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Breve romance de sonho – Arthur Schnitzler (Entrevista)

A anfitriã do mês, Isabella Brandão, encontrou na internet uma breve entrevista sobre o livro do mês do Sempre um Livro, Breve romance de sonho, do escritor Arthur Schnitzler.
Vale a pena conferir, para dar início às reflexões sobre a leitura.
Disponível em:

http://cbn.globoradio.globo.com/colunas/clube-do-livro-cbn/2013/04/30/LIVRO-DO-MES-BREVE-ROMANCE-DE-SONHO-DO-ARTHUR-SCHNITZLER.htm

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Encontro de 16 de fevereiro de 2013

Com o enriquecimento das diversas referências a outros escritos wildianos, como o teatro, a poesia, as epístolas e outros, os membros do Sempre um Livro tiveram a oportunidade de curtir uma boa discussão sobre O retrato de Dorian Gray no último sábado. Não foram deixadas de lado, outrossim, as adaptações cinematográficas deste romance e da vida de Wilde.

Impossível deixar de notar que a vida do escritor é quase tão envolvente quanto sua literatura, e foi tema de diversos comentários ao longo do encontro. Além disso, falou-se do tema da Estética em Oscar Wilde, tão bem expressa na obra lida ao longo do último mês; da qualidade literária da mesma; e das possíveis relações entre esta e outras obras.

Mais um aspecto a destacar: o debate sobre o problema da tradução teve lugar mais uma vez. Uma prova de que os membros do Sempre um Livro têm construído um diálogo criativo e constante, ao longo de seu tempo de atividade. No primeiro encontro de 2012, sobre o livro Fausto, de Goethe, um intenso debate sobre este mesmo problema foi colocado, e a questão certamente continua ecoando.

VOTAÇÃO

Bullying

Em concorrência com A negação da morte (Ernest Becker) e Elogio da loucura (Erasmo de Roterdã), foi eleito o texto de Sônia Maria de Souza Pereiraintitulado Bullying e suas implicações no ambiente escolar.

Mais uma vez, portanto, os integrantes deste Grupo de Leituras terão a oportunidade de refletir temas concernentes à temática da Educação.

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O retrato de Dorian Gray

Sobre o livro do mês deste nosso grupo, escrevi um pequeno texto, em que faço referência a algumas curiosidades bem como aponto algumas das influências do escritor, Oscar Wilde, que foram fundamentais para a elaboração deste importantíssimo romance.

O livro tem muito de mim mesmo. Basil Hallward é o que eu penso ser; Lorde Henry, o que o mundo pensa que sou; Dorian, o que eu gostaria de ser”

Oscar Wilde, sobre “O retrato de Dorian Gray” em carta de 12 de fevereiro de 1894 a Ralph Payne (SCHIFFER, 2010, p. 156).

A propósito dO retrato de Dorian Gray

(clique no título para acessar o texto, em PDF)

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A natural condição de animal do homem

 

Muita gente não gosta de pensar que somos animais. E podem dizer que eu avilto a nossa espécie quando a descrevo em rudes termos animais. Posso apenas afirmar que não é essa a minha intenção. Outros ofender-se-ão pelo fato de um zoólogo se intrometer nos seus campos especializados. Mas eu admito que essa perspectiva poderá ter grande valor e que, apesar de todos os defeitos, introduzirá novos (e de certa maneira inesperados) esclarecimentos sobre a natureza complexa da nossa extraordinária espécie.

 

Desmond Morris (1996, p. 10)

 

O livro do mês do Sempre um Livro rendeu um longo texto, haja vista os interessantíssimos aspectos sobre o homem ali analisados. Desta forma, achei conveniente disponibilizá-lo em forma de arquivo PDF:

Texto-análise: O macaco nu – Desmond Morris

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A indicação de “O Alienista”

POR QUE A INDICAÇÃO DE “O ALIENISTA” (MACHADO DE ASSIS)?

 Ivan Bilheiro

 Entre tantos aspectos possíveis, qual escolher para falar da obra O Alienista, de Machado de Assis[1]? É a pergunta que me tenho feito há algum tempo, em busca de uma temática interessante para o texto sobre a obra do mês do Grupo de Leituras Sempre um Livro. Escolhi, por fim, falar um pouco sobre o motivo de ter feito esta indicação de leitura. Assim, encontro a oportunidade de aventar alguns elementos da obra, mas deixando que seu aprofundamento seja feito no debate do próximo encontro – e, ainda, despertando a curiosidade do leitor deste blog.

