Sagarana: a prima obra de Rosa

A leitura de João Guimarães Rosa continua e os escritos também. Depois de escrever um breve texto que contém informações biográficas do autor e a listagem de todas as suas obras publicadas em vida, escrevo hoje um pouco sobre a obra que nós, do Sempre um Livro, estamos lendo: Sagarana.

Como havia dito no texto anterior, a obra foi a primeira publicação de Guimarães Rosa. Sua primeira edição saiu em 1946, pela José Olympio Editora. Oito anos antes, uma primeira versão da obra, intitulada Contos e assinada por Guimarães Rosa com o pseudônimo de Viator, foi premiada no Concurso Humberto de Campos com o segundo lugar, perdendo para Maria Perigosa de Luís Jardim.

Desta primeira versão para a versão definitiva de Sagarana algumas alterações foram feitas: três contos (Questões de Família, Uma História de Amor e Bicho Mau) foram retirados e os nove remanescentes passaram por algumas revisões durante o ano de 1945.

Os vários elogios feitos à Guimarães Rosa e suas obras no post anterior e os elogios que fatalmente virão também nesse post, não são feitos sem propósito, pensando apenas na figura histórica de Joãozito ou então na sua fama que o coloca entre os “deuses” da Literatura Brasileira. Tudo isso é sim muito válido, no entanto, ao me deparar com Sagarana o que encontrei foi uma escrita única, que poderia ser desvinculada de qualquer rótulo, dada toda sua originalidade e, por que não, complexidade. Falo isso em especial por dois motivos: o primeiro é o fato de muitos leitores desavisados e/ou superficiais rotularem a obra de Guimarães Rosa como uma obra regionalista. Em um pequeno artigo falando sobre Sagarana, intitulado A Arte de contar em Sagarana, Paulo Rónai nos alerta sobre esse perigo de, ao rotular a obra de Guimarães Rosa, reduzi-la:

Para muitos escritores fracos, o regionalismo é uma espécie de tábua de salvação, pois têm a ilusão – e com eles parte do público – de que o armazenamento de costumes, tradições e superstições locais, o acúmulo de palavras, modismos e construções dialetais, a abundância da documentação folclórica e lingüística [sic] suprem as falhas da capacidade criadora. Pelo contrário, para os autores que trazem uma mensagem humana e o talento para exprimi-la, o regionalismo envolve antes um obstáculo e uma limitação do que um recurso. (RÓNAI, 2001, p. 15)

Durante a leitura de Sagarana fica claro que Guimarães Rosa pertence ao grupo dos autores mencionados na última frase da citação e que, com muita sensibilidade e leveza, consegue ultrapassar o “obstáculo regionalista”.

Além disso, outro ponto que me incomoda quando o assunto é Guimarães Rosa é a exaustiva “queda” das suas obras nos vestibulares. Ainda que este assunto não seja nosso principal ponto a ser discutido, acredito ser válido um pequeno parágrafo paralelo para explorá-lo.

Cada vez mais percebo que (hoje isso se torna até óbvio) a obra roseana requer muita vivência, experiência e profundidade por parte do leitor para ser lida de uma maneira intensa e impactante, como acredito que devem ser lidas todas as obras de qualquer autor. Não quero dizer, com isso, que uns são melhores leitores do que outros, ou que os vestibulandos não possuem a vivência necessária para ler Guimarães Rosa, não, não é isso. O grande problema é que, ao terem de encarar a obra de Guimarães Rosa por obrigação, para passar em uma prova ou concluir um curso qualquer, boa parte dos leitores possivelmente não a lerá de uma maneira intensa e impactante, buscando qualquer tipo de sentido na obra. Dessa forma, toda a riqueza literária de Guimarães Rosa corre o sério risco de ser jogada fora por esses leitores, que, além de perderem uma boa leitura para a adolescência ainda podem criar uma antipatia com a obra e perderem uma ótima leitura para a vida toda. Guimarães Rosa pode até já ter se tornado um clássico da Literatura Brasileira e figurar no “panteão” da mesma, no entanto, sua obra não merece e nem deve ser colocada na estante dos clássicos fechados e obsoletos, sinônimo de chatice e complexidade excessivas para potenciais novos leitores. Respeito com a obra do hômi, que não é nenhuns-nada fraca!

