Obra do mês: O processo, de Franz Kafka

Por Rita Mendes

INTRODUÇÃO

A obra O processo começou a ser escrita por Franz Kafka em meados de agosto de 1914, mas interrompida em 17 de janeiro de 1915, pois o autor pretendia dedicar-se a novas histórias, além de sentir-se um tanto “incapaz” de prosseguir com o romance, conforme ele próprio havia afirmado.

É possível que esse romance, apesar da sua importância como um dos maiores do século, acabou sendo apenas um fragmento, segundo mencionado pelo tradutor Modesto Carone.

Relevante ressaltar a busca incansável pelo “sentido” da obra, sendo variadas as vertentes: filosóficas, teológicas, psicanalíticas, sociopolíticas, quer a vendo na linha teológico-existencial como a representação da culpa do homem contemporâneo; outros a considerando como realista em razão da vivência e visão não impotente de Kafka com a burocracia na condição de funcionário público, podendo dentro dessa percepção histórica ser considerada até como uma profecia do terror nazista; também sob o ângulo da alienação do mundo secular com a morte do mito da salvação muitos a consideram como a origem social da esquizofrenia; já na vertente psicológica ou analítica se encontram outras afirmações de que as desventuras do personagem K. no romance refletem um caso de neurastenia, sendo apenas um sonho ou mesmo um delírio, em razão do seu isolamento e exaustão; há ainda, aqueles que entendem que o romance, dada a sua forma de narrativa sob a perspectiva do personagem, trata-se apenas de um processo de pensamento de Josef K. Fato é que a busca do “sentido da obra” continua em aberto, e mesmo os estudos centrados no aspecto formal do romance o consideram como uma “metáfora absoluta”.

O ROMANCE

Josef K., o personagem principal do romance não pode ter as atenções do pai, pois este morreu muito precocemente. Assim, K. deixou sua casa ainda muito jovem, apesar da sua mãe, cuja saúde caminhava precariamente, permanecer na pequena cidade em que até então viviam. Ficando sob a tutela do seu tio Karl, um pequeno produtor rural, simples, mas dedicado ao sobrinho K., buscando sempre protegê-lo, mesmo quando K. já estava jovem, como se ainda fosse o seu tutor.

Ainda jovem, K. já ocupava um alto cargo executivo em um Banco, o de procurador, o que gerava muito orgulho na família, especialmente no tio Karl, e lhe permitia ter uma vida confortável, bem como arcar com os custos para os cuidados com a sua mãe, que dependia dos familiares que também viviam na mesma cidadezinha.

Entretanto, no dia do seu aniversário de trinta anos sua rotina é quebrada drasticamente. Nesse dia, na pensão da Sra. Grubach, em que morava, não levaram o seu café, e quando ele foi reclamar a respeito, foi informado por dois guardas irônicos e atrevidos, pois até o seu café tomaram, de que estaria detido, sem maiores explicações do porquê, apesar do espanto e da insistência de K., alegando que somente o inspetor poderia lhe dizer. K. ficou se questionando sobre o que estariam falando aqueles aparentes guardas, de onde vinha aquela autoridade, uma vez que entendia estar vivendo em pleno estado de direito, com as leis em vigor e a paz reinando por toda parte. Ao enfim falar com o inspetor, apesar da sua aparente indiferença com a situação, perguntou pelo que estaria sendo acusado e por quem, e qual seria a autoridade. Nada lhe foi esclarecido, mesmo por que alegaram pouco saber, informando apenas que estava detido, mas que poderia trabalhar normalmente, levar sua vida normal, apenas teria que atender as intimações para os tribunais para prestar esclarecimentos, etc. Pensou em falar com um promotor, seu amigo Hasterer, mas desistiu. A questão lhe parecia estranha, mas tinha por hábito não se preocupar prematuramente com o futuro. Naquele dia, apesar de um pouco atrasado, foi ao Banco. Apesar de tudo não parecer tão sério assim, sentiu o afastamento da Sra, Grubach, dona da pensão e da Srta. Bürstner que também morava lá.

