Arquivo do mês: novembro 2013

Encontro de 09 de novembro de 2013

No encontro deste mês tivemos uma produtiva discussão a respeito da obra O estrangeiro, de Albert Camus. Os comentários versaram sobre o comportamento do personagem, que foi contrastado com casos da “vida real” de pessoas que igualmente foram criticadas por não demonstrar ante a morte o comportamento socialmente desejável.

Um dos membros do grupo (Rita) teceu a seguinte observação sobre a personalidade de Meursault: ele era “destinado à aceitação”, expressão feliz para qualificar a postura do personagem ante a vida, já que para ele “tanto fazia” uma coisa como outra quando confrontado com a necessidade de tomar decisões.

Além disso, comentou-se sobre a derrogação de seu julgamento, da qual não sabemos nada além de que foi solicitada e de que Meursault está à espera de seu resultado. Comentei que, na verdade, a própria escrita da obra funcionaria como recurso, já que joga outra luz sobre os fatos mostrando que “tudo é verdade e nada é verdade”. Além disso, apesar do começo que diz “Hoje mamãe morreu”, nada acontece no tempo da narração, mas sim muito antes e é visto em retrospectiva.

Também comentou-se sobre a circularidade da obra de Camus, em que trechos ou motivos de uma obra reaparecem em outras. Sobre este ponto, leu-se o prefácio de Manuel da Costa Pinto presente na edição da Best Bolso. Por falar em edições, observou-se ainda a adaptação que uma das edições (perdoem-me, mas não me lembro qual seja a editora ou o tradutor) fez dos nomes dos personagens, com Raymond passando a Raimundo e Marie a Maria. Vá entender…

Votação: 

Para o próximo encontro foi eleita a obra A dama do cachorrinho e outros contos, de Anton Tchékov, indicada pelo membro recém aprovado Pedro Uchôas. As outras indicações foram: O silêncio primordial, de Santiago Kovadloff, A trégua, de Mario Benedetti, Adeus às armas, de Ernest Hemingway, Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes e O país do carnaval, de Jorge Amado.

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O estrangeiro, de Albert Camus

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Obra do mês de novembro do Sempre um Livro, O estrangeiro, de Albert Camus, é um livro de pouco mais de cem páginas, carregado, contudo, de fortes estímulos ao pensamento do leitor. Concluído em maio de 1940 e publicado dois anos depois ao mesmo tempo que O mito de Sísifo, este romance pode ser considerado, em parte, a tradução romanesca das ideias contidas no ensaio sobre o absurdo.

Como vemos na primeira parte do romance, o enredo é simples: Meursault, o narrador, leva uma vida medíocre como empregado de escritório em Argel. Um dia, perde sua mãe – instalada há alguns anos em um asilo – e este fato não lhe desperta comoção. Nos dias que se seguem, se envolve com uma ex-colega de trabalho, aprofunda a amizade com Raymond, um vizinho de andar, e, envolvido em uma intriga amorosa deste último, termina por matar um árabe em uma praia.

Apesar de seu envolvimento com a história de Raymond, pessoalmente, Meursault não tinha motivos para desferir cinco tiros contra um homem desarmado que não o havia agredido. Exceção feita ao sol.

O livro possui ainda uma segunda parte na qual o narrador discorre sobre seu próprio julgamento (numa posição excessivamente parcial para um relato desse tipo) e sobre seus dias na prisão à espera do cumprimento de sua sentença. É aí que o caráter de Meursault se mostra por inteiro: nosso homem viveu (e ainda vive na prisão) “em uma espécie de torpor, uma ‘estrangeira indiferença’. Ele representa o homem diante da consciência do absurdo, (…) comportando-se como se a vida não tivesse sentido”. [1]

Camus assim se refere ao seu personagem no prefácio à edição americana do romance, dada a público em 1955:

Há muito tempo atrás, eu defini “O Estrangeiro” numa frase que percebo extremamente paradoxal: “Em nossa sociedade qualquer homem que não chore no enterro de sua mãe é passível de ser condenado a morte”. Eu apenas queria dizer que o ‘herói’ do livro é sentenciado porque ele não jogou o jogo. Nesse sentido, ele é um ”marginal” (outsider) para a sociedade em que ele vive, vagando nos subúrbios da vida, solitário e sensual. 