Como já disse, esses (a rotulação/redução da obra de Guimarães Rosa como regionalista e a excessiva “queda” dessa mesma obra nos vestibulares) são dois pontos que me incomodam em relação à obra roseana e que acredito serem de certa relevância para a discussão do Sempre um Livro, no próximo dia sete. No entanto, não pretendo ficar aqui escrevendo pontos que me incomodam em relação a este belo livro que é Sagarana. Tenho infinitos motivos para, ao invés disso, falar de pontos positivos da obra, que ao invés de me incomodar, me animam e muito para continuar lendo e relendo a mesma e também escrevendo e discutindo sobre. É, aliás, o que passo a fazer a partir de agora.

No intuito de proporcionar uma breve introdução à discussão do próximo encontro, farei aqui um breve comentário sobre cada um dos contos (ou novelas) de Sagarana, procurando encontrar possíveis pontos de discussão e/ou pontos que por si só me chamaram a atenção e não necessariamente precisam ser discutidos.

A novela que abre a obra é “O Burrinho Pedrês”. Já de cara, Guimarães Rosa nos coloca em um ambiente comum a todas as novelas da obra: o sertão mineiro. O enredo, repleto de histórias paralelas, o que traz várias personagens à baila, basicamente conta a história do carregamento de uma boiada do Major Saulo e, posteriormente, do afogamento do grupo de vaqueiros que carregava essa boiada. A figura do burrinho pedrês, além de dar título à novela, é central dentro do enredo e nos faz refletir sobre a sabedoria adquirida com o tempo, com a experiência. Narrada em terceira pessoa, a novela já mostra a ironia fina do narrador onisciente, marca comum em todas as novelas narradas em terceira pessoa e contidas na obra.

“A Volta do Marido Pródigo”, segundo o próprio Guimarães Rosa é “a menos ‘pensada’ das novelas do Sagarana” (ROSA, 2001, p. 26). Isso talvez fique claro no decorrer da novela pela maneira sem muita cerimônia pela qual os “capítulos” vão se desenrolando. A personagem mencionada no título da novela, o marido pródigo, é Lalino Salãthiel: um malandro sertanejo, contador de histórias e causos, que vai embora do sertão, mas decide voltar. Um trecho que talvez ilustre bem a decisão de Lalino, de voltar pra casa é esse: “O dinheiro se fora. Rareavam os biscates. Veio uma espécie de princípio de tristeza. E ele ficou entibiado e pegou a saudadear” (ROSA, 2001, p. 118). Não foi apenas para ilustrar a decisão de Lalino voltar pra casa que fiz essa citação. O último verbo é criação exclusiva do autor, uma das muitas.

A novela “Sarapalha” é a mais curta dentre todas. E talvez também a mais simples. No entanto, as figuras humanas, dos dois primos (Ribeiro e Argemiro) são muito bem exploradas. O desfecho e a novela como um todo nos proporcionam um tom melancólico, mas de uma melancolia notadamente sertaneja. O forte contato do homem e do animal é mais uma vez explorado, ainda que de maneira mais tímida do que na primeira novela da obra.

Em “Duelo”, nos deparamos com uma verdadeira caçada onde caça e caçador não possuem estatutos definidos. São ambos homens: Turíbio Todo e Cassiano Gomes. Interessante notar as várias referências às sabedorias popular e religiosa e também o desfecho inesperado, mas muito bem pensado. Além de tudo, esta novela (como quase todas as outras, escolhi meio que aleatoriamente este detalhe para essa novela em específico), nos proporciona cenas de um humor fino, que flerta com a ironia e o sarcasmo. Cito uma fala de Cassiano Gomes, o ferrenho rival de Turíbio Todo: “- Você conhece o Turíbio Todo, o seleiro, aquele meio papudo?… Pois é um… (Aqui, supostas condições de bastardia e desairosas referências à genitora.)” (ROSA, 2001, p. 181).

