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Jorge Luis Borges: tentativas de acercamento ao “mito”

Começo a traçar estas linhas sobre Borges aproveitando a feliz constatação do companheiro Rogério Arantes, expressa em outro texto deste mesmo blog: “No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.”

Essa frase resume perfeitamente o “peso” que o nome de Borges adquiriu com o passar dos anos, a aura de mito que o envolve e a consequente dificuldade que isto coloca no momento de escrever sobre ele, ainda que seja apenas uma apresentação simples, como esta pretende ser.

Antes de seguir, apenas uma observação sobre algo que notei lendo a obra do mês – O fazedor – e que acredito ajudaria a diminuir o culto. Neste livro, Borges tenta em mais de uma ocasião desfazer a aura em redor de sua figura, comparando-se com Groussac e Lugones, confundindo-se no labirinto de nomes e figuras que é a história literária. E em “Borges y yo”, um falso convite à intimidade, ele escreve: “Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición.” O foco na tradição em lugar da linguagem, creio eu, é que alimenta o mito. Mas não estou em posição de discorrer profundamente sobre o tema.

Passemos, pois, à apresentação de Jorge Luis Borges. Nascido em 1899 na cidade de Buenos Aires, ele é um dos orgulhos nacionais da Argentina e eterno injustiçado da Academia Sueca, concedente anual do Prêmio Nobel de Literatura. Iniciou sua carreira literária nos anos vinte, editando revistas de vanguarda como “Prismas” e “Proa” e publicando livros de poemas como Fervor de Buenos Aires e Luna de enfrente.

Nos anos 30, aproximou-se das irmãs Victoria e Silvina Ocampo, que lhe apresentaram Adolfo Bioy Casares, com quem Borges escreveu alguns volumes dedicados à literatura fantástica e policial, além de traduções.

A década de 40 assistiu à publicação de dois volumes de contos tidos hoje como antológicos – Ficções (1944) e  O Aleph (1949) e também à progressão da cegueira do autor, que em 1955 perde quase por completo a visão e passou a depender do auxílio da mãe e de amigos para ler e escrever.

O ano de 1955 se destaca também pela distinção conferida ao escritor após a queda do governo de Perón: Borges é eleito membro da Academia Argentina de Letras e nomeado diretor da Biblioteca Nacional. A assunção do cargo combinada com a perda da visão deu origem aos excelentes versos do “Poema de los dones” (cito apenas as primeiras estrofes):

Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

Em 1961 Borges divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado pelo Congresso Internacional de Editores, distinção que o coloca em evidência no contexto literário mundial.

O cargo de diretor da BN Argentina foi ocupado por Borges até 1974, quando os peronistas retornaram ao poder e o exoneraram. Dois anos depois, quando foi instaurada a ditadura no país porteño, o autor chegou a comemorar o fato, sendo desde então associado à “direita” e criticado por seu posicionamento político. No mesmo organiza um volume de suas Obras Completas, editado por Emecé Editores.

Em 1979, recebe o Prêmio Cervantes, maior distinção literária aos autores de língua espanhola e no ano seguinte assina junto com outras personalidades argentinas um documento lançado pelo jornal Clarín – a  “Solicitada sobre los desaparecidos”.

Seu último livro – Los conjurados – foi publicado em 1985. Borges faleceu em 1986 na cidade de Genebra, Suíca. Deixou uma prolífica obra literária e, considerando-se que ele viveu quase trinta anos dentro da noite aludida no poema acima, faz sentido que tenhamos guardado dele a imagem de um demiurgo cego, apoiado em sua bengala e criando mundos através da literatura.

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O irmão esquecido

Ver a ciência sob a ótica da arte e a arte sob a ótica da vida significa dizer que o problema da ciência não pode ser visto no interior de um campo contaminado pelas interpretações reativas e negativas; mas deve ser investigado a partir de um solo não científico: o da vontade de potência. Considerar a ciência sob a ótica da vida significa apreciá-la por sua força criadora”.1

Não conheço muito bem a biografia nem a bibliografia do escritor argentino Jorge Luis Borges. Até agora o único livro que li dele foi fazedor.No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.

Pois bem, com a leitura de fazedor enfim conheci a escrita de Borges. Nós vários poemas, contos e simples frases que compõem este livro, consegui perceber que, antes de mais nada, o escritor argentino possui uma sensibilidade ao lidar com as palavras que te jogam no texto e lhe fazem não querer sair dali tão cedo. É um texto que, segundo minha interpretação, é feito para ser degustado como um bom vinho, para ser prolongado como uma boa conversa num café com os amigos.

Dentre os vários textos que compõem fazedor, um em especial me atraiu demais e me fez pensar em um problema que, segundo minha leitura, é, por excelência, de ordem epistemológica.

Deixe-me explicar, para as coisas ficarem mais claras. O referido texto é arte poética, um poema composto por sete estrofes e que trata justamente do seu título, da arte poética, de como ela se dá, de como ela se mostra.

Ora, você leitor pode então me perguntar: o que a arte poética tem a ver com a epistemologia? É que no processo de ruminação do poema (pra se ler Borges a “ruminância” é qualidade indispensável), num lento e preguiçoso ônibus que cruzava as estradas de Minas Gerais, pensei em uma metáfora que acabou levando o poema para essa ordem epistemológica a qual aludi acima.

