Entrevista com Darlan Lula

ENTREVISTA COM DARLAN LULA

Neste mês, no Sempre um livro, lemos o livro “Casa de madeira”, de Darlan Lula. Visto que o autor mora aqui mesmo, na nossa cidade, resolvemos entrevistá-lo, aproximando-o propriamente dos leitores do blog e de nós. Se não me engano, até hoje não tivemos a oportunidade de estudar uma obra e conhecer o autor, o que, pelo que fizemos, foi gratificante e enriquecedor. Segue, então, um recorte da entrevista que contém a mais densa parte referente às influências literárias e a visão sobre a literatura do autor.

Rita: Já há alguns anos eu gostaria que você falasse sobre os seus livros, um pouco da sua história literária, acadêmica. Isso seria interessante para nós.

Darlan: Eu tive uma formação um pouco diferente da formação dos meninos da minha geração, pois eu estudei em um colégio interno, estudei da quinta a oitava série lá, e lá eu aproveitei muito as oportunidades, porque lá a gente vivia no ócio. Tinha estudos, a gente estudava, tinha um colégio dentro do internato e tinha uma biblioteca. E eu, a partir do sexto ano passei a frequentar a biblioteca, ler muitos livros, e tenho interesse pela leitura porque meu pai foi um grande incentivador, foi o meu maior incentivador em leitura, e eu comecei a cuidar da biblioteca depois disso. E aí lá eu tive contato com vários autores: Machado de Assis, Ernest Hemingway, Clarice Lispector, Dostoiévski, esse povo mais clássico, né? Que tinha lá na biblioteca. E comecei também por me interessar a escrever algo. A gente lançou um jornalzinho lá, e foi lá que começou tudo, assim, de certa forma. Aí, quando eu vim para Juiz de Fora, meu pai queria que eu fizesse medicina, eu falei com ele que não era muito a minha “praia”, pois ele era médico também, e eu disse a ele: Pai, eu quero fazer literatura, e para fazer literatura eu preciso fazer o curso de letras. E aí eu fui e ingressei no curso de letras do CES, e lá eu me embrenhei mais para a área acadêmica em relação à literatura, porque era a minha “praia”, era o que eu queria, eu queria aprender técnicas de escrita, técnicas de escritores, como escrever mais pensando e menos intuitivo, pois tem vários escritores que vão pela intuição, eu não, eu queria escrever de uma forma que também trouxesse essa carga acadêmica para dentro da minha escrita mas com muita leveza também. Aí, em 2002, eu lancei uma miscelânia, financiado por mim mesmo, nessa época eu não conhecia a FUNALFA, aí eu lancei um livro chamado “Pontos, fendas e arestas”, que era justamente a reunião de contos, crônicas e poesia. Por isso que eu quis que ele chamasse “Pontas, fendas e arestas”, pois cada uma representava um setor do livro. E a partir daí, quando eu lancei, o pessoal teve uma repercussão de leitura boa, ficaram comentando, gostaram dos textos, e aquilo ali era meio que um laboratório para mim, sabe?! A partir de um conto daqueles, se não me engano o conto se chamava “reminiscências da infância”, eu tive a ideia de escrever o “Viera tarde”, quer é o meu primeiro romance. Então, assim que eu entrei no mestrado, em 2003, concomitantemente eu comecei a escrever esse livro, escrevi esse livro, eu acho, que gastei uns três meses para escrever, aí depois fui e dei uma elaborada nele e depois entrei na lei. Fui aprovado na lei de 2005 com o livro. Fui aprovado na lei, consegui uma parceria com uma editora lá de São Paulo chamada Nankin editorial e lancei com as editoras FUNALFA e Editora Nankin. Então a Nankin fez 1000 exemplares e a FUNALFA mais 1000, Sendo que 700 ficaram comigo. E também o pessoal gostou muito, o livro tem uma dinâmica e uma estrutura diferentes, não é um livro pesado, é um livro menos reflexivo e mais de ação mesmo.