Meu primeiro contato e primeira leitura deste texto machadiano se deu na 6ª série do Ensino Fundamental (atual 7º ano – segundo ciclo), nas aulas de Português (ou Literatura, não lembro bem), com a professora Fátima. Colocados os alunos nas mesas da biblioteca do colégio, foram distribuidas algumas obras para serem lidas conjuntamente. Meu grupo ficou, então, justamente com O Alienista. A leitura me atraiu, e fui o único daquele grupo a chegar ao umbilicus, isto é, ler até o fim. Os colegas, mais preocupados em aproveitar a “aula diferente” para conversar, perderam esta oportunidade.

Já o segundo contato foi no 1º (ou 2º?) ano do Ensino Médio, em outro colégio, sob a batuta da professora Andréia[2]. Na verdade, aquele foi um “contato indireto”: o vestibular seriado da Universidade da minha cidade estipulou, como leitura obrigatória para aquele ano, o texto do Moacyr Scliar, O mistério da casa verde[3], uma espécie de releitura/adaptação do texto machadiano, com uma outra história, que pretende servir para despertar o interesse dos jovens leitores pelo conto original. A revolta da professora de Literatura se manifestava constantemente (e tive a oportunidade de conversar com ela, há poucos dias, sobre isso): nada contra o texto de Scliar – ao contrário, até havia a indicação de outra obra deste escritor, A majestade do Xingu[4] –, mas ela não se acertava com o julgamento da banca com relação à (in)capacidade dos alunos – afinal, por que não fazer com que leiam o texto mesmo de Machado, em vez de uma “adaptação para jovens”?! Uma “simplificação barata” da capacidade dos estudantes!

Estas duas situações aproximam-se justamente para, em conformidade com o pensamento de minha professora Andréia, mostrar que o texto de Machado de Assis é passível da leitura dos jovens e, como ela bem disse, a gargalhada é certa. Há em O Alienista profundas críticas sociais, em especial à prepotência da ciência, que naturalmente não percebi em minha primeira leitura, ainda com cerca de 13 anos de idade; mas nada me impediu de apreciar o texto e de compreendê-lo enquanto uma narrativa ficcional, e um conto magnificamente envolvente, mesmo pelo humor ali contido.

Ademais, a adaptação feita por Scliar é, a meu ver, pobre, mal concebida e mal elaborada. Ao invés de colcoar os estudantes para ler um texto bem elaborado, como O Alienista, a Universidade optou por estipular a leitura de uma “adaptação” que tem como personagens adolescentes, da geração do século XXI, que chamam uma linda garota de “garota bonérrima” e “um avião”. Faltou pesquisa para compor estes personagens, não?!

Agora, um “leitor maduro” (a expressão não é boa, mas não encontro outra melhor), consigo capturar e me divertir com outros diversos aspectos d‘O Alienista, o que reafirma a vivacidade e a riqueza da obra machadiana. Entre os elementos que me despertam interesse na obra, e que deverão ser tema de debate no encontro do Sempre um Livro, está a riqueza e precisão vocabular de Machado. É claro, existem figurões que se opõem, mas o texto machadiano é admirável (cito o exemplo do professor Hemetério dos Santos, para quem a leitura de duas ou três páginas de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas seria suficiente para dar conta de toda a obra machadiana, por sua pobreza vocabular[5]).

É curiosa, também, a forma com que Machado de Assis retrata a questão da produção da loucura e o jogo de poder dos saberes (ciência). Segundo o professor Roberto Gomes, da Universidade Federal do Paraná[6], deve-se enxergar aí um tratamento inédito do tema, posto que esta discussão só se daria, com profundidade, por volta da década de 1960. Este é o principal aspecto que me levou à indicação deste texto.

Por fim, e sei que este é um dos pontos mais interessantes da obra do mês, deve-se fazer coro à pergunta feita pelo personagem vereador Sebastião Freitas: “[…] quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (ASSIS, 1972, p. 218). Ao fim e ao cabo, Simão Bacamarte, protagonista da história, estava mesmo louco – e foi o único louco de Itaguaí, como corria em boatos, segundo nos conta Machado ao final da trama?! Ou o médico era um “cavaleiro andante da ciência” (GOMES, 1993) e, ao estilo Plus ultra!, rendia-se aos mandos das suas pesquisas, como um bom e, sobretudo, sensato profissional?!

Por tudo isso, e ainda diversos outros elementos, sei que a escolha foi boa e que o debate sobre O Alienista, que me foi obstaculizado tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, será imensamente proveitoso aos integrantes do Sempre um Livro. Encontro marcado, portanto, no próximo sábado, no Salão Nobre da Casa Verde – nenhum lugar melhor, já que somos todos, como dizem que disse Voltaire, uns loucos….