Josef K. conquistou seu espaço no Banco, sendo ali muito respeitado, mas sua rotina era exaustiva, quer nas análises dos negócios, atendimento aos clientes, relatórios, além da postura incisiva do diretor-adjunto, o qual parecia estar sempre avaliando seu trabalho. Logo, recebeu, via telefone, o primeiro chamado para comparecer ao tribunal para um primeiro e pequeno inquérito, e decidiu ir, pensando que poderia ser o primeiro e o último, pois a questão poderia ser esclarecida e finalizada. Entretanto, não seria bem assim. Tudo era estranho: o dia, o endereço, o sótão lúgubre em que funcionavam, as pessoas. Nesse dia, K. realizou pessoalmente sua defesa, desafiou os membros do suposto tribunal, mas recebeu do juiz apenas a informação de que ele havia se privado da vantagem que um inquérito pode representar para um detido. K. esperou por outra comunicação durante a semana, mas esta não ocorreu. Mesmo assim foi para o mesmo local no domingo, mas confirmou pessoalmente que não havia audiência. As salas estavam vazias. Apenas presenciou uma situação esquisita envolvendo um dito oficial de justiça, a sua mulher e um aluno. K. concluiu que poderia empregar de melhor forma as suas manhãs de domingo.

Na pensão em que continuava morando K. se ressentia do distanciamento da Srta. Bürstner e procurava coincidir seus horários para encontrá-la, mas era em vão, não conseguia. Insistia, escrevendo para ela marcar um horário para se falarem, o que deixava K. chateado e indagador junto à dona da pensão, que por sua vez ficava melindrada pelo que acontecia com os seus hóspedes, inclusive com ele. Apenas conseguiu que uma das amigas de Bürstner fosse lhe falar a seu pedido, declarando não haver nada de interessante para os dois que pudesse ser conversado. Assim, o distanciamento e os olhares de moradores daquela pensão pesavam muito sobre K. Ele ressentia-se desse isolamento.

O processo, sobre o qual se desconhecia os motivos, e não se entendia as estruturas caóticas, bem como a origem do poder, se apresentava a K das formas mais estranhas possíveis. Em uma delas, já noite, ao sair do Banco, K. ouviu gritos e gemidos oriundos de uma sala de despejo próxima da escada principal, e entrando pela porta percebeu que os dois guardas que estiveram na pensão naquele primeiro dia em que foi informado do processo, estavam sendo espancados por um homem vestido com roupa de couro, e que o motivo era por ter ele relatado ao juiz de instrução o que ocorrera naquele dia na pensão. Por mais que K. tivesse tentado, não conseguiu remover o algoz do seu objetivo, inclusive lhe oferecendo dinheiro, de punir aqueles homens. O interessante é que parece que os contínuos que ali trabalhavam não percebiam o que estava acontecendo.

Em outro momento Karl, tio e ex-tutor de K., cuja ligação e afeto o fazia ainda considerar ser, chegou de surpresa no Banco, preocupado com o sobrinho, pois já havia chegado aos seus ouvidos a existência do processo, através da sua filha Erna que lhe escreveu a respeito, informando que também tomou conhecimento através de um contínuo do Banco, quando ali esteve tentando falar com o Josef K.. Assim preocupado com a questão, a qual considerava muito grave, o tio dirigiu-se à capital, sempre correndo, como de costume. O tio Karl considerou ainda pior quando soube por K. que o processo não tramitava no tribunal comum, o levando, de imediato, ao seu advogado de confiança, Huld. Apesar das dificuldades de falar com tal advogado, uma vez que a porta da casa não se abria, conseguiram chegar até ele que estava acamado, mas aparentemente melhor, os atendeu, inclusive informando já ter conhecimento do processo movido contra K. Este, por sua vez, ficava cada vez mais confuso. Como que um advogado que atuava no tribunal do Palácio da Justiça podia atuar no tribunal do sótão? Na verdade, ficou sem resposta. Fato é que K. decidiu por contratar o advogado, apesar de todas as esquisitices dele mesmo, da Leni, sua enfermeira, do velho do cartório no canto escuro. Entretanto, o tempo passava e o advogado Huld não apresentava no tribunal a petição inicial para a defesa, alegando haver muitos detalhes, que estes sim que eram importantes como os inquéritos, as observações ao réu, etc., razão pela qual K. não deveria se preocupar. Dentre os argumentos de Huld, mais contundente foi que uma vez contratado um advogado, este não poderia ser destituído, pois além de raro, seria prejudicial ao acusado que ficaria sozinho. Entretanto, K. se preocupava sim, cada vez mais, pela repetição das justificativas, pelo quadro de pintura de um juiz na parede demonstrando vaidade e poder, pelas presenças e escuridão na casa, pelo atendimento do advogado na cama, pela postura da Leni, a enfermeira, etc.

