Ratos e Homens

 

RATOS E HOMENS

Por Pedro Uchôas

BIOGRAFIA DO AUTOR

John Steinbeck nasceu em 1902 em Salinas, Califórnia. Filho de um imigrante alemão desafortunado e de uma professora primária de origem irlandesa, Steinbeck, vendo a dificuldade financeira da família, resolveu dedicar-se aos estudos. Porém, pela ausência de uma boa estrutura financeira acabou por trabalhar numa fazenda. Desgastado com os trabalhos árduos e mal remunerados, mudou-se para uma cidade próxima onde trabalhou por um tempo como vendedor em uma farmácia até ser demitido e iniciar um novo projeto de trabalho em uma estrada. Cansado novamente, desgastado com o trabalho forçoso e pesado, foi para Nova York onde se tornou jornalista. Voltou novamente para a Califórnia e conheceu uma mulher chamada Carol Henning, com quem assumiu um relacionamento, por mais que sofrendo a desaprovação dos pais da amada. A partir daí, casou-se e começou a publicar livros e aos poucos a impulsionar a sua carreira de escritor, cujo auge seria a conquista do nobel de literatura no ano de 1962.

RATOS E HOMENS

A obra Ratos e homens foi publicada por John Steinbeck no ano de 1937 e reflete o sonho americano da independência econômica em um período que, como mostra a própria biografia do autor, progredir economicamente não parecia tarefa das mais fáceis. Tudo girava em torno da busca por um dinheiro que possibilitaria o trabalho autônomo, ou melhor, a autonomia financeira propriamente dita. Durante o livro é possível perceber o quão importante a independência se mostra para Lennie e George, dois trabalhadores rurais. Eles se esforçavam durante todo o tempo e, por mais que não fosse tão realmente aplicável a idealidade do trabalho absolutamente direcionado, buscavam a economia para a aquisição de uma propriedade rural própria, do plantio e da criação de coelhos, por parte de Lennie. Para prosseguir na apresentação da obra, penso ser mais necessário apresentar cada um dos personagens, primeiramente, para em um segundo período escrever um pouco sobre a relação de ambos e o desfecho, se possível.

Steinbeck, nas primeiras páginas do livro, descreve bem e de forma coerente cada personagem. Para não ser inexato, coloco aqui da mesma forma como ele pretendeu descrevê-los, na tradução de Érico Veríssimo, a caracterização de George e, em seguida, a de Lennie.

O primeiro dos homens [George] era pequeno e vivo, moreno de rosto, olhos inquietos e penetrantes e traços bem marcados. Tudo nêle era definido: mão pequenas e fortes, braços delgados, nariz fino e ossudo. Atrás dêle vinha o seu oposto [Lennie]: um homem enorme, de cara sem forma, grandes olhos pálidos e ombros largos e caído. Caminhava pesadamente, arrastando um pouco os pés, assim do jeito como os ursos arrastam as patas. Seus braços não oscilavam acompanhando o movimento das pernas, mas pendiam frouxos ao longo do torso. (STEINBECK, 1968, p. 17-18).

George, o primeiro homem da descrição, é baixo, moreno e, fora as descrições físicas, possui uma inteligência mais aguçada que a de Lennie. Ele se esforça para manter as decisões mais inclusas no círculo do planejamento e costumava inclusive planejar por Lennie a vida futura de ambos. George possui as mãos firmes de um trabalhador do campo, a feição de certa forma comportada e harmônica. Já Lennie, completamente distinto do amigo, possui grandes mãos que, para além do trabalho no campo, também são capazes de intimidar, anda pesadamente, por ser um homem alto e pesado de corpo, e não possui a mesma inteligência que o outro. Pelo contrário, é majoritariamente instintivo e, como diz Otto Maria Carpeaux, no prefácio da obra, “um gigante, de força física enorme, mas de inteligência reduzida, um débil mental” (CARPEAUX, 1968, p. 9).

Pois então, por que homens tão diferentes assim se uniriam em uma espécie de amizade tão forte quanto ela se mostrou? Um sonho comum, o da independência econômica. Ambos possuem o sonho de uma propriedade rural própria e do trabalho autônomo. E, de certa forma, juntos eles talvez conseguiriam com maior facilidade, ou mesmo possibilitariam, a futura vida rural independente. George é o responsável pelos planos, e Lennie sempre insiste na lembrança do sonho, como é possível perceber em várias passagens, tais como essas:

– George, quanto tempo vai passar até a gente conseguir aquêle sítio para viver à fôrra… e com os coelhos?

– Não sei. [Diz George]Temos que juntar muito dinheiro. Conheço uma terra que a gente podia conseguir barato, mas não de presente. (STEINBECK, 1968, p. 114-115).

E compõem o futuro, reconstruindo-o nos sonhos.

– Bom, só uns três acres. Vamos ter um moinho de vento, um galpãozinho e um galinheiro. Vamos ter cozinha, pomar, cerejas, maçãs, pêssegos, damascos e um pouco de morangos. Vamos ter um lugar pra plantar alfafa e bastante água pra o rêgo. E também um chiqueiro pros porcos. (STEINBECK, 1968, p. 115).

