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“O fazedor”: tentativas de achar a chave da porta de entrada ao universo literário de Jorge Luis Borges

O livro “El hacedor” (1960) (“O fazedor”, na tradução brasileira) traz em si vários elementos que o qualificam como excelente porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor, Jorge Luis Borges. Aparentemente, trata-se de um livro banal, uma miscelânea de contos curtos e de poemas metrificados. Entretanto, nada mais enganoso que deixar-se levar pelas aparências e pela indicação da contracapa.

Em primeiro lugar, porque este livro tem o mérito de romper com o hiato lírico na obra de Borges, autor que nos anos 40 e 50 brindou aos leitores apenas livros de ensaios e contos, embora entre estes encontrem-se maravilhas do quilate de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Ainda com respeito aos poemas, é bom notar que eles são compostos por versos metrificados, os quais são adotados tanto pelo esgotamento da estética ultraísta(*) quanto pela suposta facilidade de seu manejo por um homem que a essa altura já estava de todo cego.

Mas, contrariando a imagem que tradicionalmente fazemos de poesia, Borges usa seus versos para levantar questões filosóficas e apresentar ao leitor sua particular concepção de mundo. Atentemos a estes versos de “Ajedrez”:

También el jugador es prisionero 
(la sentencia es de Omar) de otro tablero 
de negras noches y de blancos días. 

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. 
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza 
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Voltando ao engano das aparências, destacamos, em segundo lugar, que os textos em prosa reunidos em “O fazedor” representam uma viragem na concepção estética do artista. Borges passa a tensionar os limites da narrativa, emparentando-a com a reflexão filosófica, e a investir na concisão quase extrema, reduzindo os relatos a uma página ou pouco mais que isso. E antes que eu me esqueça, é também a primeira vez que Borges publica um livro híbrido. Outro ponto a notar é o questionamento em torno da figura do autor que comparece em alguns desses textos e, por suposto, da autoridade que esse personagem teria. “Borges y yo” é o melhor exemplar do que estamos falando:

      Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
         No sé cuál de los dos escribe esta página.

O conjunto de materiais reunidos em “O fazedor” apresenta, pois, um convite de seu autor à reflexão sobre o ofício de escrever e sobre a validade dos gêneros como instituição literária. Essas reflexões até podem nos ajudar a penetrar melhor no universo borgeano, como disse no início do texto, mas representam uma porta de entrada que não está escancarada… ela ainda exige que tateemos à procura da chave e da fechadura.

Nota:

(*) Ultraísmo: Foi a primeira vanguarda literária espanhola em língua castelhana, gestada entre 1918 e 1925. Chega à Argentina pelas mãos de Jorge Luis Borges, que voltava de uma temporada com a família na Europa. Entendido pelos seus idealizadores como um movimento literário (e não uma escola estética), o ultraísmo compilou fragmentos do cubismo literário, do futurismo, do expressionismo e do dadaísmo e tinha como objetivo criar uma renovação/ruptura no panorama da literatura espanhola.

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