_________

[1] ASSIS, Machado de. O alienista. In: ______. Helena / O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). p. 189-247.

[2] Trata-se da Profª Drª Maria Andréia de Paula Silva (http://lattes.cnpq.br/7552317392777753).

[3] SCLIAR, Moacyr. O mistério da Casa Verde. São Paulo: Átiva, 2004. (Descobrindo os clássicos).

[4] SCLIAR, Moacyr. A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[5] A informação está no texto “Artilharia do idioma: polêmicas movimentaram a vida literária do Brasil em fins do século 19 e começo do 20 por causa de maus-tratos ao português e à literatura”, escrito por Gabriel Kwaik e Luiz Costa Pereira Junior para a Revista Língua Portuguesa, ano 2, n. 20, de junho de 2007. Trata-se de uma referência a uma das situações abordadas pela pesquisadora Anna Lee no livro “O sorriso da sociedade” (Ed. Objetiva, 2006).

[6] No artigo “O alienista: loucura, poder e ciência”, da Revista Tempo Social (Revista de Sociologia da USP), n. 5, 1993, p. 145-160. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v0512/Alienista.pdf>. Acesso em 3 nov. 2012.

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O Alienista – Machado de Assis (Áudio livro)

O texto ao qual se dedicam os membros do Sempre um Livro neste mês de outubro/2012 é O Alienista, de Machado de Assis. Em pesquisas pela Internet, encontrei este interessante projeto, o “LibriVox”, no qual está disponibilizada a citada obra, em áudio livro. Para os que se interessarem:

http://librivox.org/o-alienista-by-machado-de-assis/

Seguir para “mp3 and ogg files” e, então, selecionar o capítulo que deseja ouvir.

Boa leitura! Ou melhor: boa audição!!!

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por | 22 de outubro de 2012 · 22:16

Encontro de outubro/2012

Se a obra O fazedor (El hacedor), primeira do tipo híbrido (poemas e contos) produzida pelo argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986), pode ser considerada “porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor”, deve-se dizer, conforme os diálogos do último sábado, 13 de outubro de 2012, que logo no hall de entrada deste universo encontram-se envolventes exemplares da coleção do escritor: o infinito, os labirintos, os espelhos, as fantasias…

Ao que parece, a leitura serviu para lançar os membros do Sempre um Livro em diversas reflexões, entre elas a da beleza literária de sínteses bem produzidas. A certeza que fica é que todos ainda lerão muitos textos de Borges!

VOTAÇÃO

Por unanimidade, foi eleita a obra O alienista, de Machado de Assis.

Figuraram na eleição os seguintes livros, além do eleito: O poeta fingidor, de Fernando PessoaNoites brancas, de Fiódor Dostoiévski; e A rua dos cataventos, de Mario Quintana.

CARTAS

Os membros do Sempre um Livro têm o singelo costume de estabelecer uma circulação de cartas (como na tradição, manuscritas) acerca das obras discutidas. Assim, encontram a oportunidade de abordar, com mais vagar, questões que escaparam aos diálogos nos encontros presenciais.

Entretanto, demoras nas entregas das cartas fizeram com que o método fosse repensado. Agora, em substituição ao prazeroso recebimento de cartas via Correios, estabeleceu-se o seguinte método, que tem a vantagem de garantir maior proximidade do recebimento dos manuscritos com o encontro relativo à obra sobre a qual tratam:

1) O membro “anfitrião” (aquele que foi o responsável pela indicação da obra eleita), no encontro seguinte ao da discussão de sua obra, entrega em mãos a todos os membros uma cópia de uma carta, endereçada à generalidade do grupo;

2) No encontro subsequente, todos os membros devem entregar ao primeiro remetente (com cópias aos demais membros) uma resposta-comentário.

Desta forma, em dois encontros após aquele relativo à obra, todos terão os comentários escritos de seus colegas em mãos, evitando extravios como os já ocorridos.

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“O fazedor”: tentativas de achar a chave da porta de entrada ao universo literário de Jorge Luis Borges

O livro “El hacedor” (1960) (“O fazedor”, na tradução brasileira) traz em si vários elementos que o qualificam como excelente porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor, Jorge Luis Borges. Aparentemente, trata-se de um livro banal, uma miscelânea de contos curtos e de poemas metrificados. Entretanto, nada mais enganoso que deixar-se levar pelas aparências e pela indicação da contracapa.

