Breve comentário sobre o homem que levantou seu punhal contra Minas Gerais

O ano é 1912. A cidade é a pequena Curvelo, Minas Gerais. O dia, 14 de agosto. Nesse momento nasceu Joaquim Lúcio Cardoso Filho. Seus pais foram Joaquim Lúcio Cardoso e Maria Venceslina Cardoso e definir em uma palavra o que foi Lúcio Cardoso é uma tarefa extremamente complicada. Usaria várias só para começo de conversa: escritor, poeta, dramaturgo, pintor, artista plástico, diretor de cinema, apaixonado, intenso.

Em um de seus diário ele escreveu: “É verdade que eu não saberia viver sem a paixão; mas é verdade também que são tão poderosas suas forças na minha alma, que o seu tumulto me mata. Sobrevivo, pela graça de ser poeta” (Diário Completo, p. 101).

Essa entrega visceral de Lúcio à poesia e às artes em geral pode ser tomada como fio condutor de toda sua biografia. Outro ponto que também me chama muito a atenção em sua biografia e em suas obras é o que aludi textualmente no título desse comentário. Trata-se da polêmica relação de Lúcio com seu estado natal, que foi escancarada com esse fragmento:

Meu inimigo é Minas Gerais. punhal que levanto, com aprovação ou não de quem quer que seja, é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra família mineira. Contra literatura mineira. Contra jesuitismo mineiro. Contra religião mineira. Contra concepção de vida mineira. Contra fábula mineira. Contra espírito judaico bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne no seu espírito.(DepoimentoFicção,p.72).

A partir dessas duas chaves de leitura pretendo tecer breves considerações sobre a trajetória de Lúcio Cardoso e falar um pouco também sobre sua obra, em especial a literária.

Após seu nascimento, em 1912, Lúcio mudou-se com a mãe os irmãos para Belo Horizonte, em 1914. Viveu na capital mineira até 1923, e nesse período ganhou a fama de aluno endiabrado, que faltava às aulas e cometia outras peripécias típicas de um adolescente inquieto.

No ano de 1923, Lúcio e família transferem-se para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, Lúcio estudou no Instituto Lafayette e a fama de mal aluno só aumentou, por conta disso e de problemas financeiros Lúcio e família retornam a Belo Horizonte no ano seguinte.

Lúcio Cardoso é então internado no Colégio Arnaldo. Sua permanência ali durou somente um ano: foi expulso no fim de 1924.

Mesmo com tantas conturbações em sua vida escolar, desde cedo o apreço de Lúcio pelas letras é notado, e ainda adolescente, em 1929, Lúcio retorna ao Rio de Janeiro, daí pra frente ele permanece na capital carioca até o fim da vida.

O simples fato de ter permanecido no Rio já ilustra a antipatia de Lúcio por seu estado natal, no entanto, esse primeiro momento de sua vida em Minas Gerais jamais foi esquecido por ele – como atestam vários de seus poemas que falam sobre a infância, com extrema melancolia – ou seja, o ranço de Lúcio Cardoso por Minas Gerais parece não ser mera antipatia “sem causa”, mas sim, uma relação dialética, de amor e ódio, na qual o poeta fez prevalecer o ódio, talvez por uma necessidade extrema de se rebelar contra tudo o que condenava em Minas (a religião, a concepção de vida, o espírito judaico e bancário, etc.) e não por mero desdém.

A imensa profusão imagística presente na obra cardosiana deve muito às paisagens e situações mineiras. Ao lançar mão disso em suas obras, Lúcio parece não estar rejeitando por completo as montanhas mineiras, mas sim tentando mostrar como, segundo sua concepção de mundo, essas montanhas poderiam ser ainda mais belas caso a concepção de mundo mineira fosse outra.

Nos primeiros anos após seu retorno ao Rio de Janeiro, Lúcio precocemente publicou seu primeiro romance: Maleita (1934). A característica mais ressaltada desta primeira obra de Lúcio é o seu caráter “regionalista”, característica típica desse período da literatura brasileira, vide Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, etc. Esse ponto é muito ressaltado porque além da rebelião contra Minas Gerais, outra rebelião de Lúcio se deu justamente em relação a este tipo de escrita dita “regionalista”. Lúcio, em todas suas obras posteriores (sejam literárias, cinematográficas e/ou nas suas pinturas), preocupou-se muito mais com o psicológico, a subjetividade.

Seu segundo romance, Salgueiro (1935), já dá mostras disso. No decorrer das décadas de 30 e 40 Lúcio segue publicando muito: desde traduções, até novelas e seus dois únicos livros de poesia publicados em vida: Poesias (1941) e Novas Poesias (1944)1.

No início dessa década de 40 (mais precisamente no ano de 1940), Lúcio Cardoso conheceu Clarice Lispector e a relação entre eles foi um capítulo a parte na biografia de ambos. Clarice, mesmo casada, teria se apaixonado por Lúcio Cardoso, mas o relacionamento amoroso dos dois não teria vingado pelo fato de, entre outras coisas, Lúcio ser homossexual.

Falando assim, tudo parece ter sido simples demais, mas não foi. Lúcio Cardoso foi quem sugeriu o nome do primeiro romance de Clarice, Perto do Coração Selvagem (1943), e foi também quem despertou nela o anseio pela escrita, em especial pela escrita mais subjetiva e introspectiva, característica comum a ambos.

Outro capítulo da biografia de Lúcio que merece destaque é o seu contato com o cinema. Foi no fim da década de 40 (no ano de 1949), que Lúcio conseguiu produzir algumas cenas do que viria a ser considerado seu único filme, A Mulher de Longe2.

Na década de 50 Lúcio publicou, em 1954, O enfeitiçado e em 1959, sua obra-prima, a Crônica da Casa Assassinada.

