Uma tragédia florentina (Oscar Wilde)

Bianca: Por que não me disse que era tão forte?

Simone: Por que não me disse que era bonita?

Ele a beija na boca.

(Desfecho da peça “Uma tragédia florentina”, de Oscar Wilde)

Mais um fragmento disponível no “Teatro Completo” de Oscar Wilde, no volume II, da editora Landmark, a peça Uma tragédia florentina (A florentine tragedy) é, segundo Robert Ross, uma demonstração de que Wilde, por paradoxal que pareça, gostava de não começar as coisas que terminava.

Acontece que este fragmento foi encontrado por Ross, após a morte de Oscar Wilde, sem o começo, a(s) cena(s) inicial(iniciais). Tempos depois, Ross teve a oportunidade de comparar este manuscrito com uma outra versão da mesma peça, que estava com outro conhecido de Wilde, e a suspeita foi confirmada: a peça carecia de um início.

Ainda assim, trata-se de um texto bastante interessante, cuja situação ocorre em Florença, no início do século XVI. Um comerciante retorna à sua casa e lá encontra, sozinho com sua esposa Bianca, o Príncipe Guido Bardi. O comerciante, de nome Simone, trata-o com fina hospitalidade, e acaba mesmo por vender diversas mercadorias para o Príncipe, que lhe oferece sempre mais que o valor pedido e merecido.

Com diversas alfinetadas à suspeita situação ali encontrada – o Príncipe sozinho com a mulher do comerciante – Simone vai gerando uma forte tensão, camuflada sob a polida educação e hospitalidade oferecida. Até que, por fim, o Príncipe decide voltar à sua própria residência, e pede seus pertences. Simone, então, pega a espada do “convidado” e a examina, elogiando-a. Pede a honra de comparar com a sua própria, que provavelmente não chega a se aproximar de tão bem trabalhada arma. Ela tem, contudo, corte, como a do Príncipe. E é o corte que os dois homens passam a comparar. A comparação é, no entanto, um duelo.

A tragédia tem um humor interessantíssimo, pela sutileza do enfrentamento entre os homens, e pelo desfecho: Simone acaba por matar o Príncipe. Sua mulher, então, corre para seus braços, apaixonando-se novamente por seu homem, que agora se mostra um bravo e corajoso companheiro. Simone, por seu turno, encanta-se com a beleza da mulher, antes depreciada por ele, mas vista sob nova perspectiva desde que o Príncipe em pessoa foi capaz de por ela se encantar.

Oscar Wilde colocou, nesta peça-fragmento, uma encantadora relação de tragédia e humor, tornando-a deveras interessante e peculiar.

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