Arquivo do mês: outubro 2012

Machado de Assis

PEQUENA BIOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS [1]

Ivan Bilheiro

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de 1908. Herdou de seus importantes padrinhos os nomes: Joaquim Alberto de Souza Siqueira (dignitário do Paço, oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro e comendador da Ordem de Cristo) e Maria José de Mendonça Barroso (Viúva do oficial Bento Pereira Barroso, ex-Ministro e Senador do Império).

Era filho de uma lavadeira açoriana (da Ilha de São Miguel), Maria Leopoldina Machado de Assis, e de um pai mulato e pintor [2] de nome Francisco José de Assis. A mãe o deixou logo, por volta do ano de 1849. O pai, que se uniu a uma outra lavadeira, também mulata, de nome Maria Inês, faleceu em 1851.

Então, Machado de Assis, menino fraco, raquítico e epilético, mudou-se com a madrasta. Ela empregou-se como cozinheira do Colégio São Cristóvão e o menino ficou responsável por vender, à rua, as balas por ela fabricadas. Com Maria Inês, Machado aprendeu as primeiras letras. Também aprendeu francês, com uma dona de padaria chamada Senhora Gallot [3]; e latim, ao tornar-se sacristão na Igreja da Lampadosa.

Já rapaz, encantou-se com a Livraria e Tipografia Paula Brito, e em 1855 empregou-se ali, como auxiliar/aprendiz de tipógrafo.

Segundo alguns dos textos biográficos, a primeira publicação de Machado de Assis deu-se no jornal de Francisco de Paula Brito, dono da Tipografia, chamado “Marmota Fluminense”. Seria o poema “Ela” [4], datado de 1855. Contudo, na biografia disponível no sítio da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual Machado de Assis foi fundador, consta que a primeira publicação do escritor teria sido no ano de 1854, com um soneto de título “À Ilma. Sra. D. P. J. A.”, no Periódico dos Pobres de 3 de outubro daquele ano.

Em 1856, Machado passou ao periódico Imprensa Nacional, o qual era dirigido pelo romancista Manuel Antônio de Almeida. No trabalho, Machado de Assis era flagrado lendo constantemente. O diretor, ao invés de o repreender, o tomou como protegido e discípulo, e só o estimulava.

Paralelamente, Machado continuava seus estudos, sob a batuta do padre Silveira Sarmento.

Em 1859 [5], transferiu-se para o Correio Mercantil, tornando-se revisor de provas. No mesmo ano, fundou a revista O espelho (com Eleutério de Souza) [6] e, em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a escrever para o Diário do Rio de Janeiro. Escrevia regularmente, também, para a Semana Ilustrada e para o Jornal das Famílias.

Nestes trabalhos, Machado atuou como cronista e crítico teatral, o que o levou a tentar as primeiras peças, Hoje avental, amanhã luvaDesencantos, ambas de 1861. Em 1864, Machado de Assis publica seu primeiro livro de poesias, chamado Crisálidas.

Conheceu Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã de seu amigo, o poeta Faustino Xavier de Novais, em 1867. Casou-se com a moça em 12 de novembro de 1869 [7].

Auxiliar de diretor no Diário Oficial desde 1867, escrevendo constantemente, e passando a ocupar importantes cargos públicos, Machado tem fase desgastante e, por recomendação médica, viaja a descanso para Nova Friburgo, em 1874. Ao retornar, lança Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1880 (“feita aos pedaços na Revista Brasileira”, como diz o autor, no Prólogo à Quarta Edição) iniciando nova fase como escritor [8].

Chegou a fundar um Grêmio de Letras e Artes, o qual só durou 3 anos. Depois, em 1896, fundou, com outros importantes intelectuais, a Academia Brasileira de Letras. Segundo o sítio da própria Academia, ocorreram sete reuniões preparatórias, sendo a primeira datada de 15 de dezembro de 1896, na qual Machado foi logo aclamado presidente (cargo que ocupou até a morte). A sétima destas sessões foi em 28 de janeiro de 1897, e nesta efetivou-se a instituição da Academia. A sessão inaugural, por sua vez, só ocorreu em 20 de julho de 1897.

Em 1904, Machado fez outra viagem para descanso e, neste mesmo ano, sua esposa faleceu, em 20 de outubro.

Já em 1908, pouco depois de publicar Memorial de Aires, Joaquim Maria Machado de Assis falece (29 de setembro), e recebe uma última saudação de ninguém menos que Rui Barbosa.

O escritor, de origem humilde e severa persistência, muitas vezes tomado como o maior de todos entre os brasileiros, deixou vasta e importante obra, marcando em definitivo a história da literatura.


[1] A maior parte das informações foi retirada da biografia A vida de Machado de Assis contida no volume ASSIS, Machado de. Helena; O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). Houve, ainda, cotejo com os dados biográficos contidos nas seguintes obras:

ASSIS, Machado de. Contos. 6. ed. São Paulo: Ática, 1977. (Bom livro).

______. Memórias Póstumas de Brás Cubas; Dom Casmurro. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

BIOGRAFIA – MACHADO DE ASSIS. Disponível em <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=659&sid=240>. Acesso em 30 out. 2012.

PATRICK, Julian (edt.). 501 grandes escritores: um guia abrangente sobre os gigantes da literatura. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

SALES, Herberto (org.). Antologia escolar de contos brasileiros. 14. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

[2] O pai é colocado como “operário” na biografia disponível no sítio da Academia Brasileira de Letras.

[3] Algumas biografias suprimiram a atuação desta senhora, afirmando que Machado aprendeu sozinho o francês.

[4] Segundo a biografia contida no volume com Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, o primeiro poema teria como título “Meu Anjo”.

[5] A biografia da ABL coloca o ano de 1858.

[6] A biografia da ABL não fala que Machado foi fundador da revista O espelho. Só há referência às suas colaborações, como escritor. Na dissertação “A Marmota e seu perfil editorial: contribuição para edição e estudo dos textos machadianos publicados neste periódico (1855-1861)”, apresentada à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora Juliana Siani Simionato também fala que Machado contribuiu já no primeiro número de O espelho, mas seu fundador foi Eleutério de Souza.

[7] No volume com Helena e O alienista, o ano do casamento aparece como sendo 1868.

[8] No volume com os Contos, consta que a viagem foi feita entre 1878 e 1879. Esta data faz mais sentido se relacionada com a proximidade da publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, posto que é dito que foi publicada “em seguida” à viagem. Destaca-se, ainda, que algumas biografias colocam a publicação desta obra no ano de 1881.

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O Alienista – Machado de Assis (Áudio livro)

O texto ao qual se dedicam os membros do Sempre um Livro neste mês de outubro/2012 é O Alienista, de Machado de Assis. Em pesquisas pela Internet, encontrei este interessante projeto, o “LibriVox”, no qual está disponibilizada a citada obra, em áudio livro. Para os que se interessarem:

http://librivox.org/o-alienista-by-machado-de-assis/

Seguir para “mp3 and ogg files” e, então, selecionar o capítulo que deseja ouvir.

Boa leitura! Ou melhor: boa audição!!!

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por | 22 de outubro de 2012 · 22:16

Encontro de outubro/2012

Se a obra O fazedor (El hacedor), primeira do tipo híbrido (poemas e contos) produzida pelo argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986), pode ser considerada “porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor”, deve-se dizer, conforme os diálogos do último sábado, 13 de outubro de 2012, que logo no hall de entrada deste universo encontram-se envolventes exemplares da coleção do escritor: o infinito, os labirintos, os espelhos, as fantasias…

Ao que parece, a leitura serviu para lançar os membros do Sempre um Livro em diversas reflexões, entre elas a da beleza literária de sínteses bem produzidas. A certeza que fica é que todos ainda lerão muitos textos de Borges!

VOTAÇÃO

Por unanimidade, foi eleita a obra O alienista, de Machado de Assis.

Figuraram na eleição os seguintes livros, além do eleito: O poeta fingidor, de Fernando PessoaNoites brancas, de Fiódor Dostoiévski; e A rua dos cataventos, de Mario Quintana.

CARTAS

Os membros do Sempre um Livro têm o singelo costume de estabelecer uma circulação de cartas (como na tradição, manuscritas) acerca das obras discutidas. Assim, encontram a oportunidade de abordar, com mais vagar, questões que escaparam aos diálogos nos encontros presenciais.

Entretanto, demoras nas entregas das cartas fizeram com que o método fosse repensado. Agora, em substituição ao prazeroso recebimento de cartas via Correios, estabeleceu-se o seguinte método, que tem a vantagem de garantir maior proximidade do recebimento dos manuscritos com o encontro relativo à obra sobre a qual tratam:

1) O membro “anfitrião” (aquele que foi o responsável pela indicação da obra eleita), no encontro seguinte ao da discussão de sua obra, entrega em mãos a todos os membros uma cópia de uma carta, endereçada à generalidade do grupo;

2) No encontro subsequente, todos os membros devem entregar ao primeiro remetente (com cópias aos demais membros) uma resposta-comentário.

Desta forma, em dois encontros após aquele relativo à obra, todos terão os comentários escritos de seus colegas em mãos, evitando extravios como os já ocorridos.

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“O fazedor”: tentativas de achar a chave da porta de entrada ao universo literário de Jorge Luis Borges

O livro “El hacedor” (1960) (“O fazedor”, na tradução brasileira) traz em si vários elementos que o qualificam como excelente porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor, Jorge Luis Borges. Aparentemente, trata-se de um livro banal, uma miscelânea de contos curtos e de poemas metrificados. Entretanto, nada mais enganoso que deixar-se levar pelas aparências e pela indicação da contracapa.

Em primeiro lugar, porque este livro tem o mérito de romper com o hiato lírico na obra de Borges, autor que nos anos 40 e 50 brindou aos leitores apenas livros de ensaios e contos, embora entre estes encontrem-se maravilhas do quilate de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Ainda com respeito aos poemas, é bom notar que eles são compostos por versos metrificados, os quais são adotados tanto pelo esgotamento da estética ultraísta(*) quanto pela suposta facilidade de seu manejo por um homem que a essa altura já estava de todo cego.

Mas, contrariando a imagem que tradicionalmente fazemos de poesia, Borges usa seus versos para levantar questões filosóficas e apresentar ao leitor sua particular concepção de mundo. Atentemos a estes versos de “Ajedrez”:

También el jugador es prisionero 
(la sentencia es de Omar) de otro tablero 
de negras noches y de blancos días. 

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. 
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza 
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Voltando ao engano das aparências, destacamos, em segundo lugar, que os textos em prosa reunidos em “O fazedor” representam uma viragem na concepção estética do artista. Borges passa a tensionar os limites da narrativa, emparentando-a com a reflexão filosófica, e a investir na concisão quase extrema, reduzindo os relatos a uma página ou pouco mais que isso. E antes que eu me esqueça, é também a primeira vez que Borges publica um livro híbrido. Outro ponto a notar é o questionamento em torno da figura do autor que comparece em alguns desses textos e, por suposto, da autoridade que esse personagem teria. “Borges y yo” é o melhor exemplar do que estamos falando:

      Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
         No sé cuál de los dos escribe esta página.

O conjunto de materiais reunidos em “O fazedor” apresenta, pois, um convite de seu autor à reflexão sobre o ofício de escrever e sobre a validade dos gêneros como instituição literária. Essas reflexões até podem nos ajudar a penetrar melhor no universo borgeano, como disse no início do texto, mas representam uma porta de entrada que não está escancarada… ela ainda exige que tateemos à procura da chave e da fechadura.

Nota:

(*) Ultraísmo: Foi a primeira vanguarda literária espanhola em língua castelhana, gestada entre 1918 e 1925. Chega à Argentina pelas mãos de Jorge Luis Borges, que voltava de uma temporada com a família na Europa. Entendido pelos seus idealizadores como um movimento literário (e não uma escola estética), o ultraísmo compilou fragmentos do cubismo literário, do futurismo, do expressionismo e do dadaísmo e tinha como objetivo criar uma renovação/ruptura no panorama da literatura espanhola.

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Jorge Luis Borges: tentativas de acercamento ao “mito”

Começo a traçar estas linhas sobre Borges aproveitando a feliz constatação do companheiro Rogério Arantes, expressa em outro texto deste mesmo blog: “No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.”

Essa frase resume perfeitamente o “peso” que o nome de Borges adquiriu com o passar dos anos, a aura de mito que o envolve e a consequente dificuldade que isto coloca no momento de escrever sobre ele, ainda que seja apenas uma apresentação simples, como esta pretende ser.

Antes de seguir, apenas uma observação sobre algo que notei lendo a obra do mês – O fazedor – e que acredito ajudaria a diminuir o culto. Neste livro, Borges tenta em mais de uma ocasião desfazer a aura em redor de sua figura, comparando-se com Groussac e Lugones, confundindo-se no labirinto de nomes e figuras que é a história literária. E em “Borges y yo”, um falso convite à intimidade, ele escreve: “Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición.” O foco na tradição em lugar da linguagem, creio eu, é que alimenta o mito. Mas não estou em posição de discorrer profundamente sobre o tema.

Passemos, pois, à apresentação de Jorge Luis Borges. Nascido em 1899 na cidade de Buenos Aires, ele é um dos orgulhos nacionais da Argentina e eterno injustiçado da Academia Sueca, concedente anual do Prêmio Nobel de Literatura. Iniciou sua carreira literária nos anos vinte, editando revistas de vanguarda como “Prismas” e “Proa” e publicando livros de poemas como Fervor de Buenos Aires e Luna de enfrente.

Nos anos 30, aproximou-se das irmãs Victoria e Silvina Ocampo, que lhe apresentaram Adolfo Bioy Casares, com quem Borges escreveu alguns volumes dedicados à literatura fantástica e policial, além de traduções.

A década de 40 assistiu à publicação de dois volumes de contos tidos hoje como antológicos – Ficções (1944) e  O Aleph (1949) e também à progressão da cegueira do autor, que em 1955 perde quase por completo a visão e passou a depender do auxílio da mãe e de amigos para ler e escrever.

O ano de 1955 se destaca também pela distinção conferida ao escritor após a queda do governo de Perón: Borges é eleito membro da Academia Argentina de Letras e nomeado diretor da Biblioteca Nacional. A assunção do cargo combinada com a perda da visão deu origem aos excelentes versos do “Poema de los dones” (cito apenas as primeiras estrofes):

Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

Em 1961 Borges divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado pelo Congresso Internacional de Editores, distinção que o coloca em evidência no contexto literário mundial.

O cargo de diretor da BN Argentina foi ocupado por Borges até 1974, quando os peronistas retornaram ao poder e o exoneraram. Dois anos depois, quando foi instaurada a ditadura no país porteño, o autor chegou a comemorar o fato, sendo desde então associado à “direita” e criticado por seu posicionamento político. No mesmo organiza um volume de suas Obras Completas, editado por Emecé Editores.

Em 1979, recebe o Prêmio Cervantes, maior distinção literária aos autores de língua espanhola e no ano seguinte assina junto com outras personalidades argentinas um documento lançado pelo jornal Clarín – a  “Solicitada sobre los desaparecidos”.

Seu último livro – Los conjurados – foi publicado em 1985. Borges faleceu em 1986 na cidade de Genebra, Suíca. Deixou uma prolífica obra literária e, considerando-se que ele viveu quase trinta anos dentro da noite aludida no poema acima, faz sentido que tenhamos guardado dele a imagem de um demiurgo cego, apoiado em sua bengala e criando mundos através da literatura.

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O irmão esquecido

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto é arte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIASBIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

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