A Peregrinação de Watteau à Ilha do Amor – Norbert Elias*

*Texto de Edgar Luiz, anfitrião do encontro realizado hoje.

Neste encontro do mês de junho, o Grupo de Leituras “Sempre um Livro” se debruça sobre a obra A peregrinação de Watteau à ilha do Amor (2005), da lavra do renomado sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Temos por trato que todo aquele que tem sua indicação elegida, fica a cargo de atuar como anfitrião da leitura ensejada, esboçando dizeres em torno do autor e/ou da obra.

Assim, por haver indicado a obra do mês, coube a mim este arguto prazer de brindar aos colegas um breve parecer acerca de Norbert Elias. Certamente que me refugiei no apreço ao debate historiográfico e, de imediato, me vem à memória as primeiras obras em que deparei com as questões das Mentalidades – termo este a que voltarei mais adiante – entremeio a discussões da historiografia e dos legados herdados do movimento dos Annales (1929-1989). O nome de Elias aparece, para nossa surpresa, de modo tardio, somente a partir de 1970. Apesar disso, destaca-se sua assídua atribuição paternal ao pensamento dos historiadores que tratam os recortes de longa duração. E, neste meu refúgio, sabia que não seria possível fazer minha apresentação com uma centelha de qualidade que seja sem referir-me ao prefácio de Renato Janine Ribeiro à segunda edição, em dois volumes, de uma das obras mais proeminentes de Elias, O processo civilizador (Editora Zahar, 1989). ← verificar porque no texto original havia duas indicações de data, 1989 e 1994. Acredito que a primeira seja a mais certa.

No referido prefácio, Renato Janine Ribeiro lamentava o pouco conhecimento entre os historiadores brasileiros daqueles tempos da obra de Elias, ao mesmo tempo em que elogiava o autor em largo passo pois encontrava em seus escritos uma leitura de caráter empolgante, a que poder-se-ia chamar de uma “história dos sentimentos”. Ainda segundo esse texto, a sociologia de Norbert Elias diferia da tradição das Mentalidades, originaria da França, pois tem sua base doutrinaria na Alemanha.

Norbert Elias representa um pensamento que nos admoesta por dirigir sua a atenção aos hábitos, em consonância com uma conduta de analisar a historicidade a partir das aparências. Em sua sociologia, chama-se atenção para os adestramentos e condicionamentos. Embora tidas para os tradicionais historiadores da “grande história” como uma escrita historiográfica pequena, as obras de Elias nos surpreenderam e surpreendem, acima de tudo, por fazer-nos pensar a relevância dos costumes na constituição do humano e da interação social deste com o tempo.

Volto, pois, ao conceito (ou, mesmo, conceitos) das Mentalidades. Neste caro verbete aos historiadores, buscarei uma concisão craseada, pois no debate a este respeito, na área historiografia, circulam (e suscitam-se) nomes de tão densa produção que não cabe aqui discorrermos sobre detidamente sobre cada um deles. Em vista disso, faço uma citação aos ditos do professor Ronaldo Vainfas na obra Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia: “É preciso ir além e buscar a base teórica das mentalidades. Deixar de fazê-lo é um risco que não se deve correr, sob pena de ter-se não a delimitação, senão uma caricatura, desta relevante corrente […].” (VAINFAS, 1997, p. 137).

O mote conceitual que abrange as Mentalidades designa uma análise em torno das atitudes mentais de uma sociedade, os seus valores, seus sentimentos, o imaginário, seus medos, verossimilhanças, enfim, todas as atividades inconscientes de determinada época. Em pauta estão os elementos culturais e de pensamento inseridos no cotidiano, que os indivíduos comumente não percebem estando por de trás dos fatos e das ideologias. Nesse conceito, está inserida a questão temporal, pois a mentalidade é considerada uma estrutura através da qual – de acordo com as palavras de Elias – podemos visualizar a “curva da civilização”. Em força contrária à velocidade no decorrer dos fatos, a mentalidade permanece por longo período com modificações lentas e pouco perceptíveis.

Em vista disso, acurando tais dizeres na mesma obra de Vainfas (1997) e com auxílio, para considerações finais, da historiadora Mary Del Priore, chamamos a atenção para a necessidade de, em meio às relações entre história do cotidiano e da vida privada, não esquecermos que, “[…] somos, antes de tudo, uma seqüência (sic) de gestos laboriosamente apreendidos nas circunstâncias mais diversas. […] esta seqüência (sic) […] que compõe o cotidiano tem, por sua vez, uma história no seio da ciência histórica.” (PRIORE, 1997, p.259).

Para dizermos da importância de Norbert Elias, nós percorremos (minimamente) o mais sutil caminho no pensar, pois a produção do autor é arguciosa e nos leva a refletir sobre uma sociologia das emoções. Observamos, pois, as alterações morais, frutos dos costumes que se alteram de tempos em tempos. Elias nos mostra que são necessários olhos atentos ao corriqueiro, uma profícua interação que deparará o ledor a obra deste incontornável nome na sociologia do século XX. Em meio à trama dos costumes humanos, Norbert Elias é um curioso viés para conhecer a história do que nos é dito a respeito da ideia de “progresso” e de “civilização”, tanto quanto para descobrir a nós mesmos.

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