O Dorian Gray das telonas

O Dorian Gray das telonas1

 Rogério Arantes

 “E, quanto a crer nas coisas, eu creio em todas elas, desde que sejam incríveis”2.

Lorde Henry Wotton

A obra “O retrato de Dorian Gray”, do escritor irlandês Oscar Wilde, que parece ter sido escrita no intuito de ser uma alegoria da sociedade inglesa do século XIX e, ao mesmo tempo, questionar e subverter valores morais e, principalmente, estéticos, despertou profundo interesse nessa mesma sociedade (sendo alvo de críticas e polêmicas por muitos, e de aplausos e admiração por tantos outros, estes últimos, em especial, artistas) e continua despertando interesse de muitos até os dias atuais.

Não é de se estranhar, portanto, que ela tenha recebido uma adaptação cinematográfica em pleno século XXI. O que muitos talvez não saibam é que, além dessa adaptação a que me refiro, feita em 2009, outras quinze adaptações cinematográficas da mesma obra de Wilde já foram feitas!

São elas: “Dorian Gray Portrait” (1910), “The picture of Dorian Gray” (1913), “Portret Doryana Greya” (1915), “The Picture of Dorian Gray” (1916), “Das Bildnis des Dorian Gray” (1917), “Az Élet Kiralya” (1918), “The Picture of Dorian Gray” (1945), “Dorian Gray” (1970), “The picture of Dorian Gray” (1973), “The Portrait of Dorian Gray” (1974), “A Nudez de Hollywood” (1978), “The Sins of Dorian Gray” (1983), “Dorian Gray – Pacto com o Diabo” (2001), “The Seven Deadly Sins: Gluttony” (2001), “The Picture of Dorian Gray” (2004) e “Dorian” (2005).

Uma apreciação de todas essas adaptações (em especial para os cinéfilos de plantão) seria deveras interessante, mas como tive contato apenas com a mais recente, feita em 2009, será dela (e de suas relações com a obra original) que falarei no presente texto.

A obra de Wilde, segundo minha interpretação, procura ir fundo em pelo menos dois aspectos: a valorização extremada dos ambientes em que se decorrem as cenas; seja na exacerbação do aspecto límpido e harmonioso das mansões onde ocorrem as festas e das mansões de Basil e Dorian, típico da burguesia inglesa do século XIX, seja na exacerbação do aspecto feio e grotesco das cenas em que aparecem Sibyl Vane e sua família e, em especial, das cenas em que o próprio Dorian encara de frente toda essa fealdade (a cena final é talvez o melhor exemplo disso).

Além disso, outro ponto em que a obra de Oscar Wilde parece querer ser extremada é na densidade das conversas e argumentações entre as três principais personagens da obra: Dorian, Basil e Henry. O último é quase uma máquina de argumentações e tiradas ácidas, irônicas, que se tomadas como um todo dão margem até para uma legítima fundamentação filosófica (não é atoa que o jovem Dorian se sente tão atraído por essa eloquência toda de Henry).

Tendo isso mente, penso que qualquer adaptação da obra deveria buscar essa mesma radicalidade wildeana ao transpor o original para as telonas e não é isso o que parece acontecer no filme de Oliver Parker.

Ainda que tenha conseguido retratar de maneira interessante essas nuances da obra original, a adaptação de Parker parece não ir tão fundo quanto o livro. Os momentos nos quais Dorian vai às soturnas vielas de uma Londres não tão burguesa, no livro, são carregados de uma extrema tensão, a cena em que James Vane, irmão de Sibyl (que no filme é chamado apenas de Jim) tenta matar Dorian Gray, por exemplo: no livro ela ocorre depois de profundos questionamentos existenciais de Dorian, no filme, a simples ida de Dorian ao túmulo de Sibyl não parece conseguir dar conta de refletir esses questionamentos.

Já Lorde Henry Wotton e Basil Hallward, no filme, apesar de claramente possuírem seus papeis de grande importância dentro da trama, são muito pouco explorados, principalmente Henry. Como aludi acima, no livro temos várias colocações de Henry sobre a sociedade, a moral, a arte, enfim, sobre todos os temas que Wilde gostava de tratar e questionar, já no filme isso é colocado de maneira bem rasa, que pra quem não conhece o livro até pode ser válida, mas pra quem já leu, possivelmente a sensação de “quero mais” vai aparecer.

A adaptação também apresenta algumas “invenções”: o desenrolar da relação de Dorian com Sibyl Vane, até a fatídica morte desta é alterado, o capítulo que retrata a vida de Sibyl e sua família é suprimido, assim como a cena na qual Henry e Basil assistem uma atuação de Sibyl no teatro e sentem-se profundamente decepcionados, no filme, Basil sequer vai conhecer a então noiva de Dorian.

Outro ponto que foi suprimido no filme é o livro que Henry dá a Dorian e que, no texto original de Oscar Wilde, serve como um catalisador para as influências já fortíssimas de Henry sobre Dorian. Através da leitura desse livro Dorian vai absorvendo cada vez mais a filosofia de Henry e, assim, degradando-se moralmente de uma maneira mais e mais forte. O tal livro sequer é mencionado no filme.

Pra compensar, é introduzida uma nova personagem na adaptação. Trata-se de Emily Wotton, filha de Lorde Henry. Ela até desempenha um papel interessante no filme, torna-se companheira de Dorian e questiona o protagonista acerca da influência de Lorde Henry, de todo aquele cinismo adquirido por Dorian através do pai. No entanto, ela e o pai acabam participando da cena final (onde o grotesco retrato é revelado e Dorian morre), cena esta que no livro é exclusiva de Dorian e seu retrato, é ali onde todas as transformações, escolhas e atitudes de Dorian, e só dele, são refletidas, o caráter hollywoodiano da presença de Emily (como a mocinha que não quer ver seu heroi morrer) nessa cena final não caiu bem!

Ao lado de tudo isso, o filme conseguiu mostrar a degradação de Dorian de uma maneira muito boa, as cenas que retratam o jovem se entregando aos “prazeres da carne” não foram ofensivas nem ingênuas: apareceram e isso basta (há radicalidades e radicalidades: de nada adiantaria algo quase pornográfico nessas cenas se todos os outros aspectos já citados permanecessem superficiais, por isso achei válida a maneira pela qual essas cenas foram abordadas).

E além disso, o choque das pessoas com a eterna juventude de Dorian também foi colocado de maneira interessante, julgo eu. Isso é algo muito sutil – não a eterna juventude de Dorian, mas a reação das pessoas perante isso – e no filme essa sutileza apareceu.

Enfim, a adaptação de Oliver Parker não se configura, pra mim, como uma adaptação fiel ao livro, nem como uma adaptação ousada, no sentido de recriação e adição de elementos novos que não soem anacrônicos. A título de divulgação do polêmico e instigante legado de Wilde, contudo, é uma adaptação que vale a pena.

1Breve comentário sobre a adaptação cinematográfica da obra “O retrato de Dorian Gray” (1891) de Oscar Wilde, dirigida por Oliver Parker, em 2009. Contém spoilers duplos! Tanto do livro quanto do filme.

2WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Tradução de Paulo Barreto (João do Rio). São Paulo: Hedra, 2006. p. 38.

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