carroll, a qual o autor costumava fotografar e contar histórias. Falou-se também sobre a relação do autor com a lógica. Em relação à obra foi ressaltado o aspecto onírico, non-sense que levou a discussões acerca da construção das personagens, como, por exemplo, a falsa Tartaruga.

No segundo encontro falamos sobre as duas lógicas presentes na obra, a do avesso, do país do espelho, e a lógica comum, de Alice. No jogo de xadrez que tem lugar no país do espelho, Alice confronta sua lógica com a de peculiares personagens como Twedledee e Twedledum, Humpty Dumpty, entre outros. O aspecto de humor presente na obra também foi bastante comentado.

Foi votada também, neste último encontro, a efetivação do Sandro, o mais novo membro do grupo, aceito por unanimidade.

O próximo encontro, a realizar-se no dia 08/11, será sobre a obra Holocausto brasileiro, da escritora Daniela Arbex.

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Da matemática à literatura: as maravilhas nonsense de Lewis Carroll

Charles Lutwidge Dodgson nasceu, em 27 de janeiro de 1832, na Inglaterra. Grande professor de matemática e lógica da Universidade de Oxford, e também fotógrafo, este homem ficou mais conhecido por outra atividade – a literária – e por um pseudônimo: Lewis Carroll.

Carroll era filho do reverendo anglicano Charles Dodgson e foi educado durante toda infância e adolescência numa educação religiosa, que o preparava para ser sucessor do pai. No entanto, o interesse de Carroll pela geometria, álgebra e lógica o levou, como aluno, até à Universidade de Oxford e, posteriormente, em 1855 rendeu um convite para lecionar na mesma Universidade. Carroll permaneceu ali como professor até o ano de 1881.

Sob o nome de Charles Dodgson, publicou vários textos para alunos de matemática e lógica, dentre os quais se destacam The Game of Logic (1887) e Symbolic Logic (1896). Além da atividade docente e da publicação de livros na área, Carroll também aventurou-se como fotógrafo, ficando caracterizado pelas fotos de meninas de 8 a 12 anos.

No entanto foi na Literatura que Charles Dodgson obeteve maior reconhecimento e foi também justamente nas publicações literárias que ele optou por adotar o pseudônimo Lewis Carroll. Nessa seara publicou The Hunting Snark (1876) e Sylvie and Bruno (1889). Seu maior legado, contudo, foi escrito um pouco antes e publicado em 1865: Alice no país das maravilhas. Um outro conto, envolvendo a mesma personagem principal, Alice, foi publicado em 1871: Alice através do espelho. Será sobre esses dois contos que os membros do Sempre um Livro discutirão no próximo encontro, em setembro. E falar um pouco do surgimento e recepção deles é também falar da biografia de Carroll.

Um dos grandes amigos de Lewis Carroll foi Henry Liddell. Ele era pai de três meninas, Alice, Lorina e Edite. Através da primeira das filha de Liddell que Carroll iniciou a escrita daquela que viria a ser uma das obras literárias mais conhecidas, adaptadas e discutidas. Os enigmas, imagens, conflitos e personagens presentes nos contos de Alice, desde sua publicação, não receberam uma classificação estrita que os coloque no público infantil, infanto-juvenil ou adulto. É, literalmente, uma história para todos os públicos. E reflete, além desse dado biográfico da filha de Liddell, as vontades de Carroll de colocar, também no plano literário, o seu enorme gosto e interesse pela lógica, pelos enigmas e também – e nisso talvez resida um dos principais aspectos da obra, a ser trabalhado posteriormente – o caráter nonsense, a dimensão onírica que fazem dos contos de Alice algo que transcende uma mera lição de moral, dando aos leitores muito o que pensar e refletir.

Carroll também construiu vários enigmas de lógica, que ficaram famosos na Inglaterra de sua época. Um exemplo é o seguinte:

Construa uma palavra com estas letras: NOR DO WE

Solução: ONE WORD

Entre enigmas, livros e fotos, Carroll faleceu em 14 de janeiro de 1899, em Guilford, Inglaterra.

REFERÊNCIAS

http://thebloggerwocky.wordpress.com/2011/11/11/como-surgiram-as-aventuras-de-alice-e-quem-foi-lewis-carroll/

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/alice/lewis_carroll.htm

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Encontro de 16 de agosto de 2014

Os membros (todos, diga-se de passagem) do Sempre um Livro reuniram-se no último sábado para a discussão da obra O processo, de Franz Kafka.