Em primeiro lugar, porque este livro tem o mérito de romper com o hiato lírico na obra de Borges, autor que nos anos 40 e 50 brindou aos leitores apenas livros de ensaios e contos, embora entre estes encontrem-se maravilhas do quilate de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Ainda com respeito aos poemas, é bom notar que eles são compostos por versos metrificados, os quais são adotados tanto pelo esgotamento da estética ultraísta(*) quanto pela suposta facilidade de seu manejo por um homem que a essa altura já estava de todo cego.

Mas, contrariando a imagem que tradicionalmente fazemos de poesia, Borges usa seus versos para levantar questões filosóficas e apresentar ao leitor sua particular concepção de mundo. Atentemos a estes versos de “Ajedrez”:

También el jugador es prisionero 
(la sentencia es de Omar) de otro tablero 
de negras noches y de blancos días. 

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. 
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza 
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Voltando ao engano das aparências, destacamos, em segundo lugar, que os textos em prosa reunidos em “O fazedor” representam uma viragem na concepção estética do artista. Borges passa a tensionar os limites da narrativa, emparentando-a com a reflexão filosófica, e a investir na concisão quase extrema, reduzindo os relatos a uma página ou pouco mais que isso. E antes que eu me esqueça, é também a primeira vez que Borges publica um livro híbrido. Outro ponto a notar é o questionamento em torno da figura do autor que comparece em alguns desses textos e, por suposto, da autoridade que esse personagem teria. “Borges y yo” é o melhor exemplar do que estamos falando:

      Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
         No sé cuál de los dos escribe esta página.

O conjunto de materiais reunidos em “O fazedor” apresenta, pois, um convite de seu autor à reflexão sobre o ofício de escrever e sobre a validade dos gêneros como instituição literária. Essas reflexões até podem nos ajudar a penetrar melhor no universo borgeano, como disse no início do texto, mas representam uma porta de entrada que não está escancarada… ela ainda exige que tateemos à procura da chave e da fechadura.

Nota:

(*) Ultraísmo: Foi a primeira vanguarda literária espanhola em língua castelhana, gestada entre 1918 e 1925. Chega à Argentina pelas mãos de Jorge Luis Borges, que voltava de uma temporada com a família na Europa. Entendido pelos seus idealizadores como um movimento literário (e não uma escola estética), o ultraísmo compilou fragmentos do cubismo literário, do futurismo, do expressionismo e do dadaísmo e tinha como objetivo criar uma renovação/ruptura no panorama da literatura espanhola.

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Encontro no Labirinto da Sobremodernidade – 01/09/12

A fim de discutir a obra de Georges Balandier, O dédalo: para finalizar o século XX“, reuniu-se nesta tarde, enfrentados os contratempos, o grupo de leituras Sempre um Livro.

No texto do francês Balandier, havia matéria-prima para discutir e refletir as mais diversas facetas da realidade da chamada “sobremodernidade” e, portanto, a discussão seguiu um ritmo intenso, passando por diversos temas, e acaloradas argumentações.

Dos enfrentamentos da hiperespecialização na modernidade (com referências ao também francês Edgar Morin), a análises das possibilidades de leitura da metáfora do Dédalo, do Labirinto e etc na obra, uma tarde de reflexão sobre a contemporaneidade foi o que o livro do mês proporcionou.

Política, meio acadêmico, educação, religiosidade… Do complexo texto de Georges Balandier, algumas ideias puderam ser debatidas e, assim, os membros do Grupo puderam munir-se da análise daquele antropólogo a fim de melhor enfrentar esta sobremodernidade.

Votação

ImagemSituação peculiar ocorreu na votação da obra. Tivemos um empate, sendo que quatro membros estavam presentes no encontro. Assim, no momento em que procedíamos a tentativas de solucionar o impasse por meio de uma propaganda intensa das obras empatadas pelas respectivas partes, o membro Rogério ligou e, assim, acabou por ser o responsável pelo voto de Minerva, elegendo a obra de Jorge Luis Borges, “O fazedor“, indicada pelo Ailton. Concorreram, ainda, as seguintes obras: “Ética“, de Frei Betto, Eugenio Barba e Jurandir F. Costa; “A hora dos ruminantes“, de José J. Veiga; e aquela responsável pelo empate, “Como falar dos livros que não lemos?“, de Pierre Bayard.

