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Outros olhares sobre O Alienista

Com base no texto disponibilizado ao final do livro de Moacyr Scliar, “O mistério da Casa Verde”, apresento alguns dos “outros olhares sobre O Alienista”, para aqueles que se interessarem e quiserem buscar mais informações:

1) Azyllo muito louco (1969), do cineasta Nelson Pereira dos Santos: um filme alegórico que apresenta ao público o autoritarismo policialesco que vigorava no país. Uma adaptação do conto de Machado de Assis à mensagem para a época, ou seja, não segue à risca o texto machadiano.

2) Uma luxuosa edição da Sociedade dos 100 Bibliófilos, de 1948, com o conto “O Alienista” primorosamente ilustrado por Cândido Portinari.

3) A adaptação da extinta TV Tupi, com a novela Vila do Arco (1973).

4) A minissérie da Rede Globo, O Alienista (1993), de Guel Arraes, com Marco Nanini no papel do Dr. Simão Bacamarte.

5) A adaptação para o teatro feita pelo Grupo Ria, em São Paulo, sob a direção de José Paulo Rosa, em 1999.

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A indicação de “O Alienista”

POR QUE A INDICAÇÃO DE “O ALIENISTA” (MACHADO DE ASSIS)?

 Ivan Bilheiro

 Entre tantos aspectos possíveis, qual escolher para falar da obra O Alienista, de Machado de Assis[1]? É a pergunta que me tenho feito há algum tempo, em busca de uma temática interessante para o texto sobre a obra do mês do Grupo de Leituras Sempre um Livro. Escolhi, por fim, falar um pouco sobre o motivo de ter feito esta indicação de leitura. Assim, encontro a oportunidade de aventar alguns elementos da obra, mas deixando que seu aprofundamento seja feito no debate do próximo encontro – e, ainda, despertando a curiosidade do leitor deste blog.

Meu primeiro contato e primeira leitura deste texto machadiano se deu na 6ª série do Ensino Fundamental (atual 7º ano – segundo ciclo), nas aulas de Português (ou Literatura, não lembro bem), com a professora Fátima. Colocados os alunos nas mesas da biblioteca do colégio, foram distribuidas algumas obras para serem lidas conjuntamente. Meu grupo ficou, então, justamente com O Alienista. A leitura me atraiu, e fui o único daquele grupo a chegar ao umbilicus, isto é, ler até o fim. Os colegas, mais preocupados em aproveitar a “aula diferente” para conversar, perderam esta oportunidade.

Já o segundo contato foi no 1º (ou 2º?) ano do Ensino Médio, em outro colégio, sob a batuta da professora Andréia[2]. Na verdade, aquele foi um “contato indireto”: o vestibular seriado da Universidade da minha cidade estipulou, como leitura obrigatória para aquele ano, o texto do Moacyr Scliar, O mistério da casa verde[3], uma espécie de releitura/adaptação do texto machadiano, com uma outra história, que pretende servir para despertar o interesse dos jovens leitores pelo conto original. A revolta da professora de Literatura se manifestava constantemente (e tive a oportunidade de conversar com ela, há poucos dias, sobre isso): nada contra o texto de Scliar – ao contrário, até havia a indicação de outra obra deste escritor, A majestade do Xingu[4] –, mas ela não se acertava com o julgamento da banca com relação à (in)capacidade dos alunos – afinal, por que não fazer com que leiam o texto mesmo de Machado, em vez de uma “adaptação para jovens”?! Uma “simplificação barata” da capacidade dos estudantes!

Estas duas situações aproximam-se justamente para, em conformidade com o pensamento de minha professora Andréia, mostrar que o texto de Machado de Assis é passível da leitura dos jovens e, como ela bem disse, a gargalhada é certa. Há em O Alienista profundas críticas sociais, em especial à prepotência da ciência, que naturalmente não percebi em minha primeira leitura, ainda com cerca de 13 anos de idade; mas nada me impediu de apreciar o texto e de compreendê-lo enquanto uma narrativa ficcional, e um conto magnificamente envolvente, mesmo pelo humor ali contido.

Ademais, a adaptação feita por Scliar é, a meu ver, pobre, mal concebida e mal elaborada. Ao invés de colcoar os estudantes para ler um texto bem elaborado, como O Alienista, a Universidade optou por estipular a leitura de uma “adaptação” que tem como personagens adolescentes, da geração do século XXI, que chamam uma linda garota de “garota bonérrima” e “um avião”. Faltou pesquisa para compor estes personagens, não?!

Agora, um “leitor maduro” (a expressão não é boa, mas não encontro outra melhor), consigo capturar e me divertir com outros diversos aspectos d‘O Alienista, o que reafirma a vivacidade e a riqueza da obra machadiana. Entre os elementos que me despertam interesse na obra, e que deverão ser tema de debate no encontro do Sempre um Livro, está a riqueza e precisão vocabular de Machado. É claro, existem figurões que se opõem, mas o texto machadiano é admirável (cito o exemplo do professor Hemetério dos Santos, para quem a leitura de duas ou três páginas de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas seria suficiente para dar conta de toda a obra machadiana, por sua pobreza vocabular[5]).

