Arquivo do mês: novembro 2012

Claro Enigma: As Pedras e o Caminho de Drummond

CLARO ENIGMA: AS PEDRAS CAMINHO DE DRUMMOND

Rogério Arantes

Quando nasci,um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida!

A pequena cidade de Itabira do Mato Dentro-MG, ainda hoje é reconhecida por ter sido o berço de um dos principais nomes da história da literatura brasileira: Carlos Drummond de Andrade.

Nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de D. Julieta Augusta Drummond de Andrade, nasceu, a 31 de outubro de 1902, o escritor que deixou claro, em “Confidências do itabirano”, um pouco de sua relação com sua cidade natal: “Alguns anos vivi em Itabira./Principalmente nasci em Itabira./Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.”.

O nítido contato da obra com a cidade natal, no entanto, é apenas uma das várias faces de Drummond. Ainda menino, em 1916, Drummond foi enviado para Belo Horizonte, para estudar no Colégio Arnaldo, colégio onde estudaram, dentre outros, João Guimarães Rosa, Otto Maria Carpeaux e Lúcio Cardoso.

Problemas de saúde fizeram com que Drummond abandonasse Belo Horizonte e voltasse para sua terra natal, a nova estadia aí, porém, durou pouco tempo1. Após se recuperar de seus problemas de saúde foi estudar, em 1918, no Colégio Anchieta (jesuíta) de Nova Friburgo-RJ. Após um ano de estudos na instituição, Drummond foi expulso, devido a desavenças com os padres. Esse episódio teve especial importância dentro da visão de mundo e também da obra de Drummond: no documentário Fazendeiro do Ar (1972), ao ser perguntado sobre sua relação com a religião, o itabirano nos diz:

A minha experiência religiosa resulta naturalmente da formação familiar, né? Nós herdamos a religião como a gente herdava os objetos, né, as terras, tudo que havia dos antepassados. Sucede que já moço eu abandonei esse fardo, a minha experiência [religiosa] foi muito desalentadora. Acredito que o contato com os padres tenha influído para que eu me afastasse do sentimento religioso (…) Embora eu, seja dito de passagem, acho admirável que os outros tenham religião.2

Após essa expulsão, Drummond voltou à Belo Horizonte, dessa vez junto com sua família, que se mudou para a capital mineira em 1921. Essa nova passagem por Belo Horizonte foi bem mais duradoura do que a primeira, e é nesse início da década de 20 – momento de efervescência modernista no Brasil, coroado com a Semana de Arte Moderna, de 1922 – que Drummond, de fato, tornou-se um escritor. O conto “Joaquim do Telhado”, publicado na revista Novella Mineira, em 1922, foi o motivo do primeiro prêmio literário de Drummond: 50 mil réis. A partir desse ano o escritor passou a publicar em vários jornais e revistas de Belo Horizonte e a conhecer vários outros escritores e amigos. Pontos de encontro como o Café Estrela e a Livraria Alves, tornaram-se lugares de discussões literárias, políticas e afins.

Em 1923, Drummond prestou vestibular para a Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, matriculou-se no curso e formou-se dois anos depois. Nesse meio tempo conheceu os expoentes máximos do Modernismo: Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Começou a trocar correspondências com esse último e com isso recebeu fortes influências modernistas. Acerca de suas correspondências com Mário de Andrade, Drummond nos diz:

As cartas de Mário de Andrade ficaram sendo o acontecimento mais formidável de nossa vida intelectual belo-horizontina. Depois de recebê-las, ficávamos diferentes do que éramos antes. E diferentes no sentido de mais lúcidos. Quase sempre ele nos matava ilusões, e a morte era tão completa que podia deixar-nos ofendidos e infelizes. Então reagíamos com injustiças, tolices, o que viesse de momento ao coração envinagrado. Mário recebia essas tolices, mostrava que eram simplesmente tolices, e ficávamos mais amigos… Porque a amizade se formou numa base de literatura, e devia nutrir-se dela, até que fossem chegando outros motivos de interesse e abandono, certas confidências difíceis, pedidos de conselho. Isto que nas relações comuns o conhecimento pessoal e o trato diário costumam permitir, o conhecimento postal e literário suscitara imprevistamente e era mesmo uma festa receber carta de Mário, ().3

O ano de 1925 marcou, além da conclusão do seu curso de Farmácia (profissão que preferiu não exercer depois), o seu casamento com Dolores Dutra de Morais e também a fundação de Revista, em conjunto com Martins de Almeida, Emílio Moura e Gregoriano Canedo.