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O dédalo: para finalizar o século XX

O DÉDALO: PARA FINALIZAR O SÉCULO XX
E PARA ENCARAR O SÉCULO XXI

Ivan Bilheiro

Obra do mês do Sempre um Livro, o texto de Georges Balandier (1999), cujo subtítulo indica a intenção de “[…] contribuir para sair dele [o século XX] de forma menos confusa, e menos resignada ao abandono das responsabilidades” (p. 11), serve também na busca de compreensão do verdadeiro vórtice que é a vivência neste novo século XXI, mesmo já em sua segunda década. É leitura, portanto, para encarar este século como serviu para finalizar o passado. Obsolescências à parte, como o fato de tratar de “tubos catódicos” que já não são o ápice da tecnologia em uso para os televisores contemporâneos, a obra apresenta, entretanto, noções gerais sobre a sociedade da “sobremodernidade” (expressão mais usual de Balandier para o que, mais comumente, é designado por “era pós-moderna”) que são muito atuais. Falar do homo cathodicus (p. 217) para denunciar a midiatização generalizada, o aprisionamento da política pelos “dédalos” da comunicação, é recurso válido, à revelia da tecnologia ultrapassada a que a metáfora faz referência.

O dédalo: para finalizar o século XX

O dédalo: para finalizar o século XX

Como antropólogo que é, Georges Balandier apresenta um dissecamento de certos comportamentos não notados por conta da familiaridade que, por vezes, surpreendem até pela irreverência. É assim o caso do ecologismo que gera atitudes de “veneração do verde”, em que a paisagem e a natureza são produtos de vendas para lugares fora do caos da cidade, revelando mais uma faceta do poder que o mercado tem de transformar tudo em mercadoria na sobremodernidade. Também é de destacar, neste caso, a citação sobre o “tratamento do cadáver” (p. 115), que permite simular o estado de sono em vida. Falando deste ritual que permite escamotear a morte, Balandier surpreende o leitor com uma nova visão sobre o que, usualmente, não seria observado. Nesta linha, plásticas e cirurgias estéticas são afirmadas como “forma e camuflagem da idade biológica” (p. 114) e a exaltação quase doentia de figuras muito aparentes da mídia, especialmente do meio artístico, são comparadas às atitudes de sacralização. Lembra, com esta forma de surpreender pela análise, por exemplo, o peculiar olhar sobre os comportamentos humanos (com destaque especial para o sexo) apresentado pelo zóologo Desmond Morris em seu livro O macaco nu (1996).

O dédalo (1999) é uma visão e uma análise sistêmica, embora não sistematizada. Seu autor apresenta uma perspectiva lúcida e aprofundada, baseada e dialogando com grandes pensadores contemporâneos, e percorre, indiscriminadamente, as mais diversas facetas da contemporaneidade. Nesta análise ampla, as divisões excessivas e sistemáticas seriam incômodos, posto que muito artificiais. Daí o fato de o texto percorrer, por vezes, em um mesmo capítulo, assuntos que seriam focos específicos de outros, ou haver temas constantes em todos eles.

Ante ao cenário de constante movimento, de obsolescência, mudança e ruptura, Balandier ainda crê na possibilidade de o homem comum se orientar. Absolutamente realista com relação ao caos em que a sobremodernidade lança a todos, o livro O dédalo pretende que sejam estimuladas ações no sentido de encarar “a obrigação, aparentemente paradoxal, de civilizar os ‘novos’ novos mundos oriundos da obra civilizadora” (p. 243). Por “novos” novos mundos, o antropólogo francês se refere às novas formas de criar o real estabelecidas a partir das criações do homem em sua ação de “civilizar o mundo”, como, por exemplo, o império das imagens (destaque para a televisão) (p. 130 ss), a ruptura da crença arraigada por uma religiosidade difusa (p. 164), e a temível depressão da vida política ante a uma aparente impossibilidade frente ao complexo (p. 219).

Com reflexões políticas, antropológicas, históricas, sociais e mesmo religiosas, a obra de Georges Balandier apresenta uma tenaz visão esboçada às portas do século “sobremoderno” que vigora, e permite a contemplação do aprofundamento de diversos “pontos críticos” por ele apontados à época, bem como o estímulo para a reflexão e, como sugere o autor, seu combate.

Da mensagem do livro, para encerrar, deve-se refletir: o labirinto criado pelo Dédalo da mitologia grega, a fim de aprisionar o Minotauro, é obra tão grandiosa quanto as criações obtidas pela potência humana. Mas perigosas, posto que permitem a confusão em seus meandros, a apatia, a sensação de derrota. A metáfora dá a mensagem: criados os labirintos, é pela mesma capacidade que se deve encará-los.

Referências

BALANDIER, Georges. O dédalo: para finalizar o século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

MORRIS, Desmond. O macaco nu: um estudo do animal humano. 13. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

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