Questões de “O Idiota” e uma abordagem bíblica da obra presente de Dostoiévski

por Pedro Uchôas

Todos nós estamos sentados em uma cafeteria. Do lado de fora, inúmeras pessoas passam, mas o que eu posso ver são apenas pernas. Por mais que eu me esforce para compreender o que por trás de toda a mecânica mobilidade de cada um fulgura (os seus objetivos, os rumos, os caminhos já trilhados), nada posso encontrar. Nada mais justo. Pelo menos assim, posso me divertir alucinadamente ao construir idas e vindas da maneira como eu bem preferir. Esse é o ofício mais estranho que já se teve notícia. Quem, por exemplo, passa horas analisando mundos e construindo teorias explicativas sobre aquilo que não pode ter acesso? Ou, melhor ainda, por que um homem, de dentro de uma cafeteria bem climatizada, se dispõe a estruturar e buscar explicações para um mundo além daquele que vive? Esse é o ofício do pensador. Hoje não faremos coisa diferente. Aqui, de dentro do aconchego deste lugar, falaremos sobre Deus, sobre a natureza do homem e sobre o embate entre a Lei de Cristo e a Lei da personalidade.

Buscando completar o bom texto já escrito sobre a obra “O idiota”, fiz uma concisa abordagem direcionada para alguns aspectos que penso que são de grande importância. Em primeiro lugar, gostaria de elogiar a construção da obra e lembrar que, por mais que ela tenha sido escrita em um curto período de tempo, cerca de dois anos, passou por um árduo processo de feitura. Em meio à crises epiléticas, Dostoiévski planejou a obra em oito partes, tendo, por fim, apenas quatro. Durante a escrita, acabou perdendo uma filha que parecia, em meio a tormenta da doença e do vício em jogos, um escape sentimental e alguma esperança que ainda reluzia.

A personagem central da obra é o príncipe Míchkin, colocado, durante o romance, como um “homem perfeitamente belo” (Araújo, Paulo Afonso). Nele prevalece a ausência de egoísmo e vaidade. Vindo da Suíça, tratara-se recentemente da “idiotia” a que estava submetido, corretamente chamada de epilepsia. O que Fiódor faz é colocar em sua personagem uma doença que ele mesmo possuía e com a qual travava um grande embate. Durante a escrita de “O idiota”, ele passava por momentos difíceis, e chegou até a ter uma crise tão forte da tal doença que permaneceu impossibilitado de escrever por 20 dias. Um retrato pintado com pinceladas “quixoteanas” e cristãs, o príncipe, em sua hábil construção, possui traços de Jesus cristo, Dom Quixote (personagem de Miguel de Cervantes) e Pickwick (personagem de Charles Dickens).

Foi a figura de Dom Quixote – Dostoiévski revela-o numa carta à sua sobrinha, Sofia Ivanova – que lhe trouxe primordialmente a inspiração do Idiota. Pensou ele em criar o tipo de Quixote cristão. Ao mesmo tempo, outro tipo, que não é mais do que um Quixote inglês, o Pickwick, de Dickens, vinha reforçar as sugestões do primeiro. São bem conhecidas as aventuras desse herói dickensiano. Mister Pickwick é um bom burguês, com cerca de cinquenta anos, corado, bochechudo, possuidor de largos rendimentos e com um fundo enternecedor de ingenuidade. Os inúmeros casos em que ele se envolve, sempre iludido na puerícia de sua boa fé, conservando, apesar de tudo, a mesma atitude de bonomia, otimismo e confiança nos homens, constituem o enredo do romance, até hoje lido com o maior encanto. (BROCA, 1949).

Sendo assim, pode-se estabelecer a característica comum em todos as três personagens: são ridículas e burlescas. (BROCA, Brito).