“Minha Gente”, uma das poucas novelas narradas em primeira pessoa (à exemplo de “São Marcos” e “Corpo Fechado”) é a história de um homem que vai à fazenda de seu Tio Emílio e se vê envolvido em um ambiente que mistura figuras exóticas do sertão, como o enxadrista Santana, seu Tio Emílio e a política e tudo o que envolve este assunto em um ambiente sertanejo (a política é explorada também em outros contos, como, por exemplo, “A Volta do Marido Pródigo”) e, enfim, a sua relação com sua prima Maria Irma. A maneira pela qual Guimarães Rosa trata essa relação amorosa é genial! Faz uso disso, inclusive, para criar certo humor irônico no desfecho da novela.

A novela “São Marcos” é onde encontramos mais numerosas referências à paisagem, ao ambiente, num exercício literário possivelmente muito árduo por parte de Guimarães Rosa. O enredo, no entanto, não fica pra trás, é marcado pelo elemento místico, mágico, também presente em outras novelas da obra.

Em “Corpo Fechado”, temos registradas as impressões de um “doutor” que vai viver em uma cidadezinha do interior. Dentre tudo e todos, o que mais chama a atenção do narrador é a figura de Manuel Fulô, uma das principais personagens de toda a obra, acredito eu. Com muita sagacidade e irreverência, Manuel Fulô vai contando suas histórias e um desfecho também relacionado ao elemento místico encerra a novela.

“Conversa de Bois” é outra novela que contém uma das principais marcas de Guimarães Rosa: os animais que falam e pensam. Isso, no entanto, assim como o regionalismo de Guimarães Rosa corre o risco de ser reduzido. Guimarães Rosa não faz uso dessas figuras para exaltar os animais pura e simplesmente, parecer ser muito mais um exercício de se repensar a relação homem-animal e suas nuances.

A novela que fecha a obra e que é uma das principais novelas de toda obra é “A Hora e Vez de Augusto Matraga”. Segundo o próprio autor, esta novela é a “história mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, […]” (ROSA, 2001, p. 28). Aqui, a personagem citada no título da novela, se mostra como uma das personagens mais densas de toda a obra e as situações que a envolvem fazem da novela em questão um potencial ponto de discussão para as relações humanas articuladas em especial através de três âmbitos: o religioso, o psicológico e o antropológico.

Guimarães Rosa, ao falar sobre suas intenções acerca da obra, fala de um ideal: “Um ideal: precisão, micromilimétrica” (ROSA, 2001, p. 24). Parece até estranho e contraditório falar de precisão, ainda mais micromilimétrica, quando o assunto são as relações humanas, ou as relações homem-animal, alguns dos pontos tratados em Sagarana. Entrementes, Guimarães Rosa, ao revelar este ideal, nos dá uma mostra de toda sua ousadia enquanto escritor e enquanto observador do sertão e do mundo. Para uma “prima obra”, Sagarana se mostra com potencial para ser até obra prima.

Pra fechar esse post, que tinha como objetivo principal fazer breves comentários sobre a obra que está sendo lida durante o mês de junho pelos integrantes do Sempre um Livro, cito uma passagem da própria obra, uma descrição de uma personagem secundária, Bento Porfírio, mas que mostra como até mesmo nas personagens secundárias e marginais, Guimarães Rosa dá conta de colocar alguma coisa, alguma coisa não só diferente e original, mas sim alguma coisa micromilimetricamente roseana:

Bento Porfírio é um pescador diferente: conversa o tempo todo, sem medo de assustar os peixes. Tagarela de caniço em punho, e talvez tenha para isso poderosas razões. E tem mesmo. Está amando. Uma paixão da brava, isto é: da comum. Mas coisa muito séria, porque é uma mulher casada, e Bento Porfírio também é casado, com outra, já se vê (grifo meu) (ROSA, 2001, p. 228).

Parafraseando Joãozito, digo que estou fazendo uma leitura de sua obra da brava, isto é: da comum.

REFERÊNCIAS

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

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