Nesse ínterim, K. recebeu no seu trabalho, um cliente do Banco, industrial que bem conhecia, para buscar orientações sobre negócios, em um momento que K., exausto por toda a sua situação, não conseguia raciocinar. Enfim, o cliente após buscar e sair muito satisfeito com o atendimento pelo diretor-adjunto, retornou à K., não com interesse de lhe mostrar a negociação realizada, mas para repassar a sua percepção de o estar vendo muito oprimido nos últimos tempos, mostrando em seguida saber do seu processo. Então, falou-lhe de um pintor, Titorelli, que sempre lhe vendia quadros de pequeno valor, mas que tinha como principal fonte de renda fazer retratos para o tribunal, informando que ele talvez pudesse ser útil a K., por conhecer muitos juízes e para, quem sabe, lhe dar conselhos. Sem dúvidas K. sentiu-se muito desconfortável pelo conhecimento que aquele cliente tinha da sua situação. Apesar de estar no trabalho e ter clientes à sua espera a sua ansiedade foi tão grande, que apesar do constrangimento não os conseguiu atender, dirigindo-se de imediato à procura do pintor. Também não foi fácil localizá-lo tanto pelo lugar, prédio, labirintos, sótão, meninas estranhas, mas enfim chegou ao pintor Titorelli que vivia miseravelmente no sótão. Mais surpreendente ainda foi a informação daquele pintor de que aquelas meninas espalhafatosas faziam parte do tribunal, além do que o próprio sótão em que morava ter acesso ao tribunal. O ambiente era insalubre, mas K. entendeu a sua necessidade de estar ali com aquele pintor que lhe fez uma pergunta que muito o alegrou, mesmo porque ninguém a tinha feito tão abertamente: “O senhor é inocente?”, tendo K. respondido que “Sim, sou completamente inocente”. Após lhe repassou diversas informações, como a de que o tribunal não era dissuadido, não havia absolvição real, apresentando a K. duas alternativas: a de absolvição aparente, na qual o processo poderia sempre retornar e a de processo arrastado. No final, vendeu diversos quadros para K. que os levou para escondê-los no escritório, pensando na possibilidade de um dia precisar deles.

Finalmente, K. resolveu destituir o advogado. Estranhou K. a forte resistência deste em aceitar o fato, bem como da visível intromissão da enfermeira Leni sobre a questão. Naquele dia encontrou também na casa do advogado outro acusado, um comerciante de nome Block, que chegava a morar na casa do advogado, em tamanha submissão a ele e à Leni para tentar ser atendido. Confidenciou a K. que seu processo se arrastava por muitos anos, que perdera quase tudo em razão dele, e que ainda tinha mais advogados para garanti-lo. Em seguida K. foi atendido pelo advogado que não aceitava de forma quase humilhante a sua destituição no processo, e como último argumento pediu que o comerciante Block fosse chamado, a quem submeteu a todas as formas de dependência, submissão e humilhação, com o objetivo de persuadir K. da sua intenção. K., por sua vez, entendeu que tudo aquilo não passava de uma encenação e manteve firme o seu propósito de cuidar pessoalmente do seu processo.