É curiosa, também, a forma com que Machado de Assis retrata a questão da produção da loucura e o jogo de poder dos saberes (ciência). Segundo o professor Roberto Gomes, da Universidade Federal do Paraná[6], deve-se enxergar aí um tratamento inédito do tema, posto que esta discussão só se daria, com profundidade, por volta da década de 1960. Este é o principal aspecto que me levou à indicação deste texto.

Por fim, e sei que este é um dos pontos mais interessantes da obra do mês, deve-se fazer coro à pergunta feita pelo personagem vereador Sebastião Freitas: “[…] quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (ASSIS, 1972, p. 218). Ao fim e ao cabo, Simão Bacamarte, protagonista da história, estava mesmo louco – e foi o único louco de Itaguaí, como corria em boatos, segundo nos conta Machado ao final da trama?! Ou o médico era um “cavaleiro andante da ciência” (GOMES, 1993) e, ao estilo Plus ultra!, rendia-se aos mandos das suas pesquisas, como um bom e, sobretudo, sensato profissional?!

Por tudo isso, e ainda diversos outros elementos, sei que a escolha foi boa e que o debate sobre O Alienista, que me foi obstaculizado tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, será imensamente proveitoso aos integrantes do Sempre um Livro. Encontro marcado, portanto, no próximo sábado, no Salão Nobre da Casa Verde – nenhum lugar melhor, já que somos todos, como dizem que disse Voltaire, uns loucos….

_________

[1] ASSIS, Machado de. O alienista. In: ______. Helena / O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). p. 189-247.

[2] Trata-se da Profª Drª Maria Andréia de Paula Silva (http://lattes.cnpq.br/7552317392777753).

[3] SCLIAR, Moacyr. O mistério da Casa Verde. São Paulo: Átiva, 2004. (Descobrindo os clássicos).

[4] SCLIAR, Moacyr. A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[5] A informação está no texto “Artilharia do idioma: polêmicas movimentaram a vida literária do Brasil em fins do século 19 e começo do 20 por causa de maus-tratos ao português e à literatura”, escrito por Gabriel Kwaik e Luiz Costa Pereira Junior para a Revista Língua Portuguesa, ano 2, n. 20, de junho de 2007. Trata-se de uma referência a uma das situações abordadas pela pesquisadora Anna Lee no livro “O sorriso da sociedade” (Ed. Objetiva, 2006).

[6] No artigo “O alienista: loucura, poder e ciência”, da Revista Tempo Social (Revista de Sociologia da USP), n. 5, 1993, p. 145-160. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v0512/Alienista.pdf>. Acesso em 3 nov. 2012.

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Machado de Assis

PEQUENA BIOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS [1]

Ivan Bilheiro

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de 1908. Herdou de seus importantes padrinhos os nomes: Joaquim Alberto de Souza Siqueira (dignitário do Paço, oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro e comendador da Ordem de Cristo) e Maria José de Mendonça Barroso (Viúva do oficial Bento Pereira Barroso, ex-Ministro e Senador do Império).

Era filho de uma lavadeira açoriana (da Ilha de São Miguel), Maria Leopoldina Machado de Assis, e de um pai mulato e pintor [2] de nome Francisco José de Assis. A mãe o deixou logo, por volta do ano de 1849. O pai, que se uniu a uma outra lavadeira, também mulata, de nome Maria Inês, faleceu em 1851.

Então, Machado de Assis, menino fraco, raquítico e epilético, mudou-se com a madrasta. Ela empregou-se como cozinheira do Colégio São Cristóvão e o menino ficou responsável por vender, à rua, as balas por ela fabricadas. Com Maria Inês, Machado aprendeu as primeiras letras. Também aprendeu francês, com uma dona de padaria chamada Senhora Gallot [3]; e latim, ao tornar-se sacristão na Igreja da Lampadosa.

Já rapaz, encantou-se com a Livraria e Tipografia Paula Brito, e em 1855 empregou-se ali, como auxiliar/aprendiz de tipógrafo.

Segundo alguns dos textos biográficos, a primeira publicação de Machado de Assis deu-se no jornal de Francisco de Paula Brito, dono da Tipografia, chamado “Marmota Fluminense”. Seria o poema “Ela” [4], datado de 1855. Contudo, na biografia disponível no sítio da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual Machado de Assis foi fundador, consta que a primeira publicação do escritor teria sido no ano de 1854, com um soneto de título “À Ilma. Sra. D. P. J. A.”, no Periódico dos Pobres de 3 de outubro daquele ano.

Em 1856, Machado passou ao periódico Imprensa Nacional, o qual era dirigido pelo romancista Manuel Antônio de Almeida. No trabalho, Machado de Assis era flagrado lendo constantemente. O diretor, ao invés de o repreender, o tomou como protegido e discípulo, e só o estimulava.