As ações traduzem o pensamento do narrador… [Agora o Darlan fala da relação com o pai, um homem simples, em relação ao conhecimento técnica da narrativa, mas um grande leitor. Eles costumam conversar bastante.] Mas eu comento muito com ele [o pai] que muitas vezes nas ações dos [personagens] não precisa ele [o narrador] refletir sobre aquilo, o próprio personagem vai dar ao leitor essa indicação de reflexão, e a partir do repertório do leitor ele vai entender aquilo de acordo com a sua experiência de vida, de leitura e etc. As vezes a reflexão engessa até mesmo o pensamento, e esse livro “Viera tarde” foi um pouco assim, um livro que trata de um adolescente que não quer fazer vestibular e que tenta a todo custo convencer o pai de que ele não tem formação acadêmica mas que quer ser um escritor, e ele fica nesse embate com o pai e ao mesmo tempo ele descobre que tem câncer. E no meio disso há também um personagem que está escrevendo histórias, e esse personagem, escrevendo, ele produz a história dele no meio da história do personagem principal que tem uma complicação com o pai. Bom, em 2008 eu lancei um blog também, que é um blog1 que hoje está em plena atividade, e isso eu lancei mais como professor, eu dava aula na escola normal, no instituto estadual de educação, e lá eu usava o blog para incentivar os meus alunos a ler, incentivar os meus alunos a produzir que eu publicava lá naquele blog. Depois ele foi ganhando uma outra dimensão. Eu comecei a fazer críticas, ler uns livros, comecei a escrever algumas coisas e postar lá e desde 2008 eu venho escrevendo e a partir de 2012 eu comecei a escrever poesia também, escrevi alguns poemas, que não é muito bem a minha “praia”. Eu entrei nesse mercado meio que por um acaso, eu vim lançar este livro [Casa de Madeira] meio que por um acaso também. É um livro que foi escrito praticamente dentro de uma clínica, dentro de uma clínica de recuperação, porque eu fiquei muito depressivo em 2013, foi entre agosto e setembro de 2013, fiquei quinze dias lá e a maioria do que está aí foi escrito lá. E lá eu tive experiência com várias pessoas, com várias situações de vida, sabe?! E o livro trata disso, da própria reflexão interior do personagem que está com depressão, isolado do mundo e refletindo sobre sua própria existência, é um personagem que tentou suicídio por causa da depressão e se viu tendo que ser internado por causa disso, um suicídio por uma questão sentimental, de separação com uma mulher, que ele não aceitou. O que é, um pouco assim, digamos que não é um pouco não, que é a minha história de vida. E o livro é até uma forma de alertar as pessoas para a questão da depressão, que eu sempre falo isso quando dou entrevista para alguém ou falo desse livro, que ele é uma tentativa de fazer com que as pessoas entendam que a depressão não é somente uma besteira ou uma frescura de alguém, mas que é algo muito forte e incisivo dentro do organismo da pessoa, que ela perde a noção de tudo, da sua família, do amor por qualquer pessoa que seja e sente um vazio existencial enorme, e é por isso que chega no limite do suicídio… A pessoa tem que ser resgatada, não dá para ser resgatado sozinho, é muito difícil. Com a ajuda de medicamentos, da minha família eu me recuperei, e até mesmo com a escrita, eu digo que foi, assim, uma espécie de “catarse”.

Rita: Quanto tempo você ficou internado?

Darlan: Eu fiquei quinze dias internado.

Rita: Em 2013?

Darlan: Sim, em 2013.

Rita: Eu gostaria de saber sobre a sua opinião em relação a avaliação da escrita enquanto cura.