Essa obra, considerada por muitos estudiosos da literatura brasileira como uma das grandes obras da história de nossa literatura, reúne talvez todas as principais características de Lúcio Cardoso enquanto romancista, poeta e ser humano.

O contato visceral com a arte e o punhal levantado contra Minas Gerais aparecem em primeiro plano nessa obra. Marcada por uma escrita requintada, densa e angustiante boa parte da obra se passa numa chácara no interior de Minas, a Chácara dos Meneses (família que representa a tradicional família mineira, tão criticada por Lúcio) e tem em Nina, uma carioca que casa-se com Valdo, o patriarca da família Meneses, a grande personagem e subvertedora dos tradicionais valores mineiros.

Essa intensa batalha contra Minas Gerais e a entrega radical à arte permeiam toda a vida e obra de Lúcio, e além disso o álcool e comportamentos desregrados também são presenças constantes na vida do corcel de fogo (alcunha dada por Clarice a Lúcio Cardoso).

Tudo isso culmina com um trágico episódio, ocorrido em 1962. Nesse ano, Lúcio Cardoso sofreu um derrame cerebral que, posteriormente, gerou uma hemiplegia (paralisação total de um lado do corpo, no caso de Lúcio, o direito).

Por incrível que pareça é nesse delicado momento da vida de Lúcio que a arte mais se fez presente. Impossibilitado de escrever, o poeta resolve entregar-se à pintura. Entre 1965 e 1968 ele chegou a realizar quatro bem sucedidas exposições com suas pinturas.

No ano de 1968, porém, muito debilitado, Lúcio faleceu no Rio de Janeiro, aos 56 anos.

O legado do mineiro revoltado é imenso. Devido às suas opções pouco convencionais – o romance subjetivo num meio regionalista, o homossexualismo, as sombras e a introspecção – Lúcio e sua obra permaneceram num limbo durante um bom tempo, nas últimas décadas, no entanto, percebe-se um resgate disso tudo feito por nomes como Ésio Macedo Ribeiro, Ruth Silviano Brandão, Valéria Lamego, Beatriz Damasceno, dentre outros.

Levantar seu punhal contra Minas Gerais não é tarefa fácil, mas penso que Lúcio a realizou com muito sucesso. O preço que ele pagou por isso talvez tenha sido caro, mas ainda assim muito válido. Preço que fez brotar versos como estes, com os quais fecho este breve comentário:

 Não sou poesia,

que poesia não é,

mas, simplesmente está.

Que ninguém aprende poesia,

pois poesia nasce,

como fé para o irremediavelmente perdido,

como porto nascendo das brumas para o navegante noturno3.

REFERÊNCIAS

CASTELLO, José. Clarice Lispector – Infelicidade Inspiradora. Disponível em:

<http://bravonline.abril.com.br/materia/clarice-lispector-infelicidade-inspiradora>. Acesso em 25

mar. 13

Centenário de Lúcio Cardoso – Imagem da Palavra.

Parte 1: http://www.youtube.com/watchv=UYnbD8C2o9E

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=vtdrPwBxhxI

Lúcio Cardoso: 100 anos de nascimento – De Lá Pra Cá. http://www.youtube.com/watch

v=NxYbNR84qUY

RIBEIRO, Ésio Macedo. O riso escuro, ou, o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio

Cardoso – bibliografia anotada (1934-2005). São Paulo: Nankin/EDUSP, 2006.

1Uma relação detalhada e completa de todas as obras de Lúcio pode ser encontra em RIBEIRO, Ésio Macedo. O riso escuro, ou, O pavão de luto. Um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso, Bibliografia anotada (1934-2005). São Paulo: Nankin: EDUSP, 2006.

2Restaram, no entanto, poucas cenas de tal filme. Elas foram recuperadas por Luiz Carlos Lacerda, compiladas com outras cenas e transformadas em um longa no ano passado, ano do centenário de nascimento de Lúcio Cardoso.

3Lúcio Cardoso, “Negação da Poesia” (poema inédito), s/d., 1fl.

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1 comentário

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Uma resposta para “Breve comentário sobre o homem que levantou seu punhal contra Minas Gerais

  1. Ailton Augusto

    Bom texto, Rogério! Essa questão do punhal levantado contra Minas é muito forte… em todo caso, acho legal ter em conta que nessa época (anos 30 a 50) o Rio ainda era capital federal e, penso que por isso mesmo, houve outros escritores que também saíram de MG em direção às praias sem que isso representasse uma ruptura com a terra natal. Drummond, por exemplo, vai dizer que “Itabira é um retrato na parede/ mas como dói!”. Eu encaro mais como essa relação tensa e dialética que você coloca e não sei se a atitude de Lúcio seria totalmente calculada ou se essa prevalência do ódio foi algo que se impôs no percurso de vida dele…

    Não vou me estender sobre a peleja “regionalismo” X “literatura introspectiva/psicológica”. Este é um ponto não totalmente resolvido na nossa história literária, de que dá prova o limbo em que a obra cardosiana permaneceu por tanto tempo. Clarice, que também “cosia para dentro” como Lúcio, só não caiu nesse limbo porque se fez mais popular escrevendo para jornais e contou com a simpatia da crítica para seus livros a partir dos anos 1960. Veja-se a recepção de Laços de Família e A paixão segundo G.H. A propósito, recomendo a leitura da crônica que ela dedica a Lúcio. Não me lembro agora o nome, mas com uma “googleada” qualquer um descobre.

    Com relação à Crônica da Casa Assassinada, acho que não só demonstra essa tese do punhal levantado contra Minas. É, principalmente, um retrato em tintas fortes do transtorno de nosso “estar no mundo” e disso dá prova a frase de Timóteo: “a única liberdade que temos é a de ser monstros para nós mesmos”.

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