O encontro foi iniciado com a leitura, pela anfitriã Rita, de uma breve biografia de Kafka. A discussão girou em torno dos temas da burocracia, do peso e da densidade da obra kafkiana, e de O processo, em específico, versando também sobre reflexos biográficos de Kafka na obra, bem como um certo humor ácido presente na mesma, que por vezes beira o absurdo.

Também foram abordadas algumas questões formais, como a disposição dos capítulos e  fragmentação dos mesmos e certos momentos da história que, inclusive formalmente, conduziam a um demorar-se, a uma estagnação vivenciada pela personagem principal Josef K. em relação ao seu absurdo processo.

VOTAÇÃO

Após a discussão ocorreu a habitual votação para a obra do mês seguinte. As obras indicadas foram: A fúria do corpo, de João Gilberto Noll, Um artista da fome, de Franz Kafka, Como falar dos livros que não lemos, de Pierre Bayard, O avarento, de Molière, O quinze, de Rachel de Queiroz e textos a serem selecionados, em caso de escolha, de Eduardo Galeano. A obra escolhida, contudo, foi Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

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Obra do mês: O processo, de Franz Kafka

Por Rita Mendes

INTRODUÇÃO

A obra O processo começou a ser escrita por Franz Kafka em meados de agosto de 1914, mas interrompida em 17 de janeiro de 1915, pois o autor pretendia dedicar-se a novas histórias, além de sentir-se um tanto “incapaz” de prosseguir com o romance, conforme ele próprio havia afirmado.

É possível que esse romance, apesar da sua importância como um dos maiores do século, acabou sendo apenas um fragmento, segundo mencionado pelo tradutor Modesto Carone.

Relevante ressaltar a busca incansável pelo “sentido” da obra, sendo variadas as vertentes: filosóficas, teológicas, psicanalíticas, sociopolíticas, quer a vendo na linha teológico-existencial como a representação da culpa do homem contemporâneo; outros a considerando como realista em razão da vivência e visão não impotente de Kafka com a burocracia na condição de funcionário público, podendo dentro dessa percepção histórica ser considerada até como uma profecia do terror nazista; também sob o ângulo da alienação do mundo secular com a morte do mito da salvação muitos a consideram como a origem social da esquizofrenia; já na vertente psicológica ou analítica se encontram outras afirmações de que as desventuras do personagem K. no romance refletem um caso de neurastenia, sendo apenas um sonho ou mesmo um delírio, em razão do seu isolamento e exaustão; há ainda, aqueles que entendem que o romance, dada a sua forma de narrativa sob a perspectiva do personagem, trata-se apenas de um processo de pensamento de Josef K. Fato é que a busca do “sentido da obra” continua em aberto, e mesmo os estudos centrados no aspecto formal do romance o consideram como uma “metáfora absoluta”.

O ROMANCE

Josef K., o personagem principal do romance não pode ter as atenções do pai, pois este morreu muito precocemente. Assim, K. deixou sua casa ainda muito jovem, apesar da sua mãe, cuja saúde caminhava precariamente, permanecer na pequena cidade em que até então viviam. Ficando sob a tutela do seu tio Karl, um pequeno produtor rural, simples, mas dedicado ao sobrinho K., buscando sempre protegê-lo, mesmo quando K. já estava jovem, como se ainda fosse o seu tutor.

Ainda jovem, K. já ocupava um alto cargo executivo em um Banco, o de procurador, o que gerava muito orgulho na família, especialmente no tio Karl, e lhe permitia ter uma vida confortável, bem como arcar com os custos para os cuidados com a sua mãe, que dependia dos familiares que também viviam na mesma cidadezinha.