Paralelamente, Machado continuava seus estudos, sob a batuta do padre Silveira Sarmento.

Em 1859 [5], transferiu-se para o Correio Mercantil, tornando-se revisor de provas. No mesmo ano, fundou a revista O espelho (com Eleutério de Souza) [6] e, em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a escrever para o Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente, também, para a Semana Ilustrada e para o Jornal das Famílias.

Nestes trabalhos, Machado atuou como cronista e crítico teatral, o que o levou a tentar as primeiras peças, Hoje avental, amanhã luvaDesencantos, ambas de 1861. Em 1864, Machado de Assis publica seu primeiro livro de poesias, chamado Crisálidas.

Conheceu Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã de seu amigo, o poeta Faustino Xavier de Novais, em 1867. Casou-se com a moça em 12 de novembro de 1869 [7].

Auxiliar de diretor no Diário Oficial desde 1867, escrevendo constantemente, e passando a ocupar importantes cargos públicos, Machado tem fase desgastante e, por recomendação médica, viaja a descanso para Nova Friburgo, em 1874. Ao retornar, lança Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1880 (“feita aos pedaços na Revista Brasileira”, como diz o autor, no Prólogo à Quarta Edição) iniciando nova fase como escritor [8].

Chegou a fundar um Grêmio de Letras e Artes, o qual só durou 3 anos. Depois, em 1896, fundou, com outros importantes intelectuais, a Academia Brasileira de Letras. Segundo o sítio da própria Academia, ocorreram sete reuniões preparatórias, sendo a primeira datada de 15 de dezembro de 1896, na qual Machado foi logo aclamado presidente (cargo que ocupou até a morte). A sétima destas sessões foi em 28 de janeiro de 1897, e nesta efetivou-se a instituição da Academia. A sessão inaugural, por sua vez, só ocorreu em 20 de julho de 1897.

Em 1904, Machado fez outra viagem para descanso e, neste mesmo ano, sua esposa faleceu, em 20 de outubro.

Já em 1908, pouco depois de publicar Memorial de Aires, Joaquim Maria Machado de Assis falece (29 de setembro), e recebe uma última saudação de ninguém menos que Rui Barbosa.

O escritor, de origem humilde e severa persistência, muitas vezes tomado como o maior de todos entre os brasileiros, deixou vasta e importante obra, marcando em definitivo a história da literatura.


[1] A maior parte das informações foi retirada da biografia A vida de Machado de Assis contida no volume ASSIS, Machado de. Helena; O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). Houve, ainda, cotejo com os dados biográficos contidos nas seguintes obras:

ASSIS, Machado de. Contos. 6. ed. São Paulo: Ática, 1977. (Bom livro).

______. Memórias Póstumas de Brás Cubas; Dom Casmurro. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

BIOGRAFIA – MACHADO DE ASSIS. Disponível em <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=659&sid=240>. Acesso em 30 out. 2012.

PATRICK, Julian (edt.). 501 grandes escritores: um guia abrangente sobre os gigantes da literatura. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

SALES, Herberto (org.). Antologia escolar de contos brasileiros. 14. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

[2] O pai é colocado como “operário” na biografia disponível no sítio da Academia Brasileira de Letras.

[3] Algumas biografias suprimiram a atuação desta senhora, afirmando que Machado aprendeu sozinho o francês.

[4] Segundo a biografia contida no volume com Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, o primeiro poema teria como título “Meu Anjo”.

[5] A biografia da ABL coloca o ano de 1858.

[6] A biografia da ABL não fala que Machado foi fundador da revista O espelho. Só há referência às suas colaborações, como escritor. Na dissertação “A Marmota e seu perfil editorial: contribuição para edição e estudo dos textos machadianos publicados neste periódico (1855-1861)”, apresentada à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora Juliana Siani Simionato também fala que Machado contribuiu já no primeiro número de O espelho, mas seu fundador foi Eleutério de Souza.

[7] No volume com Helena e O alienista, o ano do casamento aparece como sendo 1868.

[8] No volume com os Contos, consta que a viagem foi feita entre 1878 e 1879. Esta data faz mais sentido se relacionada com a proximidade da publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, posto que é dito que foi publicada “em seguida” à viagem. Destaca-se, ainda, que algumas biografias colocam a publicação desta obra no ano de 1881.

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O Alienista – Machado de Assis (Áudio livro)

O texto ao qual se dedicam os membros do Sempre um Livro neste mês de outubro/2012 é O Alienista, de Machado de Assis. Em pesquisas pela Internet, encontrei este interessante projeto, o “LibriVox”, no qual está disponibilizada a citada obra, em áudio livro. Para os que se interessarem:

http://librivox.org/o-alienista-by-machado-de-assis/

Seguir para “mp3 and ogg files” e, então, selecionar o capítulo que deseja ouvir.

Boa leitura! Ou melhor: boa audição!!!

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por | 22 de outubro de 2012 · 22:16