Guimarães Rosa: o sertão e o ser inacabado

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:  

esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois  desinquieta. 

O que ela quer da gente é coragem.”

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Traduzir com sensibilidade ímpar a matéria bruta do sertão, penetrar em meandros densos e profundos das percepções e da interioridade das pessoas, falar com os animais, criar e ser re-criado, repensado. Tudo isso e mais pouco eram algumas das atividades e particularidades do autor que nós, do Sempre um Livro, estamos lendo este mês.

Falo de João Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, nascido a 27 de junho de 1908, Guimarães Rosa viveu até os onze anos em sua cidade natal, em um ambiente caracteristicamente sertanejo e rural, e desde cedo cultivou um enorme gosto pelos idiomas e pelas letras. A mudança para a capital fez com que Guimarães Rosa estudasse até os dezesseis anos no Colégio Arnaldo. Neste período, sua predileção pelas línguas e pela literatura tornou-se ainda maior.

Com apenas dezesseis anos, Joãozito (apelido pelo qual era conhecido por familiares e amigos) matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais e, cinco anos depois, em 1930, formou-se. Nesse mesmo ano, casou-se com Lígia Cabral Pena, que na época tinha apenas dezesseis anos. Da união dos dois nasceram as únicas filhas de Guimarães: Vilma e Agnes. Uma curiosidade (essa talvez seja a palavra que melhor define o fato a ser contado) é que o nome da primogênita veio de um jogo de palavras do próprio Guimarães Rosa: como médico formado, ele mesmo fez o parto de Vilma, e ao vê-la pela primeira vez, disse à sua esposa: vi uma rosa!

Após o casamento e o nascimento de suas filhas, Guimarães Rosa seguiu para o interior para exercer sua profissão de médico. Primeiro foi para Itaguara, ainda em 1930, depois seguiu para Passa Quatro, em 1932, (onde serviu como médico voluntário durante a Revolução Constitucionalista daquele ano) e em seguida rumou para Barbacena, em 1933. Este período da vida de Guimarães Rosa contribuiu e muito para sua literatura, aproximou o autor de sentimentos e experiências da vida humana que podem estar refletidos em seus personagens. Além do mais, também foi um período em que o contato com o interior e o sertão voltou a ser muito intenso, depois de alguns anos vivendo na capital. Mesmo gostando e atuando na área médica, Guimarães Rosa, desiludido por não poder salvar todas as pessoas e vendo inclusive muitas delas morrerem nos seus braços, abandonou a medicina e partiu para à diplomacia – uma nova empreitada em sua vida.

Como diplomata, nosso autor exerceu, durante os primeiros quatro anos após sua entrada no Itamaraty (de 1934 a 1938) atividades em solo brasileiro. Em 1938, no entanto, foi nomeado cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo e ficou no cargo até 1942. Durante esse período, Guimarães Rosa passou por experiências ímpares. Já com sua segunda esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, Joãozito emitiu vistos para facilitar a vinda de judeus para o Brasil, mais até do que o estipulado pelo governo brasileiro. Por esses atos e por toda sensibilidade que Guimarães Rosa demonstrou, ao lado de sua segunda esposa, o casal chegou a ser homenageado pelo Estado de Israel.

Em 1942, Guimarães Rosa retornou ao Brasil, passa algum tempo no Rio de Janeiro e depois segue para Bogotá, para continuar suas atividades diplomáticas.

Chegamos então no ano de 1946, ano que destacamos, pois foi o ano em que Guimarães Rosa publicou Sagarana, a obra que estamos lendo. Falaremos sobre ela em novo post, ainda esse mês. Por hora, adiantamos que a obra, composta por nove novelas, já faz de Guimarães Rosa um dos grandes nomes da literatura brasileira. Todas as suas obras posteriores só fizeram corroborar o que em Sagarana já era muito claro: a leveza e a liberdade das novas e das antigas palavras, um universo quase mágico, que resgata e conjuga o sertão e a erudição, a precisão e a facticidade. É o próprio Guimarães Rosa quem nos fala, de maneira sublime, do processo de criação desta obra:

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições – no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe (ROSA, 2001, p. 24).

Em 1948, Guimarães Rosa foi viver na França e ficou por lá até 1952. Essa foi sua última missão diplomática e, munido de extensa bagagem e experiência de vida, Guimarães Rosa decidiu se desligar da carreira diplomática. O foco de Joãozito voltou-se exclusivamente para a Literatura.

A dedicação é total e tanta que, em 1956, quase dez anos após o lançamento de seu então único livro, Sagarana, Guimarães Rosa publicou logo dois livros: Corpo de Baile (que, posteriormente, foi desmembrado em três: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá no Pinhém e Noites de Sertão) e sua magnum opus, Grande Sertão: Veredas.

As questões e provocações contidas nesta obra são instigantes, multívocas e muito intensas: o amor de Riobaldo por Diadorim, o pacto com o diabo, o sertão em si, o bem e o mal, a existência pensada de uma maneira autêntica e característica…

A partir de 1958, problemas de saúde, causados principalmente pelo tabagismo e pelo excesso de peso, consequências da vida sedentária de Guimarães Rosa, começaram a aparecer com maior freqüência. Isso, no entanto, não abalou o ritmo de criação do autor.

Em 1962, foi publicado Primeiras Estórias e, no ano seguinte, Guimarães Rosa foi eleito por unanimidade membro da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Joel Neves da Fontoura (Joãozito já havia sido recusado pela Academia em 1956). Aqui, no entanto, aparece uma nova curiosidade: Guimarães Rosa temia ser acometido de uma forte emoção ao tomar posse de sua cadeira na Academia e preferiu adiar tal data.

É publicado então, em 1967, Tutaméia – Terceiras Estórias, aquela que seria a última obra de Guimarães Rosa publicadaem vida. No mesmo ano, aos 16 de novembro, a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras, enfim, aconteceu. Apenas três dias depois, em sua casa no Rio de Janeiro, em Copacabana, Guimarães Rosa veio a falecer, com apenas cinquenta e nove anos.

O legado desse médico, diplomata e escritor é gigantesco: desde obras póstumas a várias e múltiplas leituras de suas obras. Fizemos aqui uma breve panorâmica da biografia de Guimarães Rosa para já possuirmos em mão algum material básico para a discussão do próximo dia 7 de julho. Ainda este mês, teremos um post falando especificamente sobre a obra Sagarana.

REFERÊNCIAS

ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

 

GUIMARÃES ROSA: O MÁGICO DO REINO DAS PALAVRAS: http://www.youtube.com/watch?v=jFumgOZIf2c

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1 comentário

Arquivado em Guimarães Rosa

Uma resposta para “Guimarães Rosa: o sertão e o ser inacabado

  1. Um admirável escritor, capaz de concentrar a grandiosidade de seu amplo conhecimento de mundo na formosura da vivência sertaneja, com precisão “micromilimétrica”.

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