Entretanto, no dia do seu aniversário de trinta anos sua rotina é quebrada drasticamente. Nesse dia, na pensão da Sra. Grubach, em que morava, não levaram o seu café, e quando ele foi reclamar a respeito, foi informado por dois guardas irônicos e atrevidos, pois até o seu café tomaram, de que estaria detido, sem maiores explicações do porquê, apesar do espanto e da insistência de K., alegando que somente o inspetor poderia lhe dizer. K. ficou se questionando sobre o que estariam falando aqueles aparentes guardas, de onde vinha aquela autoridade, uma vez que entendia estar vivendo em pleno estado de direito, com as leis em vigor e a paz reinando por toda parte. Ao enfim falar com o inspetor, apesar da sua aparente indiferença com a situação, perguntou pelo que estaria sendo acusado e por quem, e qual seria a autoridade. Nada lhe foi esclarecido, mesmo por que alegaram pouco saber, informando apenas que estava detido, mas que poderia trabalhar normalmente, levar sua vida normal, apenas teria que atender as intimações para os tribunais para prestar esclarecimentos, etc. Pensou em falar com um promotor, seu amigo Hasterer, mas desistiu. A questão lhe parecia estranha, mas tinha por hábito não se preocupar prematuramente com o futuro. Naquele dia, apesar de um pouco atrasado, foi ao Banco. Apesar de tudo não parecer tão sério assim, sentiu o afastamento da Sra, Grubach, dona da pensão e da Srta. Bürstner que também morava lá.

Josef K. conquistou seu espaço no Banco, sendo ali muito respeitado, mas sua rotina era exaustiva, quer nas análises dos negócios, atendimento aos clientes, relatórios, além da postura incisiva do diretor-adjunto, o qual parecia estar sempre avaliando seu trabalho. Logo, recebeu, via telefone, o primeiro chamado para comparecer ao tribunal para um primeiro e pequeno inquérito, e decidiu ir, pensando que poderia ser o primeiro e o último, pois a questão poderia ser esclarecida e finalizada. Entretanto, não seria bem assim. Tudo era estranho: o dia, o endereço, o sótão lúgubre em que funcionavam, as pessoas. Nesse dia, K. realizou pessoalmente sua defesa, desafiou os membros do suposto tribunal, mas recebeu do juiz apenas a informação de que ele havia se privado da vantagem que um inquérito pode representar para um detido. K. esperou por outra comunicação durante a semana, mas esta não ocorreu. Mesmo assim foi para o mesmo local no domingo, mas confirmou pessoalmente que não havia audiência. As salas estavam vazias. Apenas presenciou uma situação esquisita envolvendo um dito oficial de justiça, a sua mulher e um aluno. K. concluiu que poderia empregar de melhor forma as suas manhãs de domingo.

Na pensão em que continuava morando K. se ressentia do distanciamento da Srta. Bürstner e procurava coincidir seus horários para encontrá-la, mas era em vão, não conseguia. Insistia, escrevendo para ela marcar um horário para se falarem, o que deixava K. chateado e indagador junto à dona da pensão, que por sua vez ficava melindrada pelo que acontecia com os seus hóspedes, inclusive com ele. Apenas conseguiu que uma das amigas de Bürstner fosse lhe falar a seu pedido, declarando não haver nada de interessante para os dois que pudesse ser conversado. Assim, o distanciamento e os olhares de moradores daquela pensão pesavam muito sobre K. Ele ressentia-se desse isolamento.

O processo, sobre o qual se desconhecia os motivos, e não se entendia as estruturas caóticas, bem como a origem do poder, se apresentava a K das formas mais estranhas possíveis. Em uma delas, já noite, ao sair do Banco, K. ouviu gritos e gemidos oriundos de uma sala de despejo próxima da escada principal, e entrando pela porta percebeu que os dois guardas que estiveram na pensão naquele primeiro dia em que foi informado do processo, estavam sendo espancados por um homem vestido com roupa de couro, e que o motivo era por ter ele relatado ao juiz de instrução o que ocorrera naquele dia na pensão. Por mais que K. tivesse tentado, não conseguiu remover o algoz do seu objetivo, inclusive lhe oferecendo dinheiro, de punir aqueles homens. O interessante é que parece que os contínuos que ali trabalhavam não percebiam o que estava acontecendo.