De maneira recorrente, na obra completa do autor, um conflito parece afligir grande parte das personagens: o conflito entre a Lei de Cristo (amar o homem como a si mesmo) e a lei da personalidade (o ego e os desejos individuais). (ARAÚJO, Paulo Afonso). Parece-me que em Míchkin, as duas coisas andam juntas, quando o que mais existe é o desejo de fazer o bem e o amor pelo próximo que preenche o interior desse Jesus Cristo quixoteano. E é aí que se vê a possibilidade da existência de tal personagem, uma vez que “o egoísmo humano sempre impedirá a plena realização do ideal de Cristo na terra” (ARAÚJO, Paulo Afonso), e Míchkin não perpassa a dificuldade de tal conflito. É o conflito do desejo individual com o amar ao próximo como a si mesmo, quando a individualidade do ego trava um embate com a universalidade da lei cristã. E justamente, em uma sociedade moralmente decadente, o aparecimento de um homem como Míchkin causa numerosos conflitos, ao parecer que na inserção de tal homem perfeitamente moral em tal sociedade, a sensação mais presente, por parte das pessoas que o cercam, é a de estranhamento, tornando-o, em meio a todos, um idiota. Mas, Míchkin, apesar de tudo e todos, não abre mão de seu comportamento humanista. No Santo Evangelho, podemos tomar como referência à compenetração de Jesus em sua obra de amor e compaixão e à atitude de Míchkin na terra, um versículo: “Então Jesus disse: Quando tiverdes erguido o filho do homem, então havereis de entender que eu sou, e que por mim mesmo nada faço, mas falo tudo conforme o Pai me ensinou.” (Santo Evangelho, Pág. 325). Não diferente, Míchkin está profundamente apegado à missão de amor e compaixão de seu “Deus pai”.

Para não colocar em dúvida a procedência cristã de Míchkin, Dostoiévski, em uma das principais passagens de “O idiota”, insere relatos muito similares aos de Jesus Cristo no evangelho de João (BEZERRA, Paulo). Na maior das falas, Míchkin afirma, ao dizer sobre Marie, uma mulher tuberculosa por quem tinha extremo carinho, cuidado e compaixão:

Nessa ocasião eu lhe dei oito francos e pedi para conservá-los porque eu já não teria mais dinheiro, depois lhe dei um beijo e lhe disse para não pensar que eu tivesse alguma má intenção e que estava beijando não porque estivesse apaixonado por ela, mas porque tinha muita pena dela e desde o início não a considerava culpada de coisa nenhuma, apenas a achava infeliz. Tive muita vontade de consolá-la naquele instante e lhe assegurar que ela não devia se considerar tão baixa diante de todos, mas parece que ela não entendeu. Agora eu o percebo, embora ela tenha passado todo o tempo quase calada e postada à minha frente com os olhos embotados e uma terrível vergonha. Quando eu terminei, ela me beijou a mão e quis beijá-la mas ela a puxou rapidamente. Súbito as crianças olharam para nós, toda uma multidão; depois fiquei sabendo que elas vinham me espionando há muito tempo. Começaram a assobiar, a bater palmas e a rir, e Marie precipitou-se a correr. Eu ia querendo falar mas as crianças passaram a me atirar pedras. (DOSTOIÉVSKI, 2010, p. 95).

A partir de uma breve visita ao Santo Evangelho, pode-se encontrar referências a tal fato como a perseguição de Cristo pelos fariseus (BEZERRA, Paulo). Míchkin afirma, ao demonstrar a tentativa de diálogo inicial com as crianças, a partir do trecho que se segue, a dificuldade em dialogar com aqueles que não o ouviam de início, e que não compreendiam o que ele estava fazendo, ou mesmo o que queria dizer : “as vezes elas paravam e ouviam, mesmo que insultassem”. Um trecho do evangelho de João ilustra melhor a situação, ao, nas palavras de Jesus, dizer: “Eu sei que sois filho de Abraão, mas procurais matar-me porque minha palavra não penetra em vós”.1 E, diretamente demonstrando a semelhança proposital com a história de Jesus Cristo, pode-se analisar ainda o mais famoso versículo do capítulo 10 do mesmo evangelho, que diz: “Os judeus pegaram novamente pedras para o apedrejarem”.2

Desta maneira, Míchkin caracteriza-se como o reflexo literário da essência cristã de amar o próximo como a si mesmo e do cuidado, do amor e da compaixão para com os outros. Tal personagem é a mais pura, sutil, doce e magnífica representação cristã de uma cultura ortodoxa unida à defesa da superioridade eslavófila dos costumes russos em contraposição à cultura ocidental.

1Santo Evangelho, Edições Paulinas, 1970, Capítulo 8 V. 37, Pág. 326.

2Santo Evangelho, Edições Paulinas, 1970, Capítulo 10, V. 31, Pág. 333.

Bibliografia

ARAÚJO, Paulo Afonso. A emergência da concepção trágica da vida.

______. Os grandes romances e a filosofia.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Idiota. Tradução de Paulo Bezerra. Editora 34: São Paulo, 2002.

______. O Idiota. Tradução de José Geraldo Vieira. Editora Livraria José Olympio: Rio de Janeiro, 1949.

Santo Evangelho. Edições Paulinas: São Paulo, 1982.

 

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