No ano seguinte Drummond retornou mais uma vez a Itabira, para lecionar português e geografia no Ginásio Sul-Americano de Itabira. Descontente com o magistério, Drummond deixou Itabira, desta vez definitivamente, para novo retorno a Belo Horizonte: a convite de Alberto Campos, para tornou-se redator-chefe do Diário de Minas.

Os anos de 1927 e 1928 marcam os nascimentos do filhos de Drummond. Ambos marcaram profundamente o poeta, de maneiras distintas. Em 1927, nasceu Carlos Flávio. O primeiro filho de Drummond, no entanto, viveu apenas meia hora e essa sua fugidia existência reverberou no poema “Ser”, de Claro Enigma: “Interrogo meu filho,/objeto de ar:/em que gruta ou concha/quedas abstrato?”.

Já em 1928, nasceu Maria Julieta. O contato entre pai e filha foi intenso durante a vida de ambos, o fim dessas vidas, inclusive confirmará esse ponto. O ano de 1928 marcou também, de vez, o nome de Drummond na literatura brasileira em virtude da publicação, na Revista de Antropofagia, do poema “No meio do caminho”.

O poema, que ficou incrivelmente famoso e até hoje e lembrado por muitos (mesmo, as vezes, sem saber), gerou muita polêmica quando de sua publicação: eram os ecos modernistas ressoando no jovem Drummond; sua poesia, logo de cara, estava inclinada para temas e estilos literários que iam de encontro à vanguarda modernista do início da década de 20 e isso inevitavelmente causou certo burburinho na época.

Foi somente em 1930, no entanto, que Drummond publicou seu primeiro livro: Alguma Poesia. Foi também nessa época que surgiu o burocrata Drummond: o escritor passou a exercer um trabalho na Secretaria da Educação de Minas Gerais.

Paralelamente à carreira de burocrata e escritor, Drummond também exerceu a atividade de jornalista, escrevendo em jornais como Tribuna, Diário da Tarde e Estado de Minas.

Em 1934 o escritor lançou seu segundo livro: Brejo das Almas. Foi também nesse ano que uma nova mudança marcaria de vez a vida de Drummond: à convite de Gustavo Capanema, seu amigo e então ministro da Educação e Saúde Pública, Drummond transfere-se para o Rio de Janeiro, cidade na qual viveria até o fim de sua vida.

A vida no Rio de Janeiro consolidou de vez as atividades que Drummond já exercia em Minas: o burocrata, funcionário público permaneceu, mostrando uma faceta disciplinada e desmistificadora de Drummond; o “homem-de-jornal”, por sua vez, também permaneceu e aos poucos foi ganhando cada vez mais espaço, foram inúmeras as publicações de Drummond em jornais e periódicos cariocas.4

No entanto, foi o escritor (principalmente o poeta) Carlos Drummond de Andrade, que nessa ida ao Rio de Janeiro, se mostrou de vez ao público: permaneceram sim as fortes influências modernistas, porém após a publicação de seu terceiro livro, Sentimento do Mundo (1940), de fato encontramos um Drummond maduro, com estilo próprio. O Drummond das confluências e de facetas aparentemente contraditórias (o que justifica as mudanças de seu pensamento durante o tempo: Rosa do Povo (1945) e Claro Enigma (1951) configuram um par de obras que poderiam ser atribuídas a autores distintos).

No próximo texto do Sempre um Livro, abordaremos especificamente a obra que inaugura as publicações de Drummond na década de 40, Sentimento do Mundo. Suas outras obras não serão abordadas aqui, visto que o intento principal deste texto é o de apenas expor, com certa brevidade, “as pedras e o caminho” de Drummond, ou seja, mostrar um pouco de sua trajetória biográfica e citar suas obras.