– Claro, vamos ter uma casinha, com um quarto para nós. Um bom fogão de ferro e no inverno temos sempre o fogo aceso. A terra não é muito grande e assim a gente não precisa trabalhar muito. Talvez seis, sete horas por dia. Mas nada de carregar sacos de cevada onze horas por dia. E quando chegar a colheita, lá estamos nós pra recolher ela. Assim vamos saber o resultado do que semeamos. (STEINBECK, 1968, p. 117).

Sem falar, claro, nos coelhos que Lennie tanto insiste em criar nessa tal fazenda. Ele possui um deslumbramento especial por animais e cuida de tudo aquilo que tem ao seu alcance, um rato, no início, um cão, no desenrolar, e coelhos, no futuro. Porém, sem conseguir medir devidamente a força dos carinhos, ou mesmo a repercussão da admiração, ele acaba sempre por matá-los, estrangulados, amassados em suas carinhosas e demasiadamente fortes mãos. O incontrolável o assume em certas cenas, tal como na briga em que ele trava com Crespinho. No acontecimento, Lennie briga com o “boxeador” e acaba por feri-lo, devido a sua falta de controle emocional e física. Crespinho meteu-se na briga com Lennie pois não queria que alguém como o grandão risse dele. Porém, não esperava que subitamente Lennie pudesse perder o controle sobre si mesmo e agredi-lo de forma tão brutal. George o fez parar, assim como o incitara no início da briga para não apanhar sem revidar, e o resultado foi o despedaçamento da mão de Crespinho.

A mulher de Crespinho, que parecia não estar satisfeita com o marido, ou mesmo ter uma parcela ninfomaníaca, andava pela fazenda, que abrigava praticamente só homens, atrás de casos e um pouco de diversão. Ela viu em Lennie algo de atrativo e decidiu encontrá-lo. Na conversa perguntou diversas coisas a ele, como sobre o gosto estranho pelos coelhos, e em um determinado momento comentou de sua afeição pelos seus cabelos macios e sedosos, e pelo prazer em acaricia-los e pentea-los. Passou as mãos por eles e levou a Lennie à sua cabeça, também para acaricia-los. Lennie não poderia manter o controle e começou a acaricia-lo com cada vez mais força até chegar ao ponto da mulher gritar de medo.

O FIM

Incontrolavelmente, Lennie acariciava os cabelos da mulher de Crespinho com muita força e ela começou a gritar. Frente aos gritos, e à possível confusão na qual ele poderia se envolver, o grande e descontrolado homem quis impedi-la de gritar e acabou por matá-la, sufocando-a, tal como o pássaro que tentara pegar nas mãos certa vez. Assustado, o homem fugiu. George foi avisado do corpo e logo correu para ver o que havia acontecido. Sabia que era Lennie, sabia da falta de controle de seu amigo. Crespinho, ao ficar sabendo do acontecido, ficou desesperado e quis ir atrás de Lennie. George tomou uma arma e, vendo que a melhor forma de terminar com aquilo seria pelas suas próprias mãos, já que Crespinho mostrava-se fora de si, procurou pelo amigo e o matou, em um ato de “amizade”.

E George ergueu a pistola, firmou-a e aproximou o cano na nuca de Lennie. A arma tremeu violentamente, mas o rosto de George se endureceu e a mão ganhou firmeza. Puxou o gatilho. O estampido subiu rolando os montes e rolando tornou a descer. Lennie se sacudiu todo e depois foi caindo lentamente para diante sôbre a areia e ali ficou estendido sem se mexer. George teve um estremecimento e olhou para a arma e depois jogou-a longe de si, para perto da margem, junto do montículo de cinzas. (STEINBECK, 1968, p. 205).

Naquele momento, era terrível ver como o sonho de ambos havia desmoronado. Todo aquele tempo de convívio, aquelas construções de futuro já não faziam mais tanto sentido. O descuido de Lennie o levou a tudo isso e a amizade de George, o medo pelo que poderia acontecer ao amigo, o levou a tal extremo.

Aqui o título assume o seu sentido. Ele foi retirado de um poema do famoso poeta escocês Robert Burns, do poema To a field mouse. Literalmente, sem preocupação alguma com rima ou forma, o trecho do qual o título foi retirado poderia ser traduzido assim, como o fez Carpeaux: “Os projetos melhor elaborados, sejam de ratinhos ou sejam de homens, fracassam muitas vezes e nos fornecem só tristeza e sofrimento, em vez do prêmio prometido”. Agora é adequado relembrar dos sonhos, dos planos de George e Lennie e fazer jus ao poema. Tudo ia bem com o controle de George e a força de Lennie,

[m]as o sonho dos dois homens estava condenado ao fracasso pela irrupção inesperada de uma fôrça hostil, da grande depressão, que os humilhou, impondo-lhes uma existência indigna de criaturas humanas. Of Mice and Men é o romance da depressão e da decepção do “homo americanus” em face de uma miséria e dos acontecimentos que os grandes planejadores não sabiam prever nem evitar. É uma tragédia americana. (CARPEAUX, 1968, p. 13).

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