Por esta razão, alguns leitores têm o considerado como um ”excluído”. Mas para alcançar uma descrição mais acurada de seu caráter, ou melhor, uma descrição mais próxima das intenções de seu autor, é preciso se perguntar de que maneira Mersualt não joga o jogo. A resposta é simples: ele se recusa a mentir. 

Mentir não é apenas dizer o que não é verdade. É também e, especialmente, dizer mais do que é verdade e, no caso dos sentimentos humanos, dizer mais do que se sente. Todos fazemos isso, todos os dias, para tornar a vida simples. Mas contrário às aparências, Meursault não quer fazer a vida simples.

Ele diz o que ele é, recusa-se a esconder seus sentimentos e a sociedade sente-se ameaçada. Por exemplo, espera-se que ele se manifeste arrependido por seu crime, como é de costume. Ele responde que se sente mais incomodado com os distúrbios do fato do que verdadeiro arrependimento. É essa nuance que o condena.

Desta maneira para mim que Meursault não é um ‘excluído’, mas um carente e sincero homem, amando um sol que não deixa sombras. Longe de ser insensível, ele é dirigido por uma tenaz, e por essa razão, profunda paixão; a paixão pelo absoluto e pela verdade. Esta verdade é até aqui, e ainda, vista como negativa; uma verdade que nasce de viver e sentir e sem a qual nenhum triunfo de natureza interior ou do mundo será possível.

Assim não seria um equívoco entender “O Estrangeiro” como a estória de um homem que sem nenhuma pretensão concorda em morrer pela verdade. Eu disse uma vez, e também paradoxalmente, que tentei fazer meu personagem representar o único Cristo que merecemos. Será entendido, após estas explicações, que disse isso sem nenhuma intenção de blasfemar, mas simplesmente com um pouco de afeição irônica que um artista tem o direito de sentir em relação aos personagens que ele tenha criado. [2]

Após as palavras do autor, pouco tenho a acrescentar. Digo apenas que temas importantes presentes na obra, como a reflexão sobre a condição humana, a sátira social e a técnica narrativa certamente se farão presentes na discussão que o grupo levará a cabo nesta tarde de sábado. Desejo um bom encontro para nós e uma boa leitura àqueles que ainda não se aventuraram a ler esta obra e que eventualmente se sintam tentados a isso após a leitura deste blog.

[1] Tradução livre de trechos da página http://mael.monnier.free.fr/bac_francais/etranger/ [original em francês]

[2] Tradução encontrada em: http://cardealnordeste.wordpress.com/tag/o-estrangeiro/

Outra página consultada para elaboração deste texto:

http://www.boladafoca.com/2009/08/o-estranho-momento-presente.html

[Pós-escrito]

Depois de dias e dias às voltas com Camus e com O estrangeiro, consultando, via de regra, páginas estrangeiras me deparei com uma página brasileira dedicada ao autor e à sua obra. Deixo a indicação aos leitores para que possam desfrutar: http://www.albertcamus.com.br/

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Albert Camus (1913-1960)

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Hoje, 07 de novembro de 2013, Albert Camus – autor da obra do mês, O estrangeiro – estaria completando 100 anos. A publicação desta pequena biografia responde, pois, não apenas às práticas do Sempre um livro, mas também ao ensejo do grupo de homenagear o escritor em data assim significativa.

Camus nasceu em Mondovi, Argélia. Era o segundo filho de Lucien Camus, colono de origem francesa, e de Catherine Sintès, quem possuía origem espanhola. No ano seguinte (1914) seu pai é mobilizado para a I Guerra Mundial, vindo a falecer na batalha do Marne, em outubro. Depois da mobilização de Lucien Camus, Catherine se muda com os dois filhos para a casa de sua mãe, situada em um bairro popular da capital, Argel. Para prover o sustento da família a viúva passa a exercer a função de doméstica e é com a ajuda de seu professor, Louis Germain, que Camus conseguirá bolsas para concluir seus estudos.

Em outubro de 1930 o escritor ingressa na faculdade de Filosofia, onde estuda com Jean Grenier. Em dezembro do mesmo ano se manifestam os primeiros sintomas da tuberculose.

