O engarrafamento sob a ótica de Cortázar

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A obra a ser lida nesse mês pelos membros do Sempre um Livro é Todos os fogos o fogo (1966), do escritor franco-argentino Julio Cortázar (1904-1984).

Dos oito contos que compõem a obra, o primeiro, A autoestrada do sul, é um belíssimo cartão de visitas, que de cara já mostra um pouco da genialidade e sensibilidade de Cortázar.

Quem já vivenciou e mesmo quem só ouviu falar, sabe que a experiência de um engarrafamento é por deveras maçante e fastidiosa. Pois bem, retirar dela algo com nuances poéticas e reflexivas talvez não seja pra qualquer um. Cortázar, no entanto, conseguiu realizar tal intento de maneira muito interessante em A autoestrada do sul.

No conto, ele descreve um engarrafamento de Fointeneblau a Paris que se arrasta por meses e faz com que os participantes de tal engarrafamento (identificados apenas por suas ocupações e pelas marcas de seus carros, como, por exemplo, o engenheiro do Peugeout 404, as freiras do 2HP, etc..) tenham literalmente que “se virar”.

Nesse ínterim, novas e curiosas relações vão se construindo e quando o leitor menos espera o engarrafamento enfim termina e os carros voltam à sua mecânica e acelerada marcha.

Pode ficar a pergunta: qual é a genialidade de Cortázar nesse conto, aparentemente banal? Acredito que qualquer leitura, ainda que desatenta do conto, responderá tranquilamente essa questão e fará com que qualquer um – mesmo aqueles que ainda não tenham tido nenhum contato com a obra de Cortázar – consiga ao menos perceber que, como afirmou Mario Vargas Llosa, a literatura de Cortázar “é um refúgio de sensibilidade e imaginação que nos ajuda a fugir da insegurança e do absurdo deste mundo”.

***

Obs. 1: Em entrevista Cortázar falou sobre o processo de criação de A autoestrada do sul. Ver aqui.

Obs. 2: O maior engarrafamento da história ocorreu na China, em agosto de 2010. Ao todo foram 11 dias de carros e caminhões parados. Sobre o fato ver o texto, em espanhol, de Vicente Verdú, que também relembra o conto de Cortázar e aponta o problema da urbanização na sociedade contemporânea.

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1 comentário

Arquivado em Sem categoria

Uma resposta para “O engarrafamento sob a ótica de Cortázar

  1. Muito bom!
    Engraçado que, lendo o conto, também me senti compelido à escrita. Veremos…

    Parabéns pela iniciativa, Rogério!

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