Em outro momento Karl, tio e ex-tutor de K., cuja ligação e afeto o fazia ainda considerar ser, chegou de surpresa no Banco, preocupado com o sobrinho, pois já havia chegado aos seus ouvidos a existência do processo, através da sua filha Erna que lhe escreveu a respeito, informando que também tomou conhecimento através de um contínuo do Banco, quando ali esteve tentando falar com o Josef K.. Assim preocupado com a questão, a qual considerava muito grave, o tio dirigiu-se à capital, sempre correndo, como de costume. O tio Karl considerou ainda pior quando soube por K. que o processo não tramitava no tribunal comum, o levando, de imediato, ao seu advogado de confiança, Huld. Apesar das dificuldades de falar com tal advogado, uma vez que a porta da casa não se abria, conseguiram chegar até ele que estava acamado, mas aparentemente melhor, os atendeu, inclusive informando já ter conhecimento do processo movido contra K. Este, por sua vez, ficava cada vez mais confuso. Como que um advogado que atuava no tribunal do Palácio da Justiça podia atuar no tribunal do sótão? Na verdade, ficou sem resposta. Fato é que K. decidiu por contratar o advogado, apesar de todas as esquisitices dele mesmo, da Leni, sua enfermeira, do velho do cartório no canto escuro. Entretanto, o tempo passava e o advogado Huld não apresentava no tribunal a petição inicial para a defesa, alegando haver muitos detalhes, que estes sim que eram importantes como os inquéritos, as observações ao réu, etc., razão pela qual K. não deveria se preocupar. Dentre os argumentos de Huld, mais contundente foi que uma vez contratado um advogado, este não poderia ser destituído, pois além de raro, seria prejudicial ao acusado que ficaria sozinho. Entretanto, K. se preocupava sim, cada vez mais, pela repetição das justificativas, pelo quadro de pintura de um juiz na parede demonstrando vaidade e poder, pelas presenças e escuridão na casa, pelo atendimento do advogado na cama, pela postura da Leni, a enfermeira, etc.

Nesse ínterim, K. recebeu no seu trabalho, um cliente do Banco, industrial que bem conhecia, para buscar orientações sobre negócios, em um momento que K., exausto por toda a sua situação, não conseguia raciocinar. Enfim, o cliente após buscar e sair muito satisfeito com o atendimento pelo diretor-adjunto, retornou à K., não com interesse de lhe mostrar a negociação realizada, mas para repassar a sua percepção de o estar vendo muito oprimido nos últimos tempos, mostrando em seguida saber do seu processo. Então, falou-lhe de um pintor, Titorelli, que sempre lhe vendia quadros de pequeno valor, mas que tinha como principal fonte de renda fazer retratos para o tribunal, informando que ele talvez pudesse ser útil a K., por conhecer muitos juízes e para, quem sabe, lhe dar conselhos. Sem dúvidas K. sentiu-se muito desconfortável pelo conhecimento que aquele cliente tinha da sua situação. Apesar de estar no trabalho e ter clientes à sua espera a sua ansiedade foi tão grande, que apesar do constrangimento não os conseguiu atender, dirigindo-se de imediato à procura do pintor. Também não foi fácil localizá-lo tanto pelo lugar, prédio, labirintos, sótão, meninas estranhas, mas enfim chegou ao pintor Titorelli que vivia miseravelmente no sótão. Mais surpreendente ainda foi a informação daquele pintor de que aquelas meninas espalhafatosas faziam parte do tribunal, além do que o próprio sótão em que morava ter acesso ao tribunal. O ambiente era insalubre, mas K. entendeu a sua necessidade de estar ali com aquele pintor que lhe fez uma pergunta que muito o alegrou, mesmo porque ninguém a tinha feito tão abertamente: “O senhor é inocente?”, tendo K. respondido que “Sim, sou completamente inocente”. Após lhe repassou diversas informações, como a de que o tribunal não era dissuadido, não havia absolvição real, apresentando a K. duas alternativas: a de absolvição aparente, na qual o processo poderia sempre retornar e a de processo arrastado. No final, vendeu diversos quadros para K. que os levou para escondê-los no escritório, pensando na possibilidade de um dia precisar deles.

Finalmente, K. resolveu destituir o advogado. Estranhou K. a forte resistência deste em aceitar o fato, bem como da visível intromissão da enfermeira Leni sobre a questão. Naquele dia encontrou também na casa do advogado outro acusado, um comerciante de nome Block, que chegava a morar na casa do advogado, em tamanha submissão a ele e à Leni para tentar ser atendido. Confidenciou a K. que seu processo se arrastava por muitos anos, que perdera quase tudo em razão dele, e que ainda tinha mais advogados para garanti-lo. Em seguida K. foi atendido pelo advogado que não aceitava de forma quase humilhante a sua destituição no processo, e como último argumento pediu que o comerciante Block fosse chamado, a quem submeteu a todas as formas de dependência, submissão e humilhação, com o objetivo de persuadir K. da sua intenção. K., por sua vez, entendeu que tudo aquilo não passava de uma encenação e manteve firme o seu propósito de cuidar pessoalmente do seu processo.