É o que passarei a fazer a partir de agora, apenas citar as publicações de Drummond, pós-Sentimento do Mundo, a título de informação:

Em 1942 foi publicado Poesias. Rosa do Povo e O Gerente foram publicados em 1945. Poesia Até Agora, em 1948.

Na década de 50, além das publicações de livros de poemas, Drummond passou a publicar também suas crônicas, o número de publicações aumentou consideravelmente. Em 1951 foram publicados Claro Enigma, Contos de Aprendiz e Mesa. Viola de Bolso foi publicado em 1952. Em 1954 foram publicados Fazendeiro do Ar e Poesia Até Agora (o título é o mesmo da publicação de 1948, porém são obras distintas). Viola de Bolso Novamente Encordoada foi publicado em 1955. No ano de 1956 foi publicado 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor e em 1957 Ciclo e Fala, Amendoeira. A última publicação da década de 50 foi Poemas, em 1959.

A década de 60 marcou a aposentadoria de Drummond como funcionário público, que veio em 1962, após 35 anos de serviço, o nascimento de seu primeiro neto, Pedro Augusto, em 1960 e novas e várias publicações.

Em 1962 foram publicados Antologia Poética, Lição de Coisas e Bolsa Vida. Obra Completa foi publicada em 1964 e em 1966, Cadeira de Balanço. No ano de 1967 foram publicados: Versiprosa, José Outros, Uma Pedra no Meio do Caminho: Biografia de um Poema e Minas Gerais (Brasil, Terra Alma). As últimas publicações da década de 60 vieram em 1968: Boitempo e Falta Que Ama.

Em 1970 foi publicado Caminhos de João Brandão e no ano seguinte Seleta em Prosa Verso. Poder Ultrajovem foi publicado em 1972. Em 1973 foram publicados Impureza do Branco e Menino Antigo. Amor, amores foi publicado em 1975 e em 1977 Visita, Discurso de Primavera e Os Dias Lindos. Em 1978 são publicados Marginal Clorindo Gato e 70 Historinhas. Em 1979 são publicadas suas últimas obras da década: uma versão revista e atualizada de Poesia Prosa e Esquecer Para Lembrar.

No de 1980 foi publicado Paixão Medida e no ano seguinte Contos Plausíveis (em edição fora do comércio) e Pipoqueiro da Esquina. Este último foi publicado em conjunto com o cartunista Ziraldo. Em 1982, ano em que completou 80 anos, Drummond recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e publicou Lição do Amigo. No ano seguinte foram publicados Nova Reunião e o infantil Elefante. Em 1984 publicou Boca de Luar Corpo e encerrou sua carreira como cronista regular, após 64 anos dedicados ao jornalismo.

Em 1985 além do lançamento comercial de Contos Plausíveis, tivemos mais quatro novas publicações: Amar se Aprende Amando, Observador no Escritório, História de Dois Amores (infantil) e Amor, Sinal Estranho (edição de arte). No ano seguinte foi publicado Tempo, Vida, Poesia.

Chegou então o ano de 1987. Que começou com uma homenagem carnavalesca à Drummond: o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira naquele ano, intitulado “O Reino das Palavras” foi em homenagem ao escritor itabirano.

Nesse mesmo ano, porém, morreu, a 5 de agosto, a filha de Drummond, Maria Julieta. Como havíamos aludido acima, quando falávamos do nascimento da mesma Maria Julieta, a relação pai e filha foi muito forte durante toda a vida de ambos, ocorreu que, doze dias após a morte de sua filha, Drummond, muito abalado, também faleceu.

A vasta bibliografia de Drummond citada aqui é só mais uma das várias faces do itabirano, além da “pedra no meio do caminho”, Drummond é também dono de outro verso que tomou conta da cabeça de muitos brasileiros e popularizou-se sobremaneira: “e agora, José?”.

Apesar de ainda não ter lido a obra Claro Enigma, julgamos válido utilizar a expressão que dá título a essa obra para tentar sintetizar e fechar esse breve texto de apresentação de Carlos Drummond de Andrade: tanto o poeta, quanto o cronista, quanto o funcionário público, ainda que envoltos em uma aura um tanto quanto mitificadora, parecem ser cada vez mais, apenas um homem atento à sua realidade social e aberto surdamente às penetrações e confluências do reino das palavras. Um gauche que transgrediu sua sina.