Comunicar-se via metáfora é sempre uma tarefa delicada e complicada, pois a metáfora aceita vários níveis de entendimento e nem sempre o “metaforador” consegue ser compreendido de uma maneira satisfatória. Mesmo assim vou me arriscar e espero conseguir atingir o meu telos.

Imagine dois irmãos, ambos na mais terna infância, que começam a brigar em virtude de um brinquedo, que ambos gostavam muito de brincar e que aparentemente sumiu. Um acusa o outro de ter se apoderado e escondido o brinquedo, no entanto, nem um nem outro de fato fez tal coisa e assim o que prevalece é essa disfonia ad infinitum.

Até que aparece um terceiro e desavisado irmão, que nem se importava tanto com o motivo da briga dos outros dois irmãos e, sem querer, encontra o tal brinquedo. Enquanto a briga entre os outros dois irmãos continua, o terceiro irmão fica ali, esquecido, com o brinquedo nas mãos, mas sem saber bem o que fazer com ele.

Essa foi a metáfora que construí após a leitura de arte poética. Inevitavelmente vou tocar em um assunto de uma relevância e de uma complexidade e multiplicidade de interpretações dentro das ciências, que, também inevitavelmente, não será esgotado nesse pequeno texto. Mas quero pelo menos tentar apontar caminhos nos parágrafos seguintes, com uma breve explicação da metáfora dos parágrafos anteriores, para discussões acerca do tema.

De maneira bem pragmática e pouco misteriosa (isso não é muito interessante em um texto, mas vá lá) digo que na metáfora acima os dois irmãos brigões são a Filosofia e a Ciência, amantes do brinquedo, que é o conhecimento. O irmão esquecido é a Poesia.

Como disse acima, o texto de Borges foi o estopim para essa reflexão e a construção dessa metáfora, no entanto, essa ideia já vinha sendo cultivada dentro da minha cabeça há um tempo. Estudando Filosofia da Ciência e própria Filosofia em si, cada vez mais fui percebendo esse verdadeiro embate entre a Filosofia e a Ciência, e creio que dá até pra expandir essa briga (e aí a metáfora ganharia um novo irmão), para dentro da própria Filosofia, no embate entre as filosofias ditas sistemáticas e “fragmentárias”. Enfim, nos campos em que, por definição o conhecimento é o objeto e objetivo, por maiores que sejam os avanços e as conquistas, muita coisa parece não ser conseguida em virtude de desavenças e desencontros.

Aí surge a Poesia. A tarefa (se é que ela tem uma tarefa) dela não é a busca pelo conhecimento. A Poesia é arte e se ocupa com outras instâncias, não necessariamente, nem principalmente com o conhecimento, porém, isso não impede a Poesia de também se deparar com questões epistemológicas, e conseguir reinterpretar essas questões de modo a melhor resolvê-las, a apontar caminhos outros.

Estamos então, caro leitor, no cerne daquilo que falei um pouco mais acima: o despertar de um problema epistemológico através da leitura de um poema de Borges que fala sobre a arte poética.

Retornando à metáfora: parece que o mais interessante a se fazer, para todos os irmãos, é dar um fim à briga entre os dois primeiros e fazê-los perceber que o brinquedo está com o terceiro irmão. Este saberia melhor o que fazer com o brinquedo, afinal estaria em contato com os dois irmãos que já conheciam e gostavam de brincar com ele, e aqueles teriam de volta o tão desejado brinquedo.

Ou seja, longe de parecer uma solução simplista, ou que busque esgotar o assunto, penso que um contato mais forte da Poesia, e da arte poética, com as áreas que por excelência perseguem o conhecimento seriam de extrema validade para todos. Não quero com isso dizer que a solução de todos os problemas epistemológicos do universo está na Poesia, seria muita pretensão e ingenuidade da minha parte.

O conhecimento científico requer toda precisão e solidez e nisso, está claro, a Poesia não pode e nem deve interferir, porém, o conhecimento (e aqui esqueçamos as repartições que com o passar dos séculos foram feitas dentro do conhecimento. Não quero falar de um conhecimento estritamente científico, filosófico e/ou poético, mas sim de um conhecimento maior, que abarque todos esses) pode sim receber o auxílio luxuoso da Poesia.

A Poesia, entretanto, está esquecida, como o irmão da metáfora. E longe das discussões “sérias” sobre o conhecimento, ela, sem compromisso algum, consegue, livre de preconceitos e limitações, chegar até alguns pontos que os embates entre Ciência e Filosofia muitas vezes impedem essas duas áreas de chegar.

Não deve-se deificar a arte e a poesia, mas ao mesmo tempo não deve-se menosprezá-las e encará-las apenas como uma atividade entre outras, totalmente a margem de tudo o que é importante e necessário para o conhecimento.

As conquistas epistemológicas, se temperadas com a sensibilidade e a leveza da Poesia tendem a ser mais frutíferas e verdadeiras. Preconceitos, pressuposições e temeridades muitas repudiam essa tese. Por quê?

A pergunta fica e eu encerro o texto com um trecho do poema que foi o motivo e a razão do próprio texto:

Ver en el día en el año un símbolo

de los días del hombre de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumorr un símbolo,

ver en la muerte el sueño, el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal pobre. La poesía

vuelve como la aurora el ocaso.2

REFERÊNCIASBIBLOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luis. Ofazedor. Tradução: Josely Vianna Baptista. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Título original: El hacedor (1960).

DIAS, Rosa Maria. Nietzsche, vida como obra de arte. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

1 DIAS, 2011. p. 55.

2 BORGES, 2008, p. 148.

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