Arquivo do dia: 12 de outubro de 2012

“O fazedor”: tentativas de achar a chave da porta de entrada ao universo literário de Jorge Luis Borges

O livro “El hacedor” (1960) (“O fazedor”, na tradução brasileira) traz em si vários elementos que o qualificam como excelente porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor, Jorge Luis Borges. Aparentemente, trata-se de um livro banal, uma miscelânea de contos curtos e de poemas metrificados. Entretanto, nada mais enganoso que deixar-se levar pelas aparências e pela indicação da contracapa.

Em primeiro lugar, porque este livro tem o mérito de romper com o hiato lírico na obra de Borges, autor que nos anos 40 e 50 brindou aos leitores apenas livros de ensaios e contos, embora entre estes encontrem-se maravilhas do quilate de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Ainda com respeito aos poemas, é bom notar que eles são compostos por versos metrificados, os quais são adotados tanto pelo esgotamento da estética ultraísta(*) quanto pela suposta facilidade de seu manejo por um homem que a essa altura já estava de todo cego.

Mas, contrariando a imagem que tradicionalmente fazemos de poesia, Borges usa seus versos para levantar questões filosóficas e apresentar ao leitor sua particular concepção de mundo. Atentemos a estes versos de “Ajedrez”:

También el jugador es prisionero 
(la sentencia es de Omar) de otro tablero 
de negras noches y de blancos días. 

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. 
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza 
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Voltando ao engano das aparências, destacamos, em segundo lugar, que os textos em prosa reunidos em “O fazedor” representam uma viragem na concepção estética do artista. Borges passa a tensionar os limites da narrativa, emparentando-a com a reflexão filosófica, e a investir na concisão quase extrema, reduzindo os relatos a uma página ou pouco mais que isso. E antes que eu me esqueça, é também a primeira vez que Borges publica um livro híbrido. Outro ponto a notar é o questionamento em torno da figura do autor que comparece em alguns desses textos e, por suposto, da autoridade que esse personagem teria. “Borges y yo” é o melhor exemplar do que estamos falando:

      Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
         No sé cuál de los dos escribe esta página.

O conjunto de materiais reunidos em “O fazedor” apresenta, pois, um convite de seu autor à reflexão sobre o ofício de escrever e sobre a validade dos gêneros como instituição literária. Essas reflexões até podem nos ajudar a penetrar melhor no universo borgeano, como disse no início do texto, mas representam uma porta de entrada que não está escancarada… ela ainda exige que tateemos à procura da chave e da fechadura.

Nota:

(*) Ultraísmo: Foi a primeira vanguarda literária espanhola em língua castelhana, gestada entre 1918 e 1925. Chega à Argentina pelas mãos de Jorge Luis Borges, que voltava de uma temporada com a família na Europa. Entendido pelos seus idealizadores como um movimento literário (e não uma escola estética), o ultraísmo compilou fragmentos do cubismo literário, do futurismo, do expressionismo e do dadaísmo e tinha como objetivo criar uma renovação/ruptura no panorama da literatura espanhola.

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Jorge Luis Borges: tentativas de acercamento ao “mito”

Começo a traçar estas linhas sobre Borges aproveitando a feliz constatação do companheiro Rogério Arantes, expressa em outro texto deste mesmo blog: “No entanto, não sei bem porquê, Borges é um daqueles autores que, principalmente se você está envolvido num ambiente acadêmico, como é o meu caso, você sempre ouve falar e, querendo ou não, fica com aquela vontade de ler e conhecer.”

Essa frase resume perfeitamente o “peso” que o nome de Borges adquiriu com o passar dos anos, a aura de mito que o envolve e a consequente dificuldade que isto coloca no momento de escrever sobre ele, ainda que seja apenas uma apresentação simples, como esta pretende ser.

Antes de seguir, apenas uma observação sobre algo que notei lendo a obra do mês – O fazedor – e que acredito ajudaria a diminuir o culto. Neste livro, Borges tenta em mais de uma ocasião desfazer a aura em redor de sua figura, comparando-se com Groussac e Lugones, confundindo-se no labirinto de nomes e figuras que é a história literária. E em “Borges y yo”, um falso convite à intimidade, ele escreve: “Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición.” O foco na tradição em lugar da linguagem, creio eu, é que alimenta o mito. Mas não estou em posição de discorrer profundamente sobre o tema.

Passemos, pois, à apresentação de Jorge Luis Borges. Nascido em 1899 na cidade de Buenos Aires, ele é um dos orgulhos nacionais da Argentina e eterno injustiçado da Academia Sueca, concedente anual do Prêmio Nobel de Literatura. Iniciou sua carreira literária nos anos vinte, editando revistas de vanguarda como “Prismas” e “Proa” e publicando livros de poemas como Fervor de Buenos Aires e Luna de enfrente.

Nos anos 30, aproximou-se das irmãs Victoria e Silvina Ocampo, que lhe apresentaram Adolfo Bioy Casares, com quem Borges escreveu alguns volumes dedicados à literatura fantástica e policial, além de traduções.

A década de 40 assistiu à publicação de dois volumes de contos tidos hoje como antológicos – Ficções (1944) e  O Aleph (1949) e também à progressão da cegueira do autor, que em 1955 perde quase por completo a visão e passou a depender do auxílio da mãe e de amigos para ler e escrever.

O ano de 1955 se destaca também pela distinção conferida ao escritor após a queda do governo de Perón: Borges é eleito membro da Academia Argentina de Letras e nomeado diretor da Biblioteca Nacional. A assunção do cargo combinada com a perda da visão deu origem aos excelentes versos do “Poema de los dones” (cito apenas as primeiras estrofes):

Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

Em 1961 Borges divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado pelo Congresso Internacional de Editores, distinção que o coloca em evidência no contexto literário mundial.

O cargo de diretor da BN Argentina foi ocupado por Borges até 1974, quando os peronistas retornaram ao poder e o exoneraram. Dois anos depois, quando foi instaurada a ditadura no país porteño, o autor chegou a comemorar o fato, sendo desde então associado à “direita” e criticado por seu posicionamento político. No mesmo organiza um volume de suas Obras Completas, editado por Emecé Editores.

Em 1979, recebe o Prêmio Cervantes, maior distinção literária aos autores de língua espanhola e no ano seguinte assina junto com outras personalidades argentinas um documento lançado pelo jornal Clarín – a  “Solicitada sobre los desaparecidos”.

Seu último livro – Los conjurados – foi publicado em 1985. Borges faleceu em 1986 na cidade de Genebra, Suíca. Deixou uma prolífica obra literária e, considerando-se que ele viveu quase trinta anos dentro da noite aludida no poema acima, faz sentido que tenhamos guardado dele a imagem de um demiurgo cego, apoiado em sua bengala e criando mundos através da literatura.

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