No seu trabalho K., por ser considerado como conhecedor de artes, recebeu a incumbência de mostrar alguns monumentos a um amigo italiano do Banco, o que lhe preocupava por estar se sentindo frágil e desconfortável no seu emprego, pelo que entendia sempre melhor estar por lá cuidando das suas atividades. Cuidadoso, se preparou com anotações, dicionário de bolso e no dia marcado chegou bem cedo ao escritório. O visitante, em razão de diversos compromissos resolveu visitar apenas a catedral, marcando com K. um horário para lá encontrar. Entretanto, antes de ir recebeu um telefonema de Leni, enfermeira do ex-advogado a quem informou do seu compromisso na catedral, ao que esta falou: “eles o estão acossando”. Chegou pontualmente na catedral, mas não encontrou o italiano quer na entrada principal, quer nas laterais, vendo ali apenas uma senhora idosa, envolta num xale e um sacristão que mancava. Depois de várias sinalizações do sacristão, aos quais K. não entendeu, parecendo, a princípio, que desejava apenas que ouvisse o sermão, apesar de não ter mais ninguém na catedral. K. resolveu sair, quando bruscamente foi chamado pelo nome pelo suposto sacerdote que, na verdade se revelou como capelão do presídio e integrante do tribunal. Ali, informou a K. que o seu processo ia mal, que talvez não passasse de um tribunal de nível inferior. Reclamou a K. que este buscava muito a ajuda de estranhos, em especial das mulheres e que isso não era bom e afirmando que K. se equivocava falou: “A sentença não vem de uma vez, é o processo que se converte aos poucos em veredicto”. K. despediu-se para voltar ao Banco ouvindo ainda do sacerdote: “O tribunal não quer nada de você. Ele o acolhe quando você vem e o deixa quando você vai.”

No dia anterior ao aniversário de K., que faria trinta e um anos, portanto, um ano vivido com momentos e acontecimentos difíceis, vestido de preto e calçando luvas, parecia esperar visitas o que de fato ocorreu com a chegada de dois senhores gordos vestidos também de preto e com cartolas. K. pensou: “Procuram acabar comigo de forma barata”. Caminhando com esses senhores praticamente preso a eles, K. pensou em relutar, mas fazendo um auto exame concluiu que a única coisa que poderia fazer naquele momento seria procurar ter um discernimento tranquilo e assim o fez, caminhando e parando, quando necessário, sem objeções. Manteve lampejos de esperanças, um amigo, quem sabe alguém para ajudar, argumentações esquecidas, mas elas não se realizaram. Persistia em K. as mesmas indagações naquele momento : onde estava o juiz e o alto tribunal? E morrendo, pensou: “como um cão”.

CONCLUSÃO

Por mais que tente, é difícil saber qual o sentido dessa obra para Kafka. A obra, dita incompleta, parece não estar, mediante a sua profundidade. São tantas as vertentes à busca desse sentido não expressado pelo autor, que estas parecem até se ajustar entre si. Poderia sim ser histórica, dado o momento vivido pelo autor, que tinha consciência do mundo e prática na burocracia. Tomou conhecimento de uma história com momentos difíceis: nazismo, inquisição, guerras, verdadeiros tribunais inexplicáveis.

Poderia sim ser teológica: não seria o processo a própria vida e o tribunal a espada da finitude que insiste em pender sobre a cabeça de todos.

Também poderia ser psicológica com o homem adoecido pela exaustão e comportando-se como um condenado, ou mesmo psicanalítica em que o homem tomado pela esquizofrenia delira e vê imagens e situações que só ele vê e sente.

Ainda, poderia ser um mero pensamento do personagem K., cujo sentimento de culpa o leva a conduzir a sua vida como um processo de condenação mortal.

Enfim, penso que desde que o mundo é mundo, os tribunais com e sem palácios nos rodeiam e nos cercam. Saber ultrapassá-los pode significar muito.

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1 comentário

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Uma resposta para “Obra do mês: O processo, de Franz Kafka

  1. “De alguma forma eu lutava contra sensações que continham pura abstração e nenhum gesto dirigido ao mundo atual” essa é citação de Kafka? E em que escrito dele está essa frase?
    Obrigado
    marcelovmb@gmail.com

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