A indicação de “O Alienista”

POR QUE A INDICAÇÃO DE “O ALIENISTA” (MACHADO DE ASSIS)?

 Ivan Bilheiro

 Entre tantos aspectos possíveis, qual escolher para falar da obra O Alienista, de Machado de Assis[1]? É a pergunta que me tenho feito há algum tempo, em busca de uma temática interessante para o texto sobre a obra do mês do Grupo de Leituras Sempre um Livro. Escolhi, por fim, falar um pouco sobre o motivo de ter feito esta indicação de leitura. Assim, encontro a oportunidade de aventar alguns elementos da obra, mas deixando que seu aprofundamento seja feito no debate do próximo encontro – e, ainda, despertando a curiosidade do leitor deste blog.

Meu primeiro contato e primeira leitura deste texto machadiano se deu na 6ª série do Ensino Fundamental (atual 7º ano – segundo ciclo), nas aulas de Português (ou Literatura, não lembro bem), com a professora Fátima. Colocados os alunos nas mesas da biblioteca do colégio, foram distribuidas algumas obras para serem lidas conjuntamente. Meu grupo ficou, então, justamente com O Alienista. A leitura me atraiu, e fui o único daquele grupo a chegar ao umbilicus, isto é, ler até o fim. Os colegas, mais preocupados em aproveitar a “aula diferente” para conversar, perderam esta oportunidade.

Já o segundo contato foi no 1º (ou 2º?) ano do Ensino Médio, em outro colégio, sob a batuta da professora Andréia[2]. Na verdade, aquele foi um “contato indireto”: o vestibular seriado da Universidade da minha cidade estipulou, como leitura obrigatória para aquele ano, o texto do Moacyr Scliar, O mistério da casa verde[3], uma espécie de releitura/adaptação do texto machadiano, com uma outra história, que pretende servir para despertar o interesse dos jovens leitores pelo conto original. A revolta da professora de Literatura se manifestava constantemente (e tive a oportunidade de conversar com ela, há poucos dias, sobre isso): nada contra o texto de Scliar – ao contrário, até havia a indicação de outra obra deste escritor, A majestade do Xingu[4] –, mas ela não se acertava com o julgamento da banca com relação à (in)capacidade dos alunos – afinal, por que não fazer com que leiam o texto mesmo de Machado, em vez de uma “adaptação para jovens”?! Uma “simplificação barata” da capacidade dos estudantes!

Estas duas situações aproximam-se justamente para, em conformidade com o pensamento de minha professora Andréia, mostrar que o texto de Machado de Assis é passível da leitura dos jovens e, como ela bem disse, a gargalhada é certa. Há em O Alienista profundas críticas sociais, em especial à prepotência da ciência, que naturalmente não percebi em minha primeira leitura, ainda com cerca de 13 anos de idade; mas nada me impediu de apreciar o texto e de compreendê-lo enquanto uma narrativa ficcional, e um conto magnificamente envolvente, mesmo pelo humor ali contido.

Ademais, a adaptação feita por Scliar é, a meu ver, pobre, mal concebida e mal elaborada. Ao invés de colcoar os estudantes para ler um texto bem elaborado, como O Alienista, a Universidade optou por estipular a leitura de uma “adaptação” que tem como personagens adolescentes, da geração do século XXI, que chamam uma linda garota de “garota bonérrima” e “um avião”. Faltou pesquisa para compor estes personagens, não?!

Agora, um “leitor maduro” (a expressão não é boa, mas não encontro outra melhor), consigo capturar e me divertir com outros diversos aspectos d‘O Alienista, o que reafirma a vivacidade e a riqueza da obra machadiana. Entre os elementos que me despertam interesse na obra, e que deverão ser tema de debate no encontro do Sempre um Livro, está a riqueza e precisão vocabular de Machado. É claro, existem figurões que se opõem, mas o texto machadiano é admirável (cito o exemplo do professor Hemetério dos Santos, para quem a leitura de duas ou três páginas de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas seria suficiente para dar conta de toda a obra machadiana, por sua pobreza vocabular[5]).

É curiosa, também, a forma com que Machado de Assis retrata a questão da produção da loucura e o jogo de poder dos saberes (ciência). Segundo o professor Roberto Gomes, da Universidade Federal do Paraná[6], deve-se enxergar aí um tratamento inédito do tema, posto que esta discussão só se daria, com profundidade, por volta da década de 1960. Este é o principal aspecto que me levou à indicação deste texto.

Por fim, e sei que este é um dos pontos mais interessantes da obra do mês, deve-se fazer coro à pergunta feita pelo personagem vereador Sebastião Freitas: “[…] quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (ASSIS, 1972, p. 218). Ao fim e ao cabo, Simão Bacamarte, protagonista da história, estava mesmo louco – e foi o único louco de Itaguaí, como corria em boatos, segundo nos conta Machado ao final da trama?! Ou o médico era um “cavaleiro andante da ciência” (GOMES, 1993) e, ao estilo Plus ultra!, rendia-se aos mandos das suas pesquisas, como um bom e, sobretudo, sensato profissional?!

Por tudo isso, e ainda diversos outros elementos, sei que a escolha foi boa e que o debate sobre O Alienista, que me foi obstaculizado tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, será imensamente proveitoso aos integrantes do Sempre um Livro. Encontro marcado, portanto, no próximo sábado, no Salão Nobre da Casa Verde – nenhum lugar melhor, já que somos todos, como dizem que disse Voltaire, uns loucos….

_________

[1] ASSIS, Machado de. O alienista. In: ______. Helena / O alienista. São Paulo: Editora Três, 1972. (Obras imortais da nossa literatura). p. 189-247.

[2] Trata-se da Profª Drª Maria Andréia de Paula Silva (http://lattes.cnpq.br/7552317392777753).

[3] SCLIAR, Moacyr. O mistério da Casa Verde. São Paulo: Átiva, 2004. (Descobrindo os clássicos).

[4] SCLIAR, Moacyr. A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[5] A informação está no texto “Artilharia do idioma: polêmicas movimentaram a vida literária do Brasil em fins do século 19 e começo do 20 por causa de maus-tratos ao português e à literatura”, escrito por Gabriel Kwaik e Luiz Costa Pereira Junior para a Revista Língua Portuguesa, ano 2, n. 20, de junho de 2007. Trata-se de uma referência a uma das situações abordadas pela pesquisadora Anna Lee no livro “O sorriso da sociedade” (Ed. Objetiva, 2006).

[6] No artigo “O alienista: loucura, poder e ciência”, da Revista Tempo Social (Revista de Sociologia da USP), n. 5, 1993, p. 145-160. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/site/images/stories/edicoes/v0512/Alienista.pdf>. Acesso em 3 nov. 2012.

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