Darlan: É justamente isso mesmo, no meu caso foi uma espécie de ajuda mesmo. Eu não estou dizendo que a escrita por si só cura o paciente de algum mal, do mal da depressão, nesse caso, mas ajuda e muito, pelo menos no meu caso ajudou. Porque, é, eu me vi escrevendo por acaso. Eu via as pessoas se reunindo na Casa de Madeira, na Clínica Vila Verde, pois foi lá o lugar onde eu fiquei internado, no bairro Borboleta, e lá tinha uma casa chamada Casa de Madeira, e eu fiquei internado lá, uma casa no alto do morro, tanto que na capa do livro o ilustrador Gerson Guedes coloca uma casa no alto do morro e que tem uma descida e que fica um plano de outro ambiente, mas ainda tem uma casa lá em cima onde ficam os internos com dependências químicas, com dependência alcóolica. No meu caso, com problemas psíquicos. E eles [os dependentes] se reuniam para discutir sobre o dia a dia, pois eles tinham reuniões em grupo, e eu não tinha nenhum tipo de grupo, específico no meu caso, apenas para dependentes físicos e dependentes químicos, que tinham problemas com droga e etc. E eles saiam do Borboleta e iam para outro lugar, que era uma outra unidade do Centro. Eles voltavam sempre à tardezinha e tinham que fazer uma tarefa, que era escrever sobre alguma coisa da vida deles. Enquanto eles escreviam ali eu me juntava a eles, e acabava escrevendo, e quando eu via estava escrevendo poesia para eles, sobre mim, sobre a situação, sobre a vida e etc. Quando eu li eu percebi que aquilo ali era eu que estava ali. É muito mais fácil você “se refletir” se projetando para fora, se observando de fora, como se eu fosse um outro me observando e isso me ajudou bastante. E está sendo interessante para mim esse livro pois ele pode ser visto sob esse viés, da questão da depressão, mas também como uma superação de um ser humano que busca ser superado o tempo todo e busca o tempo todo alguma tentativa de se ver melhor, de se sentir melhor. Eu estou falando isso porque tive retorno do Léo, que estava lá internado comigo, e ele foi ao lançamento do livro, se emocionou muito ao ler o livro, falou que vai ser o livro de cabeceira da vida dele, porque ele é dependente do crack, que é uma droga terrível, e ele “tá” mais de um ano sem usar, vivendo a vida. E eu achei maravilhoso você poder viver assim e ajudar os outros, resgatá-lo disso é muito bom. E um outro caso foi uma amiga minha que dá aula para internos, presidiários, e que eles adoraram o livro, então está tendo uma ramificação de leitores que eu não imaginava que teria, e de pessoas que sofrem o processo da depressão, e contam a sua experiencia também. Um senhor inclusive me procurou no dia do lançamento e falou: “Olha, eu também estou tendo depressão e vim aqui só para te ver, para te dar um abraço”. E eu disse: “ah, muito obrigado, e tal”. Então, é uma coisa que tem que vir à tona, e as pessoas tem receio disso né, as pessoas escondem para debaixo do tapete os problemas, principalmente uma tentativa de suicídio, por exemplo, desencadeado por uma depressão, ou algo assim. Não pode, esse é um tipo de reflexão que se deve ter. Esse livro é um pouco prazer profissional mas também é muito pessoal, sabe.

Pedro: E como é que você se viu diante dos internados, já que eles tinham problemas tão diferentes?

Darlan: Ah, cara isso foi o máximo, porque, assim, como eu vivi quatro anos internado dentro de um colégio interno, no primeiro dia eu já estava adaptado, me adaptei ao esquema da Clínica. Eu brincava assim: se eu não engordar aqui eu não engordo nunca. “Tinha” cinco refeições, café da manhã, almoço, cafézinho da tarde, jantar e pernoite. Então a gente comia horrores lá, era dormir e comer, comer e dormir. [risos]. E eu conheci pessoas. Eu levei um computador para lá cheio de músicas na época, e às vezes a gente tomava banho de sol ao lado da piscina e ligava o som, e todo mundo interagia, e o pessoal contava os seus problemas. E nós fomos nos conhecendo. Uns menos, que eram mais arredios, outros mais, se mostravam mais, contavam sua história. O Léo mesmo foi um que contou a história dele. E eu fui abraçando a causa deles também. Vão ter alguns poemas que são endereçados a eles, feitos para eles. E eu lia para eles na época e [todos] ficavam muito emocionados, porque lá todos ficam muito fragilizados. Eu queria mostrar a eles que eles tinham alguém ali, alguém com quem eles poderiam contar, e contavam os seus problemas também. Foi muito gratificante e muito enriquecedor. Não sofri preconceito nenhum de ninguém, pelo contrário, foi uma coisa muito positiva na minha vida, que eu nunca conheceria aquelas pessoas se não estivesse ali.

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