No seu trabalho K., por ser considerado como conhecedor de artes, recebeu a incumbência de mostrar alguns monumentos a um amigo italiano do Banco, o que lhe preocupava por estar se sentindo frágil e desconfortável no seu emprego, pelo que entendia sempre melhor estar por lá cuidando das suas atividades. Cuidadoso, se preparou com anotações, dicionário de bolso e no dia marcado chegou bem cedo ao escritório. O visitante, em razão de diversos compromissos resolveu visitar apenas a catedral, marcando com K. um horário para lá encontrar. Entretanto, antes de ir recebeu um telefonema de Leni, enfermeira do ex-advogado a quem informou do seu compromisso na catedral, ao que esta falou: “eles o estão acossando”. Chegou pontualmente na catedral, mas não encontrou o italiano quer na entrada principal, quer nas laterais, vendo ali apenas uma senhora idosa, envolta num xale e um sacristão que mancava. Depois de várias sinalizações do sacristão, aos quais K. não entendeu, parecendo, a princípio, que desejava apenas que ouvisse o sermão, apesar de não ter mais ninguém na catedral. K. resolveu sair, quando bruscamente foi chamado pelo nome pelo suposto sacerdote que, na verdade se revelou como capelão do presídio e integrante do tribunal. Ali, informou a K. que o seu processo ia mal, que talvez não passasse de um tribunal de nível inferior. Reclamou a K. que este buscava muito a ajuda de estranhos, em especial das mulheres e que isso não era bom e afirmando que K. se equivocava falou: “A sentença não vem de uma vez, é o processo que se converte aos poucos em veredicto”. K. despediu-se para voltar ao Banco ouvindo ainda do sacerdote: “O tribunal não quer nada de você. Ele o acolhe quando você vem e o deixa quando você vai.”

No dia anterior ao aniversário de K., que faria trinta e um anos, portanto, um ano vivido com momentos e acontecimentos difíceis, vestido de preto e calçando luvas, parecia esperar visitas o que de fato ocorreu com a chegada de dois senhores gordos vestidos também de preto e com cartolas. K. pensou: “Procuram acabar comigo de forma barata”. Caminhando com esses senhores praticamente preso a eles, K. pensou em relutar, mas fazendo um auto exame concluiu que a única coisa que poderia fazer naquele momento seria procurar ter um discernimento tranquilo e assim o fez, caminhando e parando, quando necessário, sem objeções. Manteve lampejos de esperanças, um amigo, quem sabe alguém para ajudar, argumentações esquecidas, mas elas não se realizaram. Persistia em K. as mesmas indagações naquele momento : onde estava o juiz e o alto tribunal? E morrendo, pensou: “como um cão”.

CONCLUSÃO

Por mais que tente, é difícil saber qual o sentido dessa obra para Kafka. A obra, dita incompleta, parece não estar, mediante a sua profundidade. São tantas as vertentes à busca desse sentido não expressado pelo autor, que estas parecem até se ajustar entre si. Poderia sim ser histórica, dado o momento vivido pelo autor, que tinha consciência do mundo e prática na burocracia. Tomou conhecimento de uma história com momentos difíceis: nazismo, inquisição, guerras, verdadeiros tribunais inexplicáveis.

Poderia sim ser teológica: não seria o processo a própria vida e o tribunal a espada da finitude que insiste em pender sobre a cabeça de todos.

Também poderia ser psicológica com o homem adoecido pela exaustão e comportando-se como um condenado, ou mesmo psicanalítica em que o homem tomado pela esquizofrenia delira e vê imagens e situações que só ele vê e sente.

Ainda, poderia ser um mero pensamento do personagem K., cujo sentimento de culpa o leva a conduzir a sua vida como um processo de condenação mortal.

Enfim, penso que desde que o mundo é mundo, os tribunais com e sem palácios nos rodeiam e nos cercam. Saber ultrapassá-los pode significar muito.

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