Dois anos depois ele publica seus primeiros ensaios na revista Sud e em 1934 desposa a rica e volúvel Simone Hié.  As bodas durarão até 1936.

Em 1935 funda com alguns amigos uma companhia teatral chamada Théâtre du Travail. Também neste ano se filia ao Partido Comunista, do qual se desligará dois anos depois.

No ano de 1940 Camus se muda para Paris para incorporar-se à redação de Paris-Soir e exercer o cargo de leitor de textos na editora Gallimard, pela qual publicará a maior parte de suas obras. Na metrópole, ele se engaja no movimento da Resistência e começa a publicar artigos no jornal clandestino Combat.

Embora já houvesse escrito uma novela, uma peça de teatro e dois livros de ensaios enquanto ainda vivia na Argélia, é na França e a partir dos anos 40 que o autor encontrará a consagração. Seu romance O estrangeiro vem a lume em 1942, mesmo ano da publicação do ensaio O mito de Sísifo. Ambas as obras se incluem no que se convencionou chamar de ciclo do absurdo, um tema também presente nas peças de teatro Calígula (1944) e O mal entendido (1944).

Outros dois grandes temas enfocados por Camus foram a revolta e a solidão. A primeira está no cerne das obras A peste (romance, 1947), O estado de sítio (teatro, 1948 – escrita em colaboração com Jean-Louis Barrault), Os justos (teatro, 1950) e O homem revoltado (ensaio, 1951). Aliás, este ensaio provoca o rompimento de Camus com Jean Paul Sartre, outro grande nome da literatura e filosofia francesas.

A solidão comparece em outro ciclo de obras: A queda (romance, 1956), O exílio e o reino (contos, 1957) e O primeiro homem (romance gestado nos anos 50 e só publicado postumamente em 1995).

A eclosão da guerra da Argélia em 1954 (guerra esta que só terminará em 1962, quando o autor já está morto) coloca o escritor em uma encruzilhada: contrário a quaisquer atos violentos – tanto o terrorismo de Estado como a violência revolucionária – e sentindo-se ligado tanto à sua Argélia natal como à metrópole, onde residia e estava fazendo carreira, Camus defende um complicado meio termo, desejando uma Argélia liberta do jugo colonial, mas não independente da França.

Em 1957, contrariando todas as previsões, Camus é galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos” [1].

Albert Camus morreu em 1960, num trágico acidente de carro ocorrido quando retornava a Paris, saindo de Lourmarin, onde veio a ser enterrado.

[À parte]

Para nós, brasileiros, cobra especial interesse a visita que Camus fez ao país em 1949, como parte de um tour à América do Sul bancado pelo governo francês. Na terra brasilis o escritor travou contato com intelectuais como Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Manuel Bandeira e com manifestações culturais as mais diversas: “levaram-no até a uma sessão de macumba no subúrbio carioca de Caxias, a um bumba meu boi no Recife, a um candomblé em Salvador” [2]. A quem se interessar o relato dessa viagem se encontra disponível no livro Diário de Viagem, publicado postumamente.

[Notas]

[1] Justificativa da Academia Sueca para concessão do Prêmio Nobel de Literatura a Albert Camus. Tradução ao português encontrada na Wikipédia.

[2] Cito trecho do texto do jornalista Sérgio Augusto publicada no último dia 02/11 no Estado de São Paulo. Ver referências mais abaixo.

[Referências]

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1957/ [página do site oficial do Prêmio Nobel, em inglês]

http://www.etudes-camusiennes.fr/wordpress/ [página da Societé des Études Camusiennes, em francês]

http://www.camus-society.com/index.html [site da Albert Camus Society, em inglês]

http://webcamus.free.fr/index.html [página em francês dedicada a Albert Camus]

Reportagens: http://www.publico.pt/cultura/jornal/albert-camus–autor-de-o-estrangeiro-nasceu-ha-cem-anos-27363849 e http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed771_o_homem_deprimido

[Créditos da foto] Albert Camus – © Bettmann/CORBIS

Fonte aqui: http://www.lepoint.fr/culture/2009-11-19/albert-camus-au-pantheon/249/0/397028

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