O estrangeiro, de Albert Camus

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Obra do mês de novembro do Sempre um Livro, O estrangeiro, de Albert Camus, é um livro de pouco mais de cem páginas, carregado, contudo, de fortes estímulos ao pensamento do leitor. Concluído em maio de 1940 e publicado dois anos depois ao mesmo tempo que O mito de Sísifo, este romance pode ser considerado, em parte, a tradução romanesca das ideias contidas no ensaio sobre o absurdo.

Como vemos na primeira parte do romance, o enredo é simples: Meursault, o narrador, leva uma vida medíocre como empregado de escritório em Argel. Um dia, perde sua mãe – instalada há alguns anos em um asilo – e este fato não lhe desperta comoção. Nos dias que se seguem, se envolve com uma ex-colega de trabalho, aprofunda a amizade com Raymond, um vizinho de andar, e, envolvido em uma intriga amorosa deste último, termina por matar um árabe em uma praia.

Apesar de seu envolvimento com a história de Raymond, pessoalmente, Meursault não tinha motivos para desferir cinco tiros contra um homem desarmado que não o havia agredido. Exceção feita ao sol.

O livro possui ainda uma segunda parte na qual o narrador discorre sobre seu próprio julgamento (numa posição excessivamente parcial para um relato desse tipo) e sobre seus dias na prisão à espera do cumprimento de sua sentença. É aí que o caráter de Meursault se mostra por inteiro: nosso homem viveu (e ainda vive na prisão) “em uma espécie de torpor, uma ‘estrangeira indiferença’. Ele representa o homem diante da consciência do absurdo, (…) comportando-se como se a vida não tivesse sentido”. [1]

Camus assim se refere ao seu personagem no prefácio à edição americana do romance, dada a público em 1955:

Há muito tempo atrás, eu defini “O Estrangeiro” numa frase que percebo extremamente paradoxal: “Em nossa sociedade qualquer homem que não chore no enterro de sua mãe é passível de ser condenado a morte”. Eu apenas queria dizer que o ‘herói’ do livro é sentenciado porque ele não jogou o jogo. Nesse sentido, ele é um ”marginal” (outsider) para a sociedade em que ele vive, vagando nos subúrbios da vida, solitário e sensual. 

Por esta razão, alguns leitores têm o considerado como um ”excluído”. Mas para alcançar uma descrição mais acurada de seu caráter, ou melhor, uma descrição mais próxima das intenções de seu autor, é preciso se perguntar de que maneira Mersualt não joga o jogo. A resposta é simples: ele se recusa a mentir. 

Mentir não é apenas dizer o que não é verdade. É também e, especialmente, dizer mais do que é verdade e, no caso dos sentimentos humanos, dizer mais do que se sente. Todos fazemos isso, todos os dias, para tornar a vida simples. Mas contrário às aparências, Meursault não quer fazer a vida simples.

Ele diz o que ele é, recusa-se a esconder seus sentimentos e a sociedade sente-se ameaçada. Por exemplo, espera-se que ele se manifeste arrependido por seu crime, como é de costume. Ele responde que se sente mais incomodado com os distúrbios do fato do que verdadeiro arrependimento. É essa nuance que o condena.

Desta maneira para mim que Meursault não é um ‘excluído’, mas um carente e sincero homem, amando um sol que não deixa sombras. Longe de ser insensível, ele é dirigido por uma tenaz, e por essa razão, profunda paixão; a paixão pelo absoluto e pela verdade. Esta verdade é até aqui, e ainda, vista como negativa; uma verdade que nasce de viver e sentir e sem a qual nenhum triunfo de natureza interior ou do mundo será possível.

Assim não seria um equívoco entender “O Estrangeiro” como a estória de um homem que sem nenhuma pretensão concorda em morrer pela verdade. Eu disse uma vez, e também paradoxalmente, que tentei fazer meu personagem representar o único Cristo que merecemos. Será entendido, após estas explicações, que disse isso sem nenhuma intenção de blasfemar, mas simplesmente com um pouco de afeição irônica que um artista tem o direito de sentir em relação aos personagens que ele tenha criado. [2]

Após as palavras do autor, pouco tenho a acrescentar. Digo apenas que temas importantes presentes na obra, como a reflexão sobre a condição humana, a sátira social e a técnica narrativa certamente se farão presentes na discussão que o grupo levará a cabo nesta tarde de sábado. Desejo um bom encontro para nós e uma boa leitura àqueles que ainda não se aventuraram a ler esta obra e que eventualmente se sintam tentados a isso após a leitura deste blog.

[1] Tradução livre de trechos da página http://mael.monnier.free.fr/bac_francais/etranger/ [original em francês]

[2] Tradução encontrada em: http://cardealnordeste.wordpress.com/tag/o-estrangeiro/

Outra página consultada para elaboração deste texto:

http://www.boladafoca.com/2009/08/o-estranho-momento-presente.html

[Pós-escrito]

Depois de dias e dias às voltas com Camus e com O estrangeiro, consultando, via de regra, páginas estrangeiras me deparei com uma página brasileira dedicada ao autor e à sua obra. Deixo a indicação aos leitores para que possam desfrutar: http://www.albertcamus.com.br/

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