DAS TRADUÇÕES

Além de todas as obras publicadas por Drummond citadas no texto, o escritor também teve várias de suas obras traduzidas e traduziu várias outras, segue a lista cronológica das publicações dessas traduções:

1943: Publicada com o título Uma Gota de Veneno, a tradução de Drummond da obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac.

1947: Publicada a tradução de Drummond de Les Liaisons Dangeureuses, de Laclos.

1951: O volume Poemas foi publicado em Madri.

1953: O volume Poemas foi publicado em Buenos Aires.

1956: Publicada a tradução de Drummond de Albertine Disparue, ou La Fugitive, de Marcel Proust.

1958: Uma pequena seleção de seus poemas foi publicada na Argentina.

1959: Foram encenadas peças com a tradução de Drummond de Doña Rosita la Soltera, de García Lorca.

1960: Publicada a tradução de Drummond de Oiseaux-Mouches Ornithorynques du Brésil, de Descourtilz.

1962: Publicadas as traduções de Drummond de L’oiseau Bleu, de Maeterlinck e Les Fourberies de Scapin, de Molière.

1963: Publicada a tradução de Drummond de Sult, de Knut Hamsun.

1965: Publicação de Antologia Poética (Portugal); In The Middle of The Road (Estados Unidos) e Poesie (Alemanha).

1966: Publicação de Natten Och Rosen (Suécia).

1967: Publicação de Mundo, Vasto Mundo (Buenos Aires) e Fyzika Strachu (Praga).

1971: Publicação dos Poemas, em Cuba.

1973: Publicação de La Bolsa y La Vida (Buenos Aires) e Réunion (Paris).

1977: Publicada na Bulgária uma antologia intitulada Sentimento do Mundo.

1978: Amar-Amargo e El Poder Ultrajovem foram publicados na Argentina.

1980: Publicação de En Rost at Folket (Suécia), The Minus Sign (Estados Unidos), Poemas (Holanda) e Fleur, Téléphone et Jeune Fille… (França).

1981: Publicação de The Minus Sign na Inglaterra.

1982: Publicação de Poemas no México.

1985: Publicação de Fran Oxen Tid (Suécia).

1986: Publicação de Travelling In The Family (Inglaterra).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade/seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Rita de Cássia Barbosa. – São Paulo: Abril Educação, 1980. (Literatura Comentada).

__________. Sentimento do Mundo. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

O FAZENDEIRO DO AR: https://www.youtube.com/watch?v=UP66vBqmiNE

1O ano de 1917. Nesse período teve aulas particulares com o professor Emílio Magalhães.

2Transcrição do áudio do documentário Fazendeiro do Ar  (1972), de Fernando Sabino e David Neves.

3ANDRADE, 1980, p. 7

4Até por não ser nossa pretensão aqui reconstituir minuciosamente essa faceta jornalística de Drummond, apenas deixamos indicados os nomes de alguns dos jornais cariocas em que seus textos foram publicados: Correio da Manhã, Folha Carioca, Manhã, Leitura, Tribuna Popular, Política Letras, dentre outros.

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Encontro de novembro de 2012

O principal aspecto que me levou à indicação d’O Alienista, de Machado de Assis (como falei no texto A indicação de O Alienista), foi o que gerou, de fato, as mais acaloradas discussões no encontro do último sábado. Tanto a “produção da loucura” quanto o “jogo de poder dos saberes” foram temas debatidos, acrescidos da percepção de uma crítica, na obra, a certa estrutura social. Temas pesados e polêmicos que nos levaram a boas reflexões, quase avançando o horário estipulado para fim da reunião. Foi enriquecedor, sem dúvida.

 

CARTAS

O novo método de circulação de cartas entre os membros do grupo já começou a funcionar, com a entrega das cartas do Ailton (relativas ao O fazedor) e de cartas do Rogério (sobre Sagarana).

 

VOTAÇÃO DE OBRA PARA DEZEMBRO/2012

Foi eleita a obra Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade), que concorreu com A queda de um anjo (Camilo Castelo Branco), Aprender a viver (Luc Ferry), e Gitanjali (R. Tagore).

 

OBRA “DO ANO”

Há a ideia de eleger, a cada ano, neste período, uma obra mais extensa para ser lida no período de final e início de ano e debatida nos primeiros meses do ano seguinte. Em 2012, contudo, devido à greve das Universidades federais, a maioria dos membros do Sempre um Livro permanecerá na correria cotidiana nestes meses, com a reposição de aulas. Assim, nossos encontros seguirão normalmente e, paralelo a eles, faremos a leitura do livro Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, eleita para ser discutida em maio e junho de 2013.

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Outros olhares sobre O Alienista

Com base no texto disponibilizado ao final do livro de Moacyr Scliar, “O mistério da Casa Verde”, apresento alguns dos “outros olhares sobre O Alienista”, para aqueles que se interessarem e quiserem buscar mais informações:

1) Azyllo muito louco (1969), do cineasta Nelson Pereira dos Santos: um filme alegórico que apresenta ao público o autoritarismo policialesco que vigorava no país. Uma adaptação do conto de Machado de Assis à mensagem para a época, ou seja, não segue à risca o texto machadiano.

2) Uma luxuosa edição da Sociedade dos 100 Bibliófilos, de 1948, com o conto “O Alienista” primorosamente ilustrado por Cândido Portinari.

3) A adaptação da extinta TV Tupi, com a novela Vila do Arco (1973).

4) A minissérie da Rede Globo, O Alienista (1993), de Guel Arraes, com Marco Nanini no papel do Dr. Simão Bacamarte.

5) A adaptação para o teatro feita pelo Grupo Ria, em São Paulo, sob a direção de José Paulo Rosa, em 1999.

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A indicação de “O Alienista”

POR QUE A INDICAÇÃO DE “O ALIENISTA” (MACHADO DE ASSIS)?

 Ivan Bilheiro

 Entre tantos aspectos possíveis, qual escolher para falar da obra O Alienista, de Machado de Assis[1]? É a pergunta que me tenho feito há algum tempo, em busca de uma temática interessante para o texto sobre a obra do mês do Grupo de Leituras Sempre um Livro. Escolhi, por fim, falar um pouco sobre o motivo de ter feito esta indicação de leitura. Assim, encontro a oportunidade de aventar alguns elementos da obra, mas deixando que seu aprofundamento seja feito no debate do próximo encontro – e, ainda, despertando a curiosidade do leitor deste blog.

Meu primeiro contato e primeira leitura deste texto machadiano se deu na 6ª série do Ensino Fundamental (atual 7º ano – segundo ciclo), nas aulas de Português (ou Literatura, não lembro bem), com a professora Fátima. Colocados os alunos nas mesas da biblioteca do colégio, foram distribuidas algumas obras para serem lidas conjuntamente. Meu grupo ficou, então, justamente com O Alienista. A leitura me atraiu, e fui o único daquele grupo a chegar ao umbilicus, isto é, ler até o fim. Os colegas, mais preocupados em aproveitar a “aula diferente” para conversar, perderam esta oportunidade.

Já o segundo contato foi no 1º (ou 2º?) ano do Ensino Médio, em outro colégio, sob a batuta da professora Andréia[2]. Na verdade, aquele foi um “contato indireto”: o vestibular seriado da Universidade da minha cidade estipulou, como leitura obrigatória para aquele ano, o texto do Moacyr Scliar, O mistério da casa verde[3], uma espécie de releitura/adaptação do texto machadiano, com uma outra história, que pretende servir para despertar o interesse dos jovens leitores pelo conto original. A revolta da professora de Literatura se manifestava constantemente (e tive a oportunidade de conversar com ela, há poucos dias, sobre isso): nada contra o texto de Scliar – ao contrário, até havia a indicação de outra obra deste escritor, A majestade do Xingu[4] –, mas ela não se acertava com o julgamento da banca com relação à (in)capacidade dos alunos – afinal, por que não fazer com que leiam o texto mesmo de Machado, em vez de uma “adaptação para jovens”?! Uma “simplificação barata” da capacidade dos estudantes!

Estas duas situações aproximam-se justamente para, em conformidade com o pensamento de minha professora Andréia, mostrar que o texto de Machado de Assis é passível da leitura dos jovens e, como ela bem disse, a gargalhada é certa. Há em O Alienista profundas críticas sociais, em especial à prepotência da ciência, que naturalmente não percebi em minha primeira leitura, ainda com cerca de 13 anos de idade; mas nada me impediu de apreciar o texto e de compreendê-lo enquanto uma narrativa ficcional, e um conto magnificamente envolvente, mesmo pelo humor ali contido.

Ademais, a adaptação feita por Scliar é, a meu ver, pobre, mal concebida e mal elaborada. Ao invés de colcoar os estudantes para ler um texto bem elaborado, como O Alienista, a Universidade optou por estipular a leitura de uma “adaptação” que tem como personagens adolescentes, da geração do século XXI, que chamam uma linda garota de “garota bonérrima” e “um avião”. Faltou pesquisa para compor estes personagens, não?!

Agora, um “leitor maduro” (a expressão não é boa, mas não encontro outra melhor), consigo capturar e me divertir com outros diversos aspectos d‘O Alienista, o que reafirma a vivacidade e a riqueza da obra machadiana. Entre os elementos que me despertam interesse na obra, e que deverão ser tema de debate no encontro do Sempre um Livro, está a riqueza e precisão vocabular de Machado. É claro, existem figurões que se opõem, mas o texto machadiano é admirável (cito o exemplo do professor Hemetério dos Santos, para quem a leitura de duas ou três páginas de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas seria suficiente para dar conta de toda a obra machadiana, por sua pobreza vocabular[5]).

É curiosa, também, a forma com que Machado de Assis retrata a questão da produção da loucura e o jogo de poder dos saberes (ciência). Segundo o professor Roberto Gomes, da Universidade Federal do Paraná[6], deve-se enxergar aí um tratamento inédito do tema, posto que esta discussão só se daria, com profundidade, por volta da década de 1960. Este é o principal aspecto que me levou à indicação deste texto.

Por fim, e sei que este é um dos pontos mais interessantes da obra do mês, deve-se fazer coro à pergunta feita pelo personagem vereador Sebastião Freitas: “[…] quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (ASSIS, 1972, p. 218). Ao fim e ao cabo, Simão Bacamarte, protagonista da história, estava mesmo louco – e foi o único louco de Itaguaí, como corria em boatos, segundo nos conta Machado ao final da trama?! Ou o médico era um “cavaleiro andante da ciência” (GOMES, 1993) e, ao estilo Plus ultra!, rendia-se aos mandos das suas pesquisas, como um bom e, sobretudo, sensato profissional?!

Por tudo isso, e ainda diversos outros elementos, sei que a escolha foi boa e que o debate sobre O Alienista, que me foi obstaculizado tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, será imensamente proveitoso aos integrantes do Sempre um Livro. Encontro marcado, portanto, no próximo sábado, no Salão Nobre da Casa Verde – nenhum lugar melhor, já que somos todos, como dizem que disse Voltaire, uns loucos….

_________

[1] ASSIS, Machado de. O alienista. In: ______. Helena / O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). p. 189-247.

[2] Trata-se da Profª Drª Maria Andréia de Paula Silva (http://lattes.cnpq.br/7552317392777753).

[3] SCLIAR, Moacyr. O mistério da Casa Verde. São Paulo: Átiva, 2004. (Descobrindo os clássicos).

[4] SCLIAR, Moacyr. A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[5] A informação está no texto “Artilharia do idioma: polêmicas movimentaram a vida literária do Brasil em fins do século 19 e começo do 20 por causa de maus-tratos ao português e à literatura”, escrito por Gabriel Kwaik e Luiz Costa Pereira Junior para a Revista Língua Portuguesa, ano 2, n. 20, de junho de 2007. Trata-se de uma referência a uma das situações abordadas pela pesquisadora Anna Lee no livro “O sorriso da sociedade” (Ed. Objetiva, 2006).

[6] No artigo “O alienista: loucura, poder e ciência”, da Revista Tempo Social (Revista de Sociologia da USP), n. 5, 1993, p. 145-160. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v0512/Alienista.pdf>. Acesso em